Observatório da Qualidade no Audiovisual

Orca: “Nunca senti que me enquadrava muito”

Entrevista: Luana Piegas
Produção: José Duarte
Texto: Luana Piegas

Orca, nome com que se veste nas lides musicais Leonor Cabrita, constroi uma linguagem musical onde a emoção e a resistência se destacam. Vinda do Algarve, a cantautora viu o seu nome ganhar destaque no panorama musical português com os temas Ainda Queremos Ser Pessoas e Gorgulho, lançados em 2022. Desde então, tem explorado sonoridades que caminham pelo art pop e o jazz, culminando no disco de estreia, Paisagem Trânsito de 2023. Mais recentemente, lançou o EP Não Há Tempo. 

A ligação com a música surgiu cedo, aos 6 anos, quando entrou no conservatório em Portimão para iniciar os estudos em música clássica. Mais tarde, passou pelo conservatório de Albufeira, onde completou o quinto grau de piano.  Aos 18 anos mudou-se para Lisboa para estudar artes do espetáculo, mas a música falou mais alto, e decidiu ingressar no Hot Clube de Portugal.  

Foi a meio da pandemia que surgiu uma viragem no percurso de Leonor. Na altura, estudava jazz e compunha, sobretudo, peças instrumentais. O período de confinamento deu-lhe mais tempo e permitiu-lhe explorar a escrita de canções: “[…] foi assim em catadupa, comecei a escrever muito, recorda. O impulso criativo surgiu de forma intensa, marcando o início do que viria a tornarse a sua linguagem enquanto cantora e autora. 

A escrita de Orca nasce de um impulso emocional, muitas vezes espontâneo, mas também envolve algum trabalho. Explica que as canções surgem quase sempre a partir da letra, que já trazem consigo uma cadência própria. A composição inicia-se no piano, passando para o computador, e aí vai construindo camadas, num processo que pode envolver alguma improvisação. Apesar de começar com uma ideia espontânea, “ […] depois é preciso trabalhar”, corrigindo versos e repensando palavras, por vezes, com ajuda de amigos. 

A sua sonoridade, marcada pelo cruzamento entre jazz e art pop, carrega também uma intensidade emocional, reflexo de uma sensibilidade atenta ao mundo. “ […]  eu acho que é um bocado difícil de viver neste mundo com tudo aquilo que tem estado a acontecer”, diz, apontando a polarização e a banalização da violência como a razão de uma raiva transformada em resistência. A canção torna-se um gesto político, mesmo quando não o parece à primeira vista: “[…] é inevitável que uma letra seja política, até a neutralidade é política”. A sua música afirma-se como lugar de denúncia e tentativa de resistência através do amor e da força do coletivo. Talvez seja por isso que tem como inspiração cantautores como Zeca Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho, grandes nomes da música revolucionária portuguesa.  

Há também uma sensação de “estranheza” que sempre a acompanhou. “[…] nunca senti que me enquadrava muito […]”, admite. Essa sensação de não pertença transformou-se em fonte criativa, uma valência que integra na sua música. 

A colaboração é uma parte central no trabalho de Leonor, mas o processo mantém-se orgânico. músicos que a acompanham de forma recorrente, como o contrabaixista Bernardo Álvares – presença constante tanto em Orca como noutros projetos –  ou o Miguel Sobral Curado – que completa o trio base. Ao compor, momentos em que imagina os colaboradores: 

Ainda assim, não tem uma regra fixa: algumas peças têm espaço à improvisação de cada músico. Cada colaboração carrega a marca individual de quem a integra. “[…] às vezes há música que tem mesmo linhas específicas escritas, e depois há outras que têm mais abertura para a improvisação e para trazerem os seus inputs, portanto, isso depende um bocado das canções.” 

A ligação à Facada Records, editora independente com quem lançou Paisagem Trânsito e Não Há Tempo, surgiu de forma espontânea, quase por acaso. Durante o processo de mistura do álbum, enviou o disco ao trompetista Yaw, que tinha participado na faixa Se o Tempo. Depois de ouvir, foi o próprio Yaw (que, juntamente com João Almeida, fundou a editora) que sugeriu o lançamento. Para a artista, estar ligada a uma editora é sobretudo uma forma de colaboração e apoio mútuo entre artistas: “ […]  as editoras acabam por ser, novamente, uma lógica de coletivo, das pessoas se juntarem, e se estivermos juntos, somos mais fortes” 

Enquanto artista independente, reconhece a importância de recorrer a apoios institucionais para possibilitar os seus projetos. Ainda que rejeite a ideia de que o financiamento garante necessariamente melhores resultados, – “Eu não acho que seja uma coisa assim óbvia de ‘Tens apoio? Vai ser melhor’, não necessariamente” – admite que o acesso a ajuda financeira facilita o processo. “Claro que conseguir apoios financeiros para fazer os discos basicamente facilita um bocadinho a vida, porque consegues ir para estúdio, consegues ter pessoas a trabalhar nas coisas, na tua música, e portanto, é um caminho que nós temos vindo a fazer de tentar obter financiamentos para gravar e para fazer os discos”, afirma. 

Entre os maiores desafios de quem faz música fora das grandes estruturas, Leonor destaca os mais óbvios, e ao mesmo tempo, mais difíceis: ser ouvida e encontrar o seu público. Reconhece que existe curiosidade e alguma procura por parte das pessoas, mas nem sempre a música chega até elas. “ […] acho que a dificuldade é mesmo tu conseguires que as pessoas ouçam”. O desafio de fazer a sua música chegar aos locais certos para conquistar novos ouvintes é um dos grandes obstáculos, sobretudo no início da carreira. Soma-se também uma precariedade do meio artístico: os artistas são mal remunerados. No entanto, a cantora menciona o ensino como uma alternativa estável na música: “Os músicos têm uma sorte […], que é poderem dar aulas.[…] é uma forma também de subsistência” 

Embora tenha crescido no Algarve, – entre várias localidades como Silves, Armação de Pêra, Faro, Albufeira – Leonor não sente uma ligação forte com o território onde cresceu: “Eu acho que acabei por criar essa relação com esse conceito de casa mais em Lisboa, do que , […] não tem a ver com o território, não, é mesmo porque eu não tive assim uma estabilidade ao crescer associado a este território”. Ainda assim, reconhece que a região carrega tanto desafios como oportunidades: menos acesso a formação artística especializada, o que condiciona os percursos de quem quer seguir música, mas também menos saturação cultural, o que pode abrir espaço à criação. 

No que toca às redes sociais, a cantora reconhece a sua importância na divulgação do seu trabalho, mas não esconde a frustração que sente em relação a elas: Irrita um bocado […], confessa, referindo-se sobretudo ao Instagram, a única rede que usa com alguma frequência. O que mais a incomoda é a pressão constante da autopromoção: “ […]  é muito difícil estarmos sempre a dizerOuçam o que eu faço, eu faço coisas tão fixes’ […]. Não quero estar a auto-elogiar-me constantemente […]”. Ainda assim, usa a plataforma para anunciar concertos, colaborações e lançamentos, partilhando apenas o que lhe faz sentido. Não sei se é um bocado ingrato”, reconhece, lembrando que o funcionamento dos algoritmos privilegia certos tipos de conteúdo, o que se torna desgastante. 

A presença online tornou-se quase inevitável, contudo, percebe o valor de tentar comunicar com o público por essa via, mesmo que nem sempre veja resultados. A sua abordagem às plataformas digitais é espontânea, sem estratégias definidas ou preocupações com likes e visualizações. “Eu sigo zero estratégia mesmo, e se calhar faço tudo mal”, diz entre risos. 

Leonor recusa afirmar que está a abrir um novo espaço na música portuguesa. “Eu não seria capaz de dizer isso sobre mim. Eu acho que isso só dá para avaliar de fora […], diz, preferindo não se enquadrar. Ainda assim, reconhece quem esteja a abrir novos caminhos: 

A influência da música lusófona, em especial da brasileira, é clara. Passou por uma fase em que ouvia muito as canções de Chico Buarque, Caetano Veloso e Elis Regina. Mas para Orca, as rehttps://youtu.be/tVxw5HowdI0ferências vão muito mais além da música: “ […] as influências também são multifatoriais, porque […] não é só a música que influencia. Acho […] que também é ver filmes ou os livros que leio, ou as conversas que tenho, acho que tudo isso”. Aponta também fases de fascínio por artistas como Manuel Cruz, Lúcia Fumero e Rita Payés. 

Sobre o panorama atual da música portuguesa, reconhece uma vitalidade criativa, mas sente que faltam meios que deem a conhecer novos artistas. Para músicos sem apoio estrutural torna-se difícil crescerem, sendo necessário haver mais espaços de visibilidade para quem cria “[…] pelo prazer e pela necessidade de as fazer”. 

Também considera essencial uma maior descentralização cultural: “[…] acho que era fixe haver também uma […] descentralização da cultura: as pessoas poderem circular um bocado mais no país. Eu sinto que isto já tem vindo a acontecer nos últimos anos. […] acho que há mais sítios para ir, há mais minifestivais”, diz, lembrando que há muita gente “ […] a fazer coisas numa aldeia, sabe Deus onde, e que são coisas super fixes”. 

De planos, Orca prepara um novo disco para o próximo ano, ainda sem data de lançamento. De momento, a composição está praticamente concluída, e o foco está na finalização dos arranjos antes de gravarem as músicas. Para já, não há concertos marcados: “ […] agora estamos mesmo focados no disco novo”. 

O percurso de Leonor Cabrita continua a desenvolver-se de forma orgânica. Mantém-se fiel à sua estranheza alimentando a singularidade das suas canções. Embora nasça da sua escrita , Orca é também resultado de um corpo coletivo: um projeto que ganha forma através de muitas mãos 

 

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