Por Júlia Garcia
O Verão em que Hikaru Morreu (光が死んだ夏/Hikaru ga Shinda Natsu) é um animê de horror escrito e dirigido por Ryōhei Takeshita, produzido pelo estúdio japonês CygamesPictures e distribuído pela Netflix. A obra foi lançada em 6 de julho de 2025 e teve o último episódio disponibilizado em 21 de setembro de 2025, com uma segunda temporada já confirmada. O animê adapta o mangá homônimo, de autoria de Mokumokuren e publicado pela revista seinen Young Ace desde agosto de 2021. Mokumokuren é um pseudônimo, cujo nome remete a um tipo de yōkai (seres sobrenaturais) da mitologia japonesa.
A história acompanha os jovens amigos Yoshiki e Hikaru, que vivem na vila de Kubitachi, localizada em uma região rural do Japão. O animê tem início seis meses após o desaparecimento de Hikaru durante um percurso em Nisayama, uma montanha que, segundo a sabedoria popular, é amaldiçoada e não deve ser adentrada. O adolescente fica uma semana desaparecido, mas é encontrado com vida. Entretanto, Yoshiki percebe que aquele não é, de fato, o seu amigo e, eventualmente, o confronta. A entidade sobrenatural que habita Hikaru confessa que não é mesmo o menino, mas pede a Yoshiki que não revele seu segredo, pois é a primeira vez que pode viver como um humano.
A primeira parte da análise do animê centra-se no plano da expressão, a partir do qual são avaliados elementos como ambientação, fotografia, edição e trilha sonora. Como pontuado, a história se passa em uma vila rural, permeada por montanhas. Desse modo, predominam os cenários naturais, mesclados às pequenas casas e construções do vilarejo, que trazem elementos da arquitetura japonesa. Exemplos são os washitsu, cômodos de estilo tradicional, com pisos de tatame e painéis fusuma, que funcionam como divisórias ou portas deslizantes. Além disso, devido ao cenário rural, a trilha sonora traz, com constância, o canto das cigarras como som de fundo, somado a planos que mostram diretamente esses animais. Contudo, as cigarras não apenas representam essa ambientação, mas também a época em que a maior parte da narrativa se desenvolve, dando o nome ao título: o verão. Isso porque, no Japão, o som das cigarras é forte nessa época do ano, transformando-as em um símbolo da estação. Tal associação pode ser observada, com frequência, em outras obras japonesas, como em Quando as Cigarras Choram, um jogo estilo visual novel que foi adaptado para mangá e animê.

A fotografia recorre, em inúmeras cenas externas e diurnas, a tons alaranjados, o que remete, novamente, ao verão, à luz solar e ao calor. Esses tons estão presentes, também, em algumas cenas noturnas que perpassam momentos de diversão, como quando os meninos brincam com senko hanabi – um tipo de fogo de artifício portátil, que pode ser segurado e fica aceso por alguns segundos – ou quando passeiam pelo festival de verão da cidade. No entanto, cenas noturnas na montanha onde Hikaru se perdeu, por exemplo, apresentam tons frios, que não somente representam a ausência de iluminação, mas também o caráter sombrio daquele local. É válido pontuar, ainda, como a resolução da imagem muda quando há flashbacks que remontam à infância de Hikaru e Yoshiki, mesmo que não sejam necessárias indicações que apontem a troca de temporalidade, uma vez que a aparência infantil dos meninos já explicita que a cena ocorre no passado. Ou seja, a opção pela mudança de resolução parece ser uma escolha estética mais do que uma seta chamativa para explicar didaticamente a temporalidade ao público.

Além disso, é importante ressaltar a escolha de alguns planos e modos de edição, que trazem características estéticas próprias ao animê, ao mesmo tempo em que contribuem para ressaltar o caráter de estranheza ou comicidade de determinadas cenas. É o caso dos planos paralelos ao chão, que retratam as cenas de cima – um recurso que, em outros animês ou mesmo em séries, não é comumente utilizado na representação de diálogos e ações, especialmente em ambientes fechados. O animê também opta por planos em primeira pessoa, mostrando o ponto de vista de Yoshiki. Há, ainda, a utilização de imagens e vídeos reais mesclados à animação, como é possível observar em determinadas cenas e na vinheta final. Tais escolhas estéticas podem reforçar a estranheza e o horror ao trazerem ângulos incomuns, que escondem o rosto e as expressões dos personagens, além de trechos que quebram as regras diegéticas ao mesclar animação e “realidade”.

Já a edição, por vezes, “pula” movimentos, apresentando personagens em uma posição e, no frame seguinte, já em outra posição, sem a animação da movimentação que o levou àquele ponto. Esse recurso é utilizado, principalmente, em cenas cômicas, que também trazem, em alguns momentos, planos de fundo coloridos e onomatopeias que representam a emoção dos personagens. A utilização de onomatopeias faz referência aos mangás, que, em grande parte das vezes, precedem os animês, sendo esse um recurso comum em obras que recorrem à comédia. O Verão em que Hikaru Morreu, portanto, transita, estética e narrativamente, entre horror e comédia, mesclando os acontecimentos sobrenaturais à vida cotidiana de Hikaru e Yoshiki.

Há de se pontuar, entretanto, que os recursos estéticos sofrem mudanças significativas quando há presença do sobrenatural. Isso pode ser observado já na vinheta inicial, que, ao retratar as criaturas, traz cores neon, como verde, vermelho e roxo, em cenários escuros, com traços, formas e ambientes que não são facilmente distinguíveis. Ao longo dos episódios, os códigos da realidade diegética são quebrados para representar ou fazer alusão à presença de impurezas – espécies de fantasmas que desceram a montanha – e da entidade de poderes divinos que habita Hikaru, conhecida como Nounuki-Sama. Isso também acontece, por vezes, para transmitir o estado mental dos personagens, especialmente de Yoshiki, que tenta lidar, ao mesmo tempo, com a presença de Nounuki e com o processo de luto por Hikaru. Nessas cenas de mudança dos recursos estéticos, há predominância de cores como preto, vermelho e roxo, com desenhos disformes, traços distintos e, às vezes, apenas o contorno dos personagens. A trilha sonora também varia, incluindo, por exemplo, batidas de bateria e dissonâncias de guitarra, que não são utilizadas em outros momentos do animê. Desse modo, traços, cores, cenários e trilha sonora modificam-se, contribuindo para o aspecto de horror do animê.

O segundo momento da análise tem como foco o plano do conteúdo, que abrange os personagens e a narrativa. Como pontuado, Yoshiki e Hikaru são jovens do Ensino Médio, amigos de infância, que vivem em uma vila rural no Japão. Hikaru, em uma ida à montanha proibida, Nisayama, desaparece por uma semana antes de ser encontrado com vida. O animê já tem início com o confronto de Yoshiki, que revela a Hikaru, seis meses após o desaparecimento e o resgate do garoto, a suspeita de que ele não é, na verdade, o seu amigo. Nesse momento, descobre-se que Hikaru morreu na montanha, e algo sobrenatural o possuiu, mimetizando sua personalidade e seu comportamento a partir das memórias compartilhadas. O novo Hikaru, no entanto, pede que Yoshiki guarde esse segredo, pois é a primeira vez que pode experienciar a vida como um humano e não quer ter que matá-lo para continuar com a farsa, uma vez que gosta muito de Yoshiki – não se sabe, contudo, se por uma reminiscência das lembranças de Hikaru ou por um afeto que surgiu pelo convívio. Yoshiki aceita manter o segredo, já que, mesmo que aquele não seja, de fato, o Hikaru que conheceu, tem dificuldades de deixá-lo ir e aceitar a sua morte.
Os meninos seguem a vida cotidiana – vão à escola, andam de bicicleta, passam tempo juntos –, mas Yoshiki tem dificuldades em lidar com o fato de que aquele não é o verdadeiro Hikaru. A relação dos meninos se complica quando Hikaru começa a ter comportamentos agressivos, tanto com o amigo quanto com outras pessoas, o que se relaciona à sua natureza imaterial e mística, de algo que não é mundano. Nesse contexto, Hikaru apresenta uma dualidade interessante: por um lado, é uma entidade sobrenatural, capaz de comportamentos violentos e mortais por não entender a preciosidade da vida humana, já que não compreende os conceitos de vida e morte sob a perspectiva dos vivos; por outro, age com uma inocência quase infantil, ingênua, de alguém que experimenta sensações e emoções pela primeira vez, como o afeto por Yoshiki, tomar sorvete ou sentir a água do mar. Apesar dos sentimentos conflituosos com relação ao novo Hikaru, inclusive com uma tentativa frustrada de matá-lo para proteger o vilarejo, Yoshiki segue na companhia do amigo, tentando guiá-lo pelo mundo dos humanos. Os dois buscam entender o que é, de fato, essa entidade e como conciliar a presença de Hikaru com o aumento dos eventos sobrenaturais na região.
Nesse sentido, enquanto Yoshiki passa por um processo de luto, que varia entre a recusa dessa entidade e a aceitação dela enquanto ser distinto do amigo, o novo Hikaru trilha um caminho de busca pela aceitação, pelo pertencimento a um lar onde pode afastar a solidão que sentia nas montanhas, antes de possuir Hikaru. Nesse percurso, enquanto os meninos enfrentam seres sobrenaturais e investigam as causas dos eventos estranhos que assolam o vilarejo, eles também lidam com os próprios sentimentos um pelo outro. Apesar de não haver confissão explícita, é possível observar que Yoshiki possui sentimentos românticos por Hikaru. Os sentimentos de Hikaru por Yoshiki, por sua vez, são mais complexos de se distinguir, já que mesclam as memórias do verdadeiro Hikaru com as experiências e sentimentos da entidade no corpo do menino. Hikaru diz que ama Yoshiki, mas fica à cargo da interpretação do espectador-interagente se esse é um amor fraternal ou romântico.
Essas possibilidades ambíguas também podem ser observadas nas cenas em que Yoshiki sente o corpo de Hikaru. Tais momentos são apresentados como um toque na entidade sobrenatural, quando Hikaru abre uma fenda no peito, pela qual Yoshiki pode senti-lo em sua forma original. De maneira literal, a cena não é apresentada como um envolvimento sexual, entretanto, a partir das reações dos personagens e do caráter metafórico do gesto, é possível entendê-la enquanto a representação de um momento íntimo, que intensifica a sugestão de sentimentos amorosos entre Hikaru e Yoshiki. Devido a esse caráter romântico, alguns interagentes questionam, em publicações online, a falta, na divulgação da obra, do selo de BL – sigla para boys love, tipo de produção que retrata, centralmente, romance entre meninos ou homens. Contudo, como apontam Chakraborty (2025) e Joshi (2025) em matérias para o portal FandomWire, Mokumokuren, que escreveu o mangá, ressalta que a centralidade não está no romance, por isso a obra não se encaixa na definição tradicional de BL. Desse modo, a obra é classificada, oficialmente, no âmbito do horror e do coming of age (histórias que retratam o amadurecimento). Contudo, Mokumokuren enfatiza o caráter queer da narrativa, apesar de não a classificar especialmente como um BL.

A partir das análises do plano da expressão e do conteúdo, segue-se para a avaliação dos indicadores de qualidade da mensagem audiovisual: oportunidade, ampliação do horizonte do público, diversidade, estereótipos e originalidade/criatividade. Em relação à oportunidade, observa-se a relevância da abordagem de uma temática universal como o luto, pelo qual passa Yoshiki. A recusa do menino em se desvencilhar do amigo, mesmo sabendo que o novo Hikaru não é a mesma pessoa, remete à fase de negação, perpassando, talvez, pela barganha, exemplificada pela ideia de Yoshiki de que, se ele conseguir salvar o vilarejo das impurezas, Hikaru vai poder permanecer ali, ainda que não seja o verdadeiro.
No processo de lidar com os sentimentos conflitantes em relação ao novo Hikaru, Yoshiki faz algumas indagações filosóficas, como “o que faz alguém ser quem é? As memórias, células ou experiências?”. Essas perguntas partem de um conto que o professor deu à sala na aula de filosofia, que narra a história de um menino que morre após ser atingido por um raio, afogando-se no pântano. Entretanto, um outro corpo surge em seu lugar, com as mesmas memórias e sem se lembrar do que aconteceu, retornando normalmente à vida cotidiana. Yoshiki pergunta a seus colegas o que eles acham: eles são a mesma pessoa? Tais indagações podem ser uma forma de ampliar o horizonte do público, que é convidado a refletir sobre essas questões junto com os personagens.
Além disso, também é possível refletir sobre as dificuldades pelas quais passam pessoas queer em regiões rurais do Japão – o que pode ser estendido para locais ao redor do mundo que ainda são marcados por tradições conservadoras. Em uma cena de flashback, Yoshiki se lembra de uma conversa que teve com o verdadeiro Hikaru, enquanto passavam o tempo em meio à natureza. Hikaru diz ao amigo que a família de Yasaburo teve uma briga feia, pois o herdeiro, Yusuke, estava doente. Yoshiki responde, prontamente, que Yusuke não está doente, ele é homossexual. Hikaru pergunta, confuso, se ele se refere à comunidade LBGT, e Yoshiki responde, com uma expressão raivosa, que não sabe, e que o vilarejo é muito pequeno e sufocante. Nesse momento, traça-se paralelos entre Yusuke e o próprio Yoshiki, que anseia em sair da região e estudar em Tóquio, possivelmente pelo fato de ter que esconder a sua identidade queer enquanto ainda vive na vila de Kubitachi.
Nesse contexto, ao retratar personagens queer em um vilarejo rural do Japão, também é possível observar, no animê, a questão da representatividade, o que se relaciona à diversidade. O que dá especial relevância ao indicador é o fato de esses personagens serem protagonistas, ocupando posição central na narrativa. O romance, contudo, não é o motor da história como costuma ocorrer em obras BL, o que também contribui com a quebra de estereótipos ao evidenciar que os animês podem trazer protagonistas LGBTQIAPN+ em qualquer tipo de narrativa, sem que estejam restritos a obras focadas no envolvimento romântico. Nesse sentido, a originalidade/criatividade de O Verão em que Hikaru Morreu reside na opção por retratar, em formato de mangá e animê, um romance queer a partir de uma narrativa de horror e coming of age, que, mesclada com momentos de comédia, não é centrada no relacionamento, mas que o perpassa enquanto parte cotidiana da vida.
Referências
CHAKRABORTY, Moumita. ‘The Summer Hikaru Died’s Queer Themes Make Its Horror Feel Scarier. 2025. Disponível em: https://fandomwire.com/the-summer-hikaru-dieds-queer-themes-make-its-horror-feel-scarier/. Acesso em: 5 nov. 2025.
JOSHI, Laveena. The Summer Hikaru Died Creator Refuses One Claim About Netflix’s Best Queer Anime. 2025. Disponível em: https://fandomwire.com/the-summer-hikaru-died-creator-refuses-one-claim-about-netflix-best-queer-anime/. Acesso em: 5 nov. 2025.














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