No que toca às vozes jazzísticas do Algarve, Marco Martins tem vindo a vincar o seu nome no meio cultural tanto pela componente de criação, de docência, mas também pelo seu trabalho com a performance e o teatro. Músico, compositor e formador, lançou Roadbook (2016) pela Parallel Records e Low Profile (2024) pela sua MdC Records. Mestre em Performance Jazz pela Escola Superior de Música de Lisboa e ex-docente no Conservatório de Loulé, é também co-fundador da Mákina de Cena. No entanto, na sua génese, Marco é “um puto ali do Poço da Amoreira”:
Mas antes de toda a sua formação académica, houve um espaço seminal para este seu “pontapé de saída” no mundo da música, o Bafo do Baco, em Loulé, onde Marco teve a oportunidade de viver um movimento marcante para os adolescentes melómanos dos anos 90: o grunge. Foi neste melting pot cultural que antecedeu o virar do milénio que jovens locais tinham a oportunidade de escutar bandas influentes, como Nirvana ou também o poder da palavra do rap metal de uns Rage Against the Machine, como também destes próprios poderem apresentar as suas próprias criações:
O término destes projetos motivou-o a uma pausa que o levou mais vezes à cidade de Faro, onde, já com o “bichinho” da música, acabaria por descobrir o género que o iria acompanhar para o resto da sua vida: o jazz. Fascinado pelo fator ao vivo, pela libertação das improvisações e forma como assistira músicos lidarem com aquilo que faziam, Marco Martins percebe o que quer fazer na música:
A partir daí, curioso em saber como poderia aprender a fazer aquilo que acabara de descobrir, começa a fazer perguntas que o levam até à Banda Filarmónica de Faro, onde conhece Paulo Matos, professor que lhe dá os primeiros passos no mundo do jazz, como “saber o que é um blues, o que é uma estrutura ou ler uma cifra”. Passado algum tempo, começa a ter aulas com Zé Eduardo, fundador da Escola de Jazz do Hot Clube em Lisboa e dos nomes mais influentes do jazz regional, com o qual também se aventurou nuns combos e que acabou por ser um dos preparadores para músicos que queriam fazer as provas de admissão na Universidade de Évora. E é por aí que vai caindo a tal “bola de neve”, licenciando-se em Jazz (baixo elétrico) na instituição eborense.
À saída da licenciatura, houve a opção de rumar a Londres, onde até já tinha um amigo preparado para o receber, mas eis que conhece a sua companheira de vida, Carolina Santos, com quem acabaria por fundar a Mákina de Cena e o destino mudou-se para Paris:
Chegando a Paris, há uma vontade de se introduzir no meio artístico, mas acima de tudo de conhecer pessoas e repensar aquilo que queria fazer na música. É daí que, apesar do seu gosto pelos standards, surge a vontade de compor, o que aliado à fortuna das pessoas que conheceu, o levaram à produção do seu primeiro longa-duração, Roadbook: “Há que criar novos conteúdos, há que criar obras. E depois tive a sorte de encontrar o guitarrista Florent Souchet, que é um dos meus músicos favoritos até hoje e se eu pudesse chamava-o já para vir tocar comigo esta noite, que me apresentou um porradão de malta e conseguimos montar o meu quinteto e gravar pela editora Parallel Records em Paris”.
Roadbook, como o próprio nome indica, é um caderno de estrada que “foi escrito a tentar contar a história que eu estava a passar, mas sem me esquecer de onde vinha”, conta-nos Marco Martins, apontando para faixas como “Caroube Alfarroba” enquanto homenagem para as suas origens: “O meu pai apanhava frutos secos, se calhar tinha saudades dele e tive que compor aquilo”. Quanto a Low Profile, segundo disco do artista e lançado 8 anos depois, este surge do projeto de investigação desenvolvido no mestrado da Escola Superior de Música de Lisboa:
As composições surgiram tanto como dedicatória a Steve Swallow, como também readaptações de temas que advieram de um outro projeto que foi o CAL Jazz Collective, um coletivo de artistas da região central do Algarve – do qual também fez parte Sara Badalo – formado em altura de pandemia. Porém, nuclear a este seu último projeto, está, como já se referiu, a Academia, algo que Marco Martins sempre emparelhou com a música na sua carreira: “A Academia foi importantíssima para mim sobretudo na questão do rigor, de atingir objetivos, cumprir metas e organizar trabalho, de conhecer músicos e perceber que tipo de música consegues fazer com determinadas pessoas”.
Admite que tenta cada vez mais largar certas matrizes, mas não esconde o quão importante foi a academia na forma como torna a criação mais metódica:
Se enquanto aluno, assume que foi muito feliz no seu percurso académico, especialmente no mestrado pela forma como se fomentou o pensamento criativo, guarda com grande carinho a experiência de ser docente no Conservatório de Loulé: “A docência foi uma experiência muito boa, porque te obriga a ser melhor. Obriga-te a pensar muito sobre música e a verdade é que se tu não consegues explicar uma coisa, é sinal que não está assim tanto nas tuas mãos”.
Tendo sido uma surpresa, ao surgir por um convite de um colega que precisava de um substituto porque ia entrar em licença de paternidade, Marco realça o papel que Francisco Cardoso, docente da unidade curricular de Psicopedagogia na Escola Superior de Música de Lisboa, teve na sua visão de ensinar os mais novos e que por sua vez o ajudaram na sua passagem pelo conservatório: “Foi fantástico, percebi que existia todo um mundo de pensamento estruturado, saber que para cada tipo de personalidade como é que deves adaptar o conteúdo, como é que te diriges ao aluno […] e o legado que consegui deixar foi o Ensemble de Jazz do Conservatório, que é algo que a Mákina desenvolve em parceria com o Conservatório de Loulé já há 3 anos.”
Como já se percebeu, quando falamos em Marco Martins, é indispensável falar da Mákina de Cena, estrutura cultural multidisciplinar focada nas artes performativas que fundou juntamente com Carolina Santos, com sede em Loulé desde 2018. Regressados de Paris por volta de 2016 por motivos familiares, Marco relata que “chegamos ao Algarve e há um choque. Nós vínhamos de fazer outras coisas, a Carolina fez uma turnê mundial com a Companhia Philippe Genty durante 3 anos, eu tinha gravado o meu disco e andava por lá todo contente a tocar nos clubes e chego aqui e há um acalmar violentíssimo a nível daquilo que podes ir ver e a nível de meio”.
Na readaptação à região algarvia, Marco e Carolina, que já em França funcionavam praticamente como o produtor um do outro, começam com ritmos diferentes, porém acabam por começar novas incursões ao voltarem a munir-se da sua sinergia para novos projetos:
Após esta produção com a Escola da Noite, é no regresso que colocam uma questão que acabaria por servir de fundamento para a criação da Mákina de Cena:
É então neste cruzamento que Marco também descobre uma outra forma de pensar em música e uma nova forma de criar:
Para além da fusão das paixões de Marco e Carolina, a Mákina de Cena é também uma solução para colmatar as dificuldades que estes encontraram no regresso a Portugal. “Há coisas boas e coisas más, as coisas más é que está tudo muito mais caro. Encontrei inclusive sítios aqui que praticam preços iguais aos parisienses, embora os ordenados não sejam iguais. […] A diferença que eu notei é que há muito mais gente bem formada, a interpretar melhor, a tocar melhor. Começou a haver cada vez mais artistas. Há um meio mais rico”, reflete Marco Martins sobre as diferenças que denota no antes e depois da sua passagem no estrangeiro, realçando o papel da Escola Básica e Secundária da Bemposta na “injeção” de novos músicos na região. Realça também a importância que a DGArtes (Direção-Geral das Artes) e a Câmara Municipal de Loulé têm tido para o crescimento da Mákina de Cena.
Ainda assim e reforçando a assimetria que existe no Algarve, gostando apenas de falar da zona que conhece, refere as dificuldades e lacunas que ainda sente no meio cultural independente da região:
É também por aqui que surge a MDC Records, uma label, sem pressuposto comercial, que Marco pretende que funcione para os artistas como “um porto seguro para dar um push nas dificuldades de financiamento, organização e logística”.
Nesta sua mais recente bola de neve, Marco percebeu que não podia acompanhar o percurso todo e por isso surgiu a parceria com a distribuidora indiemusic.pt, especialistas na promoção de música lusófona independente, que tratam da distribuição dos artistas da MDC Records, bem como da sua presença nas plataformas digitais.
E já que rumamos ao digital, Marco Martins é muito sucinto quando questionado sobre a sua relação com ele: “Eu sou uma nódoa”.
Assume que tem uma conta de Instagram, mas que não se importa muito de como ela funciona, contudo faz sempre questão de se manter atualizado com a questão do design: “Eu sou designer autodidata, por força das circunstâncias, por isso ainda penso muito a nível 2D. Penso muito no poster, no flyer, agora até já penso nos formatos do Instagram que mudam todos os dias, que ora são quadrados, ora são retangulares. Tento-me manter atualizado”
Acrescenta ainda que o Festival Contrapeso, um festival anual de artes performativas organizado pela Mákina de Cena, é um grande desafio por se tratar de mais de 100 objetos gráficos para site, mupi’s, outdoors e banners. No caso da Mákina no digital, esta já conta com toda uma equipa e Marco relata que houve realmente uma necessidade de se estruturarem nesse meio:
Relativamente à lusofonia, Marco refere como grandes influências vários discos portugueses como Going Up (1996) de Carlos Barretto, Filactera (2002) de Mário Delgado ou, apesar de se assumir suspeito, A Jazzar no Cinema Português (2002) de Zé Eduardo, disco encomendado ao músico pelo Cineclube de Faro. Contudo, aponta que o disco Fábula (1996) de Maria João, com o pianista Mário Laginha, é um álbum marcante pela forma como expressa portugalidade através do jazz:
Quanto à importância da palavra, Marco Martins faz questão de mencionar o nome de Vítor Reia Baptista, fundador do curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Algarve e com quem fez parte do projeto Flajazzados (2011), como uma grande influência, especialmente na demonstração do peso e densidade que se pode ter com o spoken word:
Mais recentemente, deu-se a instauração de um novo grupo que pretende afirmar o Algarve como um território fértil para a criação musical contemporânea, o Algarve Jazz Collective. Liderado pelo saxofonista Desidério Lázaro e por Marco Martins, o projeto reúne o trompetista Leon Baldesberger, o guitarrista Miguel Martins e o baterista Maximiliano Llanos e já se estrearam nos longa-duração com o disco Playground, editado pela MDC Records no final do mês de maio:
Sempre com uma agenda dividida entre a música e a direção artística da Mákina de Cena, a bola de neve de Marco Martins lá vai ganhando volume e só podemos contar com um futuro recheado de cultura:














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