Observatório da Qualidade no Audiovisual

Rafael Correia: “Chegámos a um ponto em que a música em português tem imensa força”


Entrevista: José Duarte
Produção: Luana Piegas
Texto: José Duarte

Conhecido como Gijoe enquanto DJ, Sickonce como produtor (o primeiro aparece ao público mais cedo, mas surgem sensivelmente ao mesmo tempo), Rafael Correia é, acima de tudo, um artista multidisciplinar que, apesar de não ser através da sua voz que se proclama, não deixa de ser uma das Vozes do Algarve que mais elevou a música da região. Com os Tribruto, levou o hip hop algarvio “para lá da Serra do Caldeirão” e com mais de 20 anos de carreira, estando na direção da editora independente Kimahera, tornando o gira-discos em instrumento e assinando em diversos planos musicais, Rafael assume-se acima de tudo como um artista versátil que vê na experimentação e curiosidade o caminho da sua criação:

Como referido, apesar de ser da música que faz vida, antes desta aparecer, havia uma outra paixão, a patinagem, esta que lhe serviu de janela para descobertas que acabariam por se tornar basilares à sua pessoa: o hip hop. “Eu sempre gostei de música, não sei se foi uma cena que me foi muito incutido em casa, mas sempre tive interesse […] Mas os filmes de patins e o ambiente de comunidade, foi o que acabou por me mostrar muita coisa que não me era acessível na rádio ou nos meios que tínhamos na altura. Esse mesmo grupo, foi o meu primeiro grupo de rap”, conta-nos Rafael, acrescentando que começou a sua atividade de produtor e DJ, com rappers que andavam consigo de patins.

Nutrindo também interesse pelos vídeos, acaba por ser em arquitetura que se forma. Apesar da pluralidade das áreas, é a busca e o desafio que o motivam a explorar esses meios, sendo natural a sinergia que acaba por ocorrer entre eles:

É também responsável pelo design de capas, conceptualização de edições físicas e também já realizou videoclipes para trabalhos dos quais faz parte, especialmente para os Tribruto, como é o caso dos temas “Comprimidos de Flow” ou “O Amanhã de Ontem” com Sam The Kid. É então notável a importância que o visual tem no áudio para Rafael:

E já que se aborda Tribruto, para Sickonce/Gijoe, a sua génese é também um momento marcante na carreira. Aquando do surgimento do grupo, Gijoe já tinha alguns projetos musicais, porém através de uma química de palco e não de estúdio que estes partilhavam, por este servir de DJ tanto para Kristoman, como para Real Punch, individualmente, perceberam que deveriam compor originais, o que possibilitou a Sickonce aventurar-se criativamente e por sua vez levar rap algarvio a outros horizontes.

Tal abrir de portas, que, como já referido na entrevista do Vozes do Algarve a Kristoman, é defendido por Ricardo Farinha no seu livro seminal Hip Hop Tuga: Quatro décadas de rap em Portugal (2023), onde refere que o grupo é o que mais elevou o Algarve a nível de rap nacional, é algo que Rafael revela ter sido fruto de um esforço conjunto, pela estrutura que tinham constituído com a editora independente Kimahera, que contribuiu para uma inserção do trio no rap português:

E se falamos em Kimahera, é indissociável falar de Rafael Correia. Apesar de ser algo  “pré-Gijoe”, foi cedo que se acabou por juntar aos criadores Reflect e ao saudoso Dezman, tendo sido algo que surgiu apenas como estúdio, pela necessidade técnica de gravar. A partir do momento que começam a assinar edições físicas, o selo passa a ser também de editora. Editora esta que se afirma independente, principalmente, por começar pela necessidade (literal) destes não dependerem de outros, o que os levou a tomar algumas escolhas que os levaram para além da música:

Para além dos Tribruto, faz parte de projetos como Deep:her (Gijoe + emmy Curl), MODA VESTRA (com o acordeonista João Frade) ou Bullet (com Armando Teixeira) e já colaborou com um considerável número de rappers, como por exemplo com Perigo Público no longa-duração Porcelana, lançado em 2019, sendo a colaboração um elemento indispensável na sua criação. “Eu comecei por aí, as minhas primeiras experiências a fazer música foi a gravar para uma cassete, uma espécie de mixtape, que íamos fazendo em sessões de improviso de rappers e eu ia passando instrumentais, que nem eram meus na altura. Portanto se calhar o meu lado mais solitário durante algum tempo foi mesmo a parte da produção, em que realmente trabalhava sozinho, mas era sempre colaborativo quando passava a ter voz”, refere, rematando que apesar de ter projetos completamente a solo, esses são a exceção.

Quanto à génese das suas colaborações, vieram sempre por via natural, não se lembrando, enquanto produtor colaborativo – pois trabalha como produtor de estúdio -, de alguma vez ter tido um contacto estritamente de trabalho, havendo sempre alguma relação.

Já tendo trabalhado com rappers, produtores e instrumentistas, demonstra uma ginástica nos diferentes processos. Em projetos como Tribruto, Deep:Her ou na sua colaboração com Perigo Público, Rafael explica que “são projetos em que eu, o produtor, tenho a mesma importância na decisão que o cantor ou o rapper, mas tenho outros projetos em que sinto que estou a criar condições para o rapper dizer o que tem para dizer.  O meu lado está a servir uma causa maior. Aí eu tento não meter tanto o que é a minha visão, mas o que eu acho que pode ajudar a visão da outra pessoa”. No que toca a instrumentistas, sente que está a trabalhar de igual para igual, assumindo que há um antes e um depois na sua carreira, nesse sentido:

Com a experimentação como base, de onde brotaram muitas das aventuras estilísticas de Tribruto, é a curiosidade de aprender técnicas novas e sonoridades diferentes, que o levam a tentar esculpir o seu som. Quando sente que já domina um estilo ou um género, Sickonce está pronto para experimentar mais e aventurar-se noutras lides. E é ao compôr, ao fazer e criar, que se tenta aprimorar: “Se calhar sou daquele tipo de produtores que faz 500 beats por ano, de onde saem 5 ou 10, o resto são mesmo experiências, que só servem para esses 5 ou 10 serem diferentes. É assim que gosto de trabalhar”.

Um nato navegador do versátil, sente que ainda assim foi capaz de construir o seu som, mesmo que fugindo a um carimbo específico:

Quando se veste como Gijoe, tem a componente ao vivo e “performativa” bastante presente na sua carreira, tendo até Tribruto saído por parte desse meio, por vezes compondo também para ele. Mas para Rafael, a influência do “tocar ao vivo” na produção, difere de projeto para projeto: “noutros projetos, claro que é importante, é o fechar do ciclo. Mas isso vê-se pelos meus projetos pessoais, eu nunca os apresento ao vivo […] não vejo o palco como uma necessidade. Depende do projeto. Há projetos que faz sentido acabar no palco, há outros que, para mim, ficam bem só com as pessoas a ouvirem de uma forma mais provada”.

 Relativamente à forma como lança, como já referiu, não abdica de uma boa edição física, mesmo que isso signifique “se calhar perdemos dinheiro, mas é importante, pois ajuda a contar a história de um disco”, conta-nos:

Apesar de olhar para a componente física como uma mais-valia, especialmente na maneira como consegue expandir o conceito de um projeto, desde muito cedo que notou a importância do digital”:

Desde esta “guerra entre o digital e o físico”, Rafael Correia sempre viveu no cenário da música independente algarvia. Quanto às diferenças, nota que hoje em dia existe “uma possibilidade técnica muito mais acessível”. Felizmente, as pessoas hoje conseguem fazer música de qualidade, de forma completamente independente, com custos muito inferiores aos de há 20 ou 30 anos atrás”. Aborda ainda o facto de já não existir dependência de se lançar vinis e CDs ou de aparecer em rádios nacionais para mostrar música e a importância do aumento da formação técnica.

E se falámos no aumento de formação de há 20 anos para cá, Rafael também é culpado nesse quesito. Sendo um dos formadores da ETIC Algarve, o DJ e produtor tem aumentado a formação técnica da região, ao mesmo tempo que se enriquece enquanto artista:

Assim, segundo Rafael, o aumento da formação não só contribui para que artistas se possam tornar mais autodidatas e livres de terceiros, como também, enquanto estrutura de tocar ao vivo, faz com que o Algarve seja mais independente por “não ter de chamar pessoas de fora”.

E esta fuga à independência alastra-se também para a sua relação com as suas redes sociais e para a forma como este divulga o que faz:

Quanto à forma como Rafael navega neste paradigma, revela que “a minha estratégia é ter um bocadinho de consciência de como as coisas funcionam. Não sou minimamente preocupado, cada vez menos sou, mas tenho essa consciência e sei que se quero lançar um álbum e que ele tenha visibilidade vou ter de fazer algumas coisas para funcionar melhor, vou ter de ativar as redes. Porém, acho que tem um limite, se isso está a prejudicar o meu lado criativo e a minha vida, que é o que me dá vontade de fazer música, não vale a pena”, acrescentado que para a sua dimensão e as suas ambições, se quisesse ter mais exposição, arranjaria alguém para tratar desse lado, mas “como eu prefiro ter 10 projetos ao mesmo tempo e serem todos mais long run, eu não me preocupo assim tanto com isso”.

Em sentido contrário ao digital, presa muito os media tradicionais, sendo participante e até autor de programas de rádio. No caso da sua participação no antigo programa Rimas e Batidas, programa de autor de Rui Miguel Abreu na Antena 3, exercia a função de DJ, utilizando o seu set mensal como montra daquilo que ele queria mostrar, enquanto que no seu programa Antiestático, seu programa de autor na RUA FM, o formato é completamente aberto, não havendo restrições a géneros, artistas, sons ou origens: “funciona quase como a minha playlist da semana, eu procuro que seja coisas recentes, mas nem isso é uma obrigatoriedade, se me apetecer fazer um programa com muitos clássicos, eu vou fazer, é o meu mood da semana […] Eu faço o programa por duas razões, por dar a conhecer música nova e porque assim tenho uma regra de procurar música novas todas as semanas, que é fundamental para mim, é uma ajuda de me manter atual”.

É também pela vertente da curadoria que por vezes Gijoe funciona como DJ e, acima de tudo, como representante do rap algarvio. Em 2021, como alternativa face à pandemia COVID-19, o espetáculo “A História do Hip Hop Tuga” aconteceu sob a forma de dois DJ Sets, um em Lisboa, no LACS, e outro no Porto, na Super Bock Arena (Pavilhão Rosa Mota), sendo Gijoe convidado para o primeiro. Neste set, todas as músicas passadas pelo DJ algarvio, tinham uma Voz do Algarve. “O meu problema não foi arranjar os 30 minutos,  foi selecionar aquelas e deixar de fora algumas. Podia ter feito 3 horas”, conta-nos Rafael realçando a qualidade da música da região.

Mas para além de enaltecer o rap algarvio, Sickonce é também um apologista do valor que reside na palavra dita no rap, em específico, a palavra em português. Em 2021, fez parte do projeto No Princípio Era o Verso, incorporado no Festival Literário de Lisboa, onde dirigiu uma espécie de orquestra hip hop, da qual faziam parte nomes como Nerve, Maze, Perigo Público, Chullage e Amaura, artistas que conhecia bastante bem, onde teve de “fazer a cama para a palavra”, estando o desafio em conectar todos os diferentes discursos e estéticas, mas que para GiJoe é  “uma representação do que é a variedade que temos a nível de lusofonia”

“Acho que percebemos que chegámos a um ponto em que a música em português, seja ela feita em Portugal ou fora, tem uma força imensa”, afirma Gijoe, refletindo como também é influência da abordagem das novas gerações ao mercado musical. E às vezes até são mesmo as gerações mais novas que acabam por lhe introduzir música lusófona fora de Portugal:

Estando com um estúdio ativo, Rafael Correia tem-se envolvido em vários projetos “por trás da cortina”, enquanto técnico, o que resultará em vários lançamentos com o seu nome associado. Porém, a nível pessoal, no que toca ao seu futuro, revela que pretende findar o seu terceiro álbum a nome próprio, reativar outros projetos e acima de tudo organizar os próximos anos, pois estes prometem ser recheados de lançamentos:

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