Observatório da Qualidade no Audiovisual

O fandom como fonte de informação em Bridgerton

Por Carolina Wamser
Revisão Daiana Sigiliano

Os romances de época sempre exerceram grande influência no universo do entretenimento. De best-sellers como Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, a premiadas produções audiovisuais como Downton Abbey, de Julian Fellowes, essas obras ambientadas em contextos históricos oferecem uma perspectiva mais serena sobre as relações amorosas e a vida social dos personagens. O termo “romance de época”, que foi criado no Brasil pela Editora Arqueiro, como um subgênero do Romance Histórico, é definido como por Costa (2019) como hstórias de amor ambientadas, na maioria das vezes, na Inglaterra do século XIX, histórias de amor ambientadas, na maioria das vezes, na Inglaterra do século XIX.

Um dos romances de época de maior sucesso atualmente é a série Bridgerton, da Netflix. Com elementos que vão além de um simples romance, a produção conquistou não apenas os fãs que aguardavam a adaptação dos livros, mas também uma nova parcela de consumidores, que passaram a se interessar pela franquia literária. Bridgerton, que já havia conquistado os leitores, tornou-se, em 2020, mais do que uma simples série para se assistir — transformou-se em um fenômeno audiovisual que ampliou o debate para além dos limites dos episódios.

O Duque e Eu, lançado em 5 de janeiro de 2000, marcou o início de uma bem-sucedida série da escritora Julia Quinn. A autora estadunidense, conhecida por seus romances históricos best-sellers segundo o New York Times, teve suas obras traduzidas para mais de 41 idiomas. Responsável por coleções como Os Rokesby, Os Belvestoke, Damas Rebeldes, entre outras, foi com a série Bridgerton que consolidou sua fama mundial.

Ambientada na Era Regencial da Inglaterra, a coleção — lançada entre 2000 e 2013 — acompanha a trajetória de cada um dos oito filhos de Violet e Edmund Bridgerton, com um livro dedicado a cada irmão, além de um nono volume com epílogos para as histórias. Vinda de uma família influente na sociedade londrina, a série entrelaça romance, regras sociais e fofocas, criando um enredo envolvente que transporta o leitor diretamente para a Londres do século XIX.

Vinte anos após o lançamento do primeiro livro, a história ganhou sua adaptação audiovisual. Produzida pela Shondaland — produtora americana fundada por Shonda Rhimes, conhecida por sucessos como How to Get Away with Murder — e com roteiro de Chris Van Dusen, a série Bridgerton se tornou um fenômeno já em sua primeira temporada. A produção ultrapassou os limites do romance de época e se transformou em um sucesso global, justamente por romper com estereótipos tradicionais do gênero.

O anúncio da adaptação de Bridgerton foi feito em 2018, marcando a primeira produção da Shondaland — produtora fundada por Shonda Rhimes — para a plataforma de streaming Netflix. Em um artigo publicado no portal da própria Shondaland, o roteirista Chris Van Dusen explicou que seu objetivo era romper com os estereótipos clássicos dos romances de época e reinventar o gênero. Atualmente, a série conta com três temporadas, cada uma centrada na história de um dos irmãos Bridgerton. A primeira temporada adapta o livro de Daphne; a segunda foca em Anthony; e a terceira se inspira no quarto volume da coleção, que acompanha Colin. A série conquistou o público e a crítica, mantendo notas expressivas no Rotten Tomatoes — um dos principais sites de avaliação de produtos audiovisuais — com índices de aprovação entre 77% e 87%.

Com figurinos exuberantes, cenários grandiosos e uma estética marcante, a produção deu um novo olhar aos padrões visuais da Era Regencial. Vestidos imponentes, perucas monumentais e maquiagens artísticas ajudam a criar uma atmosfera vibrante e estilizada. Mais do que isso, Bridgerton também inovou ao tratar temas antes considerados tabus, incorporando à narrativa personagens negros em posições de destaque social e promovendo a representatividade LGBTQIAPN+.

Essa abordagem contemporânea, que combina pautas atuais com a essência do romance histórico, foi um acerto: a série se manteve por nove meses como a melhor estreia da história da Netflix. Hoje, todas as três temporadas figuram entre as dez séries mais assistidas da plataforma. A primeira temporada ocupa o 4º lugar no ranking global, com 113,3 milhões de visualizações; a terceira está em 6º lugar, com 106 milhões; e a segunda, em 10º, com 93,8 milhões de visualizações.

A literacia do fã na produção de conteúdos jornalísticos em Bridgerton Stans

Conforme pontuam Sigiliano e Borges (2024), as habilidades críticas e criativas da literacia do fã podem abrangem três dimensões: o Universo de Referência, que diz respeito ao domínio do cânone por parte do fã e à verificação de seu conhecimento sobre a obra; a Arquitetura Informacional, que discute como o fã utiliza as affordances no Instagram para criar e disseminar seu conteúdo; e a Pedagogia do Pop, que investiga de que forma o fã incorpora elementos externos ao material original em suas produções. Cada uma dessas dimensões envolve habilidades específicas, contribuindo para uma compreensão mais ampla e aprofundada dos conteúdos desenvolvidos pelos fãs. 

A dimensão do universo de referência é composta por quatro habilidades, são elas: a estética, as regras e códigos, o metatexto e as lacunas.

Fonte: Sigiliano e Borges (2024)

 

Com atuação que abrange desde os bastidores de novas temporadas até o lançamento de edições inéditas de livros, o perfil Bridgerton Stans conquistou o público fã de Bridgerton. Atualmente, a página soma mais de 150 mil seguidores no Instagram e marca presença também em outras plataformas, como TikTok, YouTube e X (antigo Twitter). 

A ideia de criar um perfil voltado ao fandom de Bridgerton surgiu em 2019, a partir da iniciativa de cinco jovens (que preferiram não ter seus nomes divulgados), participantes de um grupo de fãs no WhatsApp. Motivadas pelas divulgações em torno da adaptação da série naquele ano, as fundadoras identificaram a necessidade de centralizar as informações em um canal próprio, com maior alcance e visibilidade. O Instagram foi a plataforma escolhida para cumprir esse objetivo.

Atualmente, o perfil se autodenomina como a “Fonte brasileira de atualizações de Bridgerton, das adaptações da Netflix e da autora Julia Quinn” — uma descrição que sintetiza com precisão o papel desempenhado pelo projeto. Com abrangência que vai desde entrevistas com os autores até os bastidores das gravações, passando por novidades relacionadas à autora Julia Quinn e às novas edições dos livros, o perfil mantém seu público constantemente informado. Além disso, adapta o conteúdo para o português, tanto na linguagem quanto na identidade visual, o que reforça sua conexão com o público brasileiro.

Diferenciando-se de outros perfis dedicados à série, Bridgerton Stans adota uma abordagem estruturada e profissional na divulgação das informações. Atualmente, o conteúdo é organizado em editorias fixas, como Premiações (que cobre as indicações recebidas pela série), Notícia (voltada às novidades mais relevantes da produção) e Entrevista (com traduções de entrevistas concedidas por atores, equipe de produção e a própria autora, em formatos de texto ou vídeo).

Além da função informativa, as administradoras do perfil também exercem um papel ativo na produção de conteúdos que extrapolam a narrativa oficial da série. Isso inclui a seleção de trechos marcantes dos livros e episódios, publicação de fanarts, vídeos criados por fãs e outros materiais que fortalecem o engajamento da comunidade.

O perfil não se limita a ser um ponto de disseminação de notícias, mas assume uma função de curadoria que se aproxima do trabalho jornalístico. As informações são recebidas, editadas e entregues ao público de maneira clara e acessível. Esse papel curatorial, desempenhado de forma consistente ao longo do tempo, consolidou o Bridgerton Stans como referência para outras páginas e como uma autoridade dentro do fandom da série.

A dimensão da arquitetura informacional é composta por quatro habilidades, são elas: o conteúdo visual, as ferramentas de engajamento, o tempo real e a templabilidade do conteúdo.

Fonte: Sigiliano e Borges (2024)

Os fandoms, historicamente, desempenham um papel ativo na produção e disseminação de informações dentro de seus universos de interesse, atuando como espaços de interação e compartilhamento entre fãs. Tal atuação frequentemente se aproxima da prática jornalística, especialmente no que diz respeito à curadoria de conteúdos, à seleção do que é relevante e à sua comunicação de forma clara e objetiva. Este artigo tem como objetivo analisar como o perfil Bridgerton Stans realiza essa curadoria, selecionando informações específicas e transmitindo-as em formato de notícia para o fandom, destacando os pontos de convergência com a prática jornalística.

Para a análise, foram selecionadas todas as postagens identificadas com o selo “notícia” na imagem, publicadas entre 2023 e 2024 — período que abrange a produção, divulgação e lançamento da terceira temporada da série Bridgerton. Ao todo, foram analisadas 40 postagens.

A fim de identificar padrões e critérios editoriais, foi elaborada uma tabela com base na análise de 10 dessas postagens, com foco nos valores-notícia definidos por Lage (1987): Familiaridade (relevância por envolver atores ou personagens populares), Popularidade (interesse específico para o público do perfil), Impacto (modificações significativas no universo da série) e Ineditismo (informações novas ou exclusivas).

A análise das postagens evidencia como o perfil Bridgerton Stans se apropria das funcionalidades do Instagram para otimizar a entrega das informações. Ainda que não explore com profundidade recursos como stories, reels ou enquetes, o perfil adota o formato de carrossel de imagens — uma funcionalidade que permite a construção de uma narrativa visual contínua e segmentada, facilitando a leitura e compreensão da notícia diretamente no feed. Esse formato oferece ao usuário uma experiência mais fluida e dinâmica, alinhando-se ao comportamento de consumo rápido de informação típico da plataforma.

Outro aspecto relevante é o uso consistente de uma identidade visual padronizada nas postagens informativas, o que contribui para a fácil identificação das editorias ao longo do tempo. Tal uniformidade reforça a credibilidade do perfil e a sua organização editorial, elementos valorizados também na prática jornalística.

Destaca-se ainda a escolha de utilizar imagens dos atores caracterizados como seus personagens, mesmo quando as notícias dizem respeito à vida pessoal ou profissional dos intérpretes. Essa decisão editorial reforça o vínculo afetivo do público com o universo ficcional, evidenciando como o fandom tende a interpretar a figura do ator dentro do contexto do cânone, em vez de separá-lo da obra.

Além disso, a editoria de notícias extrapola o conteúdo da série, abrangendo novidades sobre os livros, bastidores e a trajetória dos atores. As métricas de engajamento — como curtidas e comentários — revelam que, mesmo quando o conteúdo não está diretamente relacionado à série, o público permanece ativo e interessado. Isso evidencia que o interesse do fã vai além do texto canônico, estendendo-se a todo o ecossistema que compõe o universo de Bridgerton.

Dessa forma, o perfil Bridgerton Stans não apenas compartilha informações, mas realiza um trabalho de curadoria mediada por critérios editoriais claros e por um uso estratégico das ferramentas do Instagram. Sua atuação reflete, em muitos aspectos, o exercício jornalístico, ao selecionar, organizar e divulgar conteúdos com o objetivo de informar, engajar e fortalecer a comunidade de fãs.

A dimensão da pedagogia do pop é composta por quatro habilidades, são elas: a identificação, a temática, o repertório midiático e a controvérsia.

Fonte: Sigiliano e Borges (2024)

O perfil Bridgerton Stans pode ser entendido não apenas como um agente de informação, mas também como um espaço de produção de sentido e de aprendizagem informal. Ao compartilhar, criar e recriar conteúdos derivados do cânone da série Bridgerton, o perfil atua como um mediador cultural, promovendo experiências que estão alinhadas com os princípios da pedagogia do pop. O envolvimento dos fãs com as postagens — seja por meio de comentários, compartilhamentos ou reações — demonstra a ativação de processos de leitura crítica, apropriação simbólica e reconstrução coletiva de significados.

A aplicação consciente de critérios de noticiabilidade nas postagens do perfil, como a familiaridade, a popularidade, o impacto e o ineditismo (LAGE, 1987), revela um processo de curadoria que se aproxima da prática jornalística. O fã, nesse caso, assume o papel de comunicador, reunindo informações de diversas fontes, selecionando aquilo que é mais relevante para o público e organizando essas informações em formatos acessíveis e engajadores — como os carrosséis no Instagram.

Portanto, o trabalho realizado por Bridgerton Stans vai além da simples divulgação de notícias: trata-se de uma prática comunicacional com dimensões pedagógicas e culturais. O perfil constrói um papel fundamental dentro do fandom, funcionando como uma espécie de “jornalismo afetivo”, onde o compartilhamento de informações é mediado por um vínculo emocional com a obra. Essa atuação confere legitimidade e autoridade ao perfil entre os seguidores, uma vez que as postagens são construídas com base em fontes confiáveis e apresentadas de forma clara e coerente, garantindo o acesso equitativo às novidades do universo Bridgerton.

Em suma, a atuação de Bridgerton Stans exemplifica como o fandom, ao integrar práticas de curadoria e comunicação digital com o uso estratégico da cultura pop, torna-se também um agente pedagógico. Ao estimular reflexões, fortalecer identidades e promover a participação ativa dos fãs, o perfil contribui para um processo de aprendizagem contínua — ainda que fora dos espaços tradicionais — nos moldes propostos pela pedagogia do pop.

Referências

LAGE, N. Estrutura da Notícia. São Paulo: Ática, 1987.

SIGILIANO, D; BORGES, G. Literacia dos fãs da série brasileira As Five na rede social X. Journal of Digital Media & Interaction, v. 7, n. 17, p. 77-92, 2024. DOI: https://doi.org/10.34624/jdmi.v7i17.38017.

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