Observatório da Qualidade no Audiovisual

Lana Gasparøtti: “Sou uma pessoa versátil e criativa”

Entrevista: Luana Piegas
Produção: José Duarte
Texto: Luana Piegas 

Abrindo caminho para as mulheres do “novo jazz” português, a luso-croata Lana Gasparotti tem-se destacado pela criatividade e versatilidade das suas composições. Natural de Lagos, começou a tocar piano ainda em criança, concluiu o conservatório clássico e formou-se em Piano Jazz e Música Moderna. Tocou em várias bandas até decidir dedicar-se ao seu projeto a solo: LANA GASPARØTTI. Em 2024, lançou o seu álbum de estreia, Dimensions, uma viagem por paisagens sonoras que levam a uma escuta profunda. O álbum é repleto de sons experimentais e fusões musicais que transitam pelo acid jazz, eletrónica e drum and bass, refletindo o gosto que sempre teve por diferentes estilos musicais. 

A paixão pela música vem de muito cedo. Influenciada pelo ambiente musical em casa e pelos pais, começou a tocar piano aos 5 anos. Ainda no secundário, dividia-se entre o estudo de artes e o conservatório, mas sempre teve a vontade de “brincar à música”, o que a levou a desenvolver uma sonoridade própria: “Se encontrei alguma linguagem, sinto que tem a ver com o ter passado tantas horas a explorar, a explorar o instrumento e a treinar o ouvido”, conta.  

Ao chegar o momento de decidir o caminho a seguir, hesitou entre artes e música. Tentou entrar na Escola Superior de Música de Lisboa, sem sucesso, e acabou por ingressar na licenciatura em Piano Jazz e Música Moderna na Universidade Lusíada – curiosamente, sem ter qualquer base sobre o género. Mudou-se para Lisboa, onde começou a tocar com diferentes bandas “[…] numa de me descobrir e perceber o que é que eu queria fazer […]”.

A sua carreira musical desde sempre foi marcada pela participação em vários projetos. Atualmente, toca com Pedro Mafama, Femme Falafel, Plasticine e Panda Collective, e colaborou no último álbum da Emmy Curl. Os convites surgem sobretudo por reconhecimento no Instagram ou por recomendações de outros músicos.Também aqui um interesse neste sentido de eu ser mulher instrumentista. Cada vez mais, sinto que isso tem sido a favor” revela a artista. 

Nas colaborações, Lana segue uma regra prática: aceita o projeto se for bem pago, se lhe der exposição, e se gostar muito do trabalho. Se pelo menos dois desses critérios se cumprirem, aceita integrar o projeto. Apesar de seguir esta lógica, valoriza muito o processo de colaborar, tentando sempre deixar a sua marca pessoal no trabalho 

Estas parcerias impactam também a sua abordagem enquanto artista a solo. Para a instrumentista, tudo é uma influência: o know-how, a experiência de estrada e a percepção de como a indústria musical funciona. Foi através dessas experiências que surgiu a oportunidade de integrar a agência Arruadauma conquista por mérito, mas onde reconhece também o peso de fazer parte da equipa de Mafama. Ainda que não se reflita diretamente na sonoridade, este percurso impacta o projeto a solo, tanto pelo estudo constante do piano, como pelas aprendizagens que traz da estrada. Estou sempre a ter de estudar, afirma. 

No palco, a distinção entre acompanhar artistas e apresentar-se a solo é evidente. Enquanto instrumentista, o foco é em executar bem o seu papel; no projeto próprio, tudo muda: a responsabilidade é total e a pressão é maior, no entanto, tem mais liberdade. 

A estética musical de Dimensions nasce dos seus gostos pessoais, alguns herdados dos pais, outros descobertos ao longo do tempo. Nomes como Jamiroquai, Prodigy, Robert Glasper, Flying Lotus e Hiatus Kaiyote foram fundamentais para formar o seu universo de referências. No álbum, cada faixa caminha por um género distinto, guiado por uma intuição criativa e complementada pelo trabalho de uma equipa de produção a quem faz questão de agradecer:  

Além de compositora e instrumentista, Lana é também professora de Linguagem e Composição Musical na ETIC Algarve. As aulas são práticas, focada na criação e composição de temas. Com os alunos, a troca é constante: “As minhas aulas é muito no genero de fazer beats, ou de fazer temas, […] eu sinto que os ajudo mais na parte de composição e o puzzle de desconstruir um tema […] se bem que, a parte de Ableton, que é o software que nós usamos de mexer mesmo, são eles que fazem. […] sinto que eles meio que me ensinam, então há esta troca. 

Apesar de se estar a associar à Now Jazz, nova label de Rui Miguel Abreu, a artista habituou-se a gerir grande parte da carreira de forma independente, sobretudo na parte da composição, edição de imagem e vídeo, gerir redes, dar entrevistas. Mais recentemente, com o apoio de uma equipa, já delega algumas funções, mas valoriza ter passado por todas as etapas: “Acho que isso me torna uma pessoa mais desenrascada”. A logística continua a ser um dos maiores desafios, mas acredita que está cada vez mais eficiente na gestão dos projetos.

Nas redes, encontrou não uma ferramenta de trabalho, mas também uma forma de ligação. Lana tenta manter uma linha estruturada nos posts, dedicando-os ao seu projeto a solo, enquanto os destaques do Instagram funcionam como um diário visual. Confessa que é altamente viciada: Gosto de dizer que é trabalho, mas é mentira, também é scroll infinito”. O Instagram é o seu canal principal, onde partilha posts relacionados à sua carreira, mas por vezes, também escolhe publicar conteúdos mais pessoais, o que acaba por a ligar mais aos seguidores. Sente que foi graças à plataforma que consegue estabelecer pontes entre Lagos e Lisboa. 

Menciona a importância das rádios como a Antena 1, Antena 3, Oxigénio e o site Rimas e Batidas como bons aliados – receber vídeos com a sua música a passar tornou-se um pequeno ritual de validação. 

Quando olha para o panorama musical portugues, sente que o que faz ainda não se encaixa num rótulo. As influências vêm sobretudo de fora – dos Estados Unidos e de Londres – mas acredita que há uma crescente abertura para novas sonoridades do “novo jazz” misturadas com drum and bass, sintetizadores e backbeats. Destaca, com orgulho, o surgimento de mulheres instrumentistas a liderar os seus próprios projetos “Se isto correr bem daqui para a frente, posso dizer que estou a abrir aqui um caminho nesse sentido.  

Reconhece também a diversidade de estilos em crescimento: do pop ao folk eletronico de Ana Lua Caiano e Emmy Curl, até ao “novo jazz” com Yakuza, Mazarin e Femme Falafel. “Tem havido espaço para tudo”, e as rádios e os festivais também estão mais atentos aos novos artistas. 

O lado croatia, diz, molda sobretudo a sua personalidade. Já do Algarve, guarda leveza e o mar – inspiração que se manifesta na canção Mar. “Musicalmente, se formos ouvir aquele acorde, não vais ouvir aquilo e pensar ‘Ah, yah, ela é algarvia!’, claramente. Ou seja, não há uma relação direta mas há uma relação da minha pessoa e de viver aqui”, diz entre risos. A viver entre Lisboa e Lagos, Lana mantém um ritmo de vida nómada. A capital oferece oportunidades: foi onde estudou, criou contactos e trabalha. Contudo, é no sul que encontra a sua casa. Os dias preenchem-se ensaios, boleias e estadias improviadas e viagens de autocarro. “Muita rede expressos… Adorava ser patrocinada!” brinca.

Em termos de novidades, dia 20 de julho apresenta o seu projeto a solo no Matosinhos em Jazz e prepara o lançamento em vinil do álbum Dimensions, com duas faixas bónus, pela editora Now Jazz. Paralelamente, começa a delinear o que será o seu próximo álbum, ainda em fase embrionária. Entre muito trabalho, o foco está em compor e reunir ideias para esse novo trabalho. “Se eu não disser nada na internet durante muito tempo, é porque provavelmente, estou a fazer alguma coisa de importante, remata. 

Entre Lagos e Lisboa, Lana Gasparøtti integra a nova geração de artistas que está a reinventar o jazz, trazendo uma nova sonoridade à música nacional. Repleta de criatividade e com novas composições em curso, destaca-se pela experimentação e profundidade das suas músicas, sendo hoje um dos nomes mais promissores da música portuguesa a seguir. 

 

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