Observatório da Qualidade no Audiovisual

Mateus Verde: “Espero nunca estar artisticamente maduro a ponto de cair da árvore”

Entrevista: José Duarte
Vídeo: Ricardo Faustino
Design: Ricardo Santos

Vindo do barlavento algarvio, diretamente da aldeia de Paderne, a jornada de Mateus Verde no mundo da música, é uma aventura repleta de experimentação e que já percorreu vários campos artísticos. Conta-nos que o seu contacto com a música “assim com mais atenção, foi com uma cassete que um amigo meu me ofereceu. Ele fez uma mixtape que tinha Iron Maiden de um lado, o Fear of The Dark, e do outro lado, um álbum dos Garbage, que nem me lembro bem qual era. E eu ouvi essa cassete muitas vezes”

Quanto ao início de começar a tentar trabalhar com música, começa com um software rudimentar que vinha em caixas de cereais: “Não me lembro do nome, mas era bastante colorido e cada marca de cereal trazia um tipo diferente daquele software. Aquilo era uma espécie de coletânea de samples, todos na mesma key e em que tu podias organizar de diversas formas, com beats e diferentes frases. Comecei por aí, mas rapidamente me aborreci e comecei a pensar como é que conseguia expandir aquilo”, relata-nos Mateus. A resposta a essa questão surge sob a forma do software Cool Edit Pro, bastante influente no início dos anos 2000, começando por remisturar os samples com que trabalhara no software antecessor. Percebendo que tal não ia ao encontro das suas aspirações, começa a usar uns phones na entrada de microfone para poder gravar sons e mais tarde instrumentos, como guitarra e djembê – referenciando o modelo de gravação dos primeiros álbuns de Burzum – dos nomes mais importantes do cenário black metal – que encapsulam a estética de gravações com fraca qualidade de áudio. Deste ponto primordial, houve vários caminhos que acabaram por levar Mateus Verde ao “folk ambiente” que categoriza o seu som atual:

Ao nível das influências, para além da sua inicial obsessão por Iron Maiden e Garbage – afirmando que “na banda sonora de Gran Turismo 1 havia um som deles [“A Heaven Is Wide”] que ouvi tipo 10 milhões de vezes” – Mateus, na sua adolescência, entra no cânone do nu metal da viragem do milênio, começando com os mui-mediáticos Linkin Park e navegando posteriormente para sonoridades mais pesadas como as de Korn e Slipknot, estes que também começaram a incluir algumas “baladas” nos seus álbuns que atraíram o artista algarvio para sonoridades mais melódicas.

Porém, a banda que este afirma ter sido a grande influência para experimentar melodias e tons mais acústicos foram os californianos Deftones, apontando como exemplo a longa construção da música que finda o álbum White Pony, “Pink Maggit”. Mais tarde, expande os seus interesses para os Team Sleep, projeto tangencial de Chino Moreno. Ainda assim, apesar da importância destas guitarras estridentes de Moreno e companhia o momento em que Mateus Verde se assume como cantautor ainda estava para chegar:

Após o secundário, Mateus foi estudar Artes Plásticas para as Caldas da Rainha, confessando que “no final do curso é que percebi que aquele mundo artístico me irrita um bocado. E na verdade tenho uma relação amor-ódio, pois continuo a operar e a fazer cenas dentro desse meio”. Não querendo dividir o seu nome artístico da sua arte, pois “Mateus Verde é o nome que eu uso como umbrella para fazer o meu trabalho artístico […] não gosto de separar porque elas [música e arte visual] vêm do mesmo sítio, vêm de dentro de mim da mesma maneira, mas manifestam-se de outra forma”, como nos conta. Gosta de usar o termo “multidisciplinar” para descrever o que faz e confessa o fascínio de trabalhar “o som dentro do visual”. Complementando-se – a arte visual e a música -, Mateus aponta para o seu interesse em trabalhar esta dicotomia: “O som é mesmo muito fundamental para mim, mas às vezes são experiências, texturas sonoras, ou até ideias como Sons do Chão e os troncos com cordas, também é um bocado field recordings, instrumentos que eu crio, são coisas que se manifestam de outra maneira, inserem-se dentro do universo sonoro, mas que não são exatamente canções e são sons que vêm com imagens.” 

Para além de multidisciplinar, Mateus Verde escreve, compõe, produz e masteriza as suas canções, sendo um perfeito exemplo de um artista DIY (Do It Yourself). Mas afirma que isso “é a raíz bastante íntima do meu processo de criar canções, primeiro era uma coisa que fazia só para mim e depois encorajado por alguns amigos é que comecei a mandar cá para fora. Começou um bocadinho nesse sentido”. Mas como supracitado, esta sua vontade de explorar pelas próprias mãos, não é algo novo:

As suas canções têm uma grande componente conceptual, mas é também através das atmosferas sonoras que Mateus Verde acaba por expressar o seu lado mais bucólico e por sua vez contar as suas histórias. No seu processo criativo, que este considera ser bastante intuitivo, admite que, artisticamente, espera “nunca estar maduro a ponto de cair da árvore”. Apesar de se encontrar numa fase de transição na forma de trabalhar, no seu primeiro EP, Esteva, editado em 2016, confessa que este “foi uma coletânea de canções que tinha acumulado ao longo do tempo, e essas canções, como também na Feiticeira [o seu álbum de estreia, lançado em 2020], em boa parte, surgiram primeiro de guitarras e improvisação, onde começo a dizer palavras e dessas tento encaixá-las e construir sentido. Tento construir uma narrativa a partir disso, costuma ser assim”. Atualmente, em formato de desafio, proposto por uma amiga, Mateus comprometeu-se a gravar uma ideia para uma música diariamente, durante 50 dias.

Devido ao seu contexto de vida, onde deambula entre Paderne e Caldas da Rainha, e à natureza deste seu desafio e novo projeto em que se encontra a trabalhar, afirma que se tem assentado mais em composições de guitarra, devido à portabilidade do instrumento: “Não é que eu quisesse fazer um álbum só à volta da guitarra, mas as gravações originais, muitas vezes têm ali uma magia. Como quando estou a gravar num sítio e tenho pessoas a dormir ao lado, já são 2 da manhã e ainda não gravei a canção, tenho de fazê-lo ali, então ponho o meu gravador com o ganho super alto e começo a tocar muito baixinho e estou com uma voz super suave para não perturbar ninguém… de repente aquilo ganha uma tonalidade diferente”. O contexto que rodeia Mateus, acaba sempre por se integrar na sua arte, daí a natureza ser um tema central a todo o seu reportório. Desta forma, este descreve-se como um “Lavrador de sons e alquimista canções”:

Tendo começado por assinar canções somente como Verde, não tendo tardado em adicionar o Mateus, seu apelido, a natureza é algo bem mais intrínseco na sua vida do que apenas um fascínio que este transcreve artisticamente. Mateus Verde nasceu rodeado de natureza e acaba por ser parte desta. Natural da aldeia de Paderne, no coração do barrocal algarvio, esta acaba por ser uma componente intransigível e basilar à sua pessoa, sendo esta muitas das vezes a base, ou núcleo, de muita da sua criação:

Para além de artista independente, algo que Mateus afirma gostar bastante, não só pelo que isso representa na economia musical portuguesa, mas também pelo controlo que este possui naquilo que faz, ser do Algarve, região negligenciada em diversos setores sendo um dos mais sentidos o da cultura, traz diversas dificuldades a quem queira expandir o seu trabalho a outros territórios, algo que Mateus refere não se importar muito com isso, pois “quando componho estou numa bolha, a tentar expressar o melhor possível que estou a sentir”, sendo a preocupação em se divulgar algo a posteriori. Em tom de ironia e metaforicamente, Verde responde que o maior obstáculo para os artistas do Algarve se expandirem, é o Alentejo:

Como bom bucólico que é e sempre fiel à sua criação artística, o artista padernense admite que não faz a parte de divulgação por prazer. Devido às exigências do mundo cada vez mais cibernético e digital, Mateus confessa que já tentou várias formas de chegar a outros públicos, como reels e publicidades, mas que é algo que este deixa completamente fora do seu processo criativo, sendo a sua maior preocupação nesse momento em tentar encontrar visuais e formas como as suas músicas se podem encaixar em conteúdos digitais para chegar a mais pessoas. Assume que o processo de divulgação é bastante pensado e que se foca essencialmente no Instagram, mas aponta para a importância da partilha pessoal: “O boca a boca continua a funcionar bastante melhor do que o Instagram, pois lá não existe nenhuma relação de intimidade com aquilo que estão a passar”, reflete Mateus.

 

Relativamente ao nível de conteúdos que este aponta ter mais alcance, enquanto se ri, aponta para o facto de que quando há uma presença feminina nos seus vídeos, estes acabam por ter substancialmente mais visualizações, acabando por refletir mais além o que poderá estar por trás deste “male gaze”:

Afirma sem qualquer dúvida a sua angústia nas redes sociais e que sentiu dificuldade em construir uma presença digital, assumindo que a nível pessoal é regular fazer detoxes, como desinstalar as aplicações, mas como sabe que isso também pode afetar o alcance das suas publicações, acaba por se reger pelos timers para limitar o seu uso: “aquilo é feito para ficares ali preso”, remata Mateus. Apesar de não ser fã da forma como estas plataformas operam, estes são os números de Mateus Verde nas redes sociais:

Contudo, firma o seu apreço pela relação que é possível ter com os seus seguidores:

Focando a divulgação para momentos específicos e sem qualquer condescendência, o artista algarvio realça a importância de separar essa componente da criação artística, indicando novamente o gosto que tem do seu estatuto de independente, que o permite deixar que aquilo que sente guie a sua música e criatividade, ao invés de estar atrelado a uma ideia de sucesso, aconselhando: “Se quiseres fazer música, faz só música, não faças Instagram”, referindo-se ao intuito pelo qual se cria.

No que toca ao futuro e como já foi supracitado, Mateus Verde encontra-se no processo de finalizar o seu segundo álbum, ainda sem data marcada, como nos conta em exclusivo:

Conheça o trabalho de Mateus Verde 

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