Observatório da Qualidade no Audiovisual

RealPunch: “Quando as pessoas ouvem falar do meu nome, sabem que vou ter algo a dizer a nível das punchlines e que não é só na primeira camada”

Entrevista: José Duarte
Produção: Luana Piegas

Texto: José Duarte

Com o Real de realidade e Punch de punchline, foi com apenas 15 anos que RealPunch, nome com que se veste Pedro Godinho no mundo musical, se começou a destacar enquanto uma Voz do Algarve que sabia dançar no meio do ritmo e poesia. Um terço dos Tribruto, autor do álbum GLDNSHWR (2019) – produzido por dB (faceta de produtor de David Bruno) – e dos projetos colaborativos “Do Minho ao Algarve vol.1” com John Miller e “Vinnie Jones & Roy Keane” com Kristóman e Darth Lxiv, o rapper algarvio tem vindo a construir uma carreira que já o levou de norte a sul do país.

Para além disso, também o levou a colaborar com artistas como Diogo Piçarra e ainda a afirmar-se enquanto uma das caras mais conhecidas do panorama das batalhas de rap em Portugal. Mas antes de tudo isto, RealPunch “é um rapaz que veio de Tunes”:

Herdando a relação com a música por família, tanto pelos discos de Dire Straits e Pink Floyd que o seu pai tinha por casa, como pela sua tia que ouvia muito rock e que o levou a descobrir a cena de nu metal do início dos anos 2000, com nomes como Korn e Limp Bizkit. É na escola e por achar “que gostava de andar de skate”, que vai passando para o punk e hardcore, culminando na descoberta do hip hop através de colegas e de um primo seu. Contudo, é quando se depara com uma música de Xeg, uma das primeiras vezes que ouvia rap em português, que repara na forma como este enquadra as palavras e tenta passar algo através da sua música, despertando assim o interesse pelo rap, que o levou a rappers como Chullage, na altura do álbum Rapresálias (2001) e “a partir daí nunca mais parei”, conta-nos o rapper.

E esta jornada, como supracitado, começou em tenra idade, levando-o até a ser a contratação mais jovem da editora algarvia Kimahera:

Porém, o grande ponto de viragem viria sob a forma do grupo que construiu ao lado de Kristóman e Gijoe, os Tribruto. Com a Kimahera enquanto elo de ligação, como já nos foi contado pelos seus colegas de banda, é através da química que estes detinham em palco que começa a fazer sentido estes formarem um grupo, mas Punch destaca dois momentos: “Depois o Kristo ganhou um concurso do H2Tuga e fomos tocar a Lisboa e correu bué bem, sentimos uma sinergia muito boa. Tocamos também depois em Lagos e fez bué sentido juntar-nos. Nascemos da estrada e só depois fazia sentido estabelecer-nos também enquanto grupo”.

É com orgulho que olha para o caminho dos Tribruto, sobretudo pela forma como conseguiram “partir à descoberta”, mas também pelo cariz cómico que sempre incorporaram no seu estilo, que os acabou por diferenciar, mas não se esquece dos seus antecessores:

Relembra também que é o interesse pelo audiovisual de Gijoe que os leva a explorar o surgimento do Youtube. O grupo aproveitou para expandir a sua narrativa através de videoclipes, muitos deles autodidatas, mas também teve a oportunidade de ir para outros tipos de produções, como foi o caso do vídeo para o tema Algazarra, que foi a primeira experiência de estúdio de gravação de vídeo para o grupo.

Outros vídeos para o álbum de mesmo nome, que resultou de uma parceria entre a Kimahera e a editora de hip hop Footmoovin, são por exemplo o caso de Money Comes To You, com Dino d’ Santiago e Sofia Graça, que foi um dos primeiros projetos da produtora audiovisual farense New Llights Pictures.

À semelhança dos seus colegas, RealPunch tem também uma forte veia colaborativa, dizendo que está “sempre receptivo para colaborar com outros artistas”, não só porque inicialmente na sua carreira não tinha esse à vontade, mas também pelo facto de não produzir e de por isso gostar de colaborar com produtores, como é o caso dos seus projetos com o minhoto John Miller e o gaiense David Bruno. Refere a inclinação que tem para as parcerias com outros criadores algarvios, especialmente para ajudar a cimentar a cultura do rap algarvio:

E já que se fala da sua parceria com David Bruno, é possível criar um diálogo entre o trabalho não só destes dois, mas também com o grupo de hip hop do artista de Gaia, os Conjunto Corona, que até já se referiram a RealPunch como um “membro honorário” aquando da sua passagem pelo Festival F de 2019. Ambos navegam em sátiras conceptuais à volta de estereótipos portugueses, cada um indo para as suas respetivas referências regionais. “Eu acabo por ter uma ideologia um pouco local e acho que tem sido também um ponto muito marcante enquanto RealPunch como artista, que é a parte das referências locais e o facto de defender a região com muito afinco”, conta-nos o artista tunense (que já se assume também como farense, por viver na cidade há vários anos), demonstrando também a queda pelo conceptual, transversal à sua carreira:

Apesar de andar muito pelo conceptual, explica-nos que até lá chegar, o seu processo criativo já tomou várias formas. “Já comecei pela letra, já comecei pelo instrumental e hoje em dia estou numa fase em que parto do refrão para o resto. O processo criativo hoje em dia é ir a conduzir para o trabalho, meto instrumentais e vou a cantarolar por cima, fazer aquilo a que se chama de mumble. Vou procurando a melodia e vou tentando encaixar ideias. Assim que encontro as palavras que fazem sentido para compôr o refrão, começo a construir o resto.”, explica-nos Punch, acrescentando que não tem nenhuma linha fixa para escolher a sonoridade por onde rima, dizendo que tanto vai do boom bap ao drill, como ao trap, gostando de abraçar uma certa abrangência nesse sentido.

O que podemos sempre esperar de RealPunch é mesmo a punchline, algo que transcende as canções e passou para outro lado relevante da carreira do artista algarvio: as batalhas de rap. Em 2013, tornou-se o primeiro MC algarvio a participar na Liga KnockOut – mítica liga de batalhas de rap, muito influente na década de 2010, de onde até acabaram por estar presentes nomes como Profjam, Papillon ou 9 Miller, que se viriam a afirmar grandes talentos desta geração -, onde se colocou frente a frente com Pofo, para realizar um momento que arrecadou mais de meio milhão de visualizações no Youtube, sendo, ainda hoje, uma das 15 batalhas mais vistas da história da companhia. Com um hiatus de 9 anos, regressou às batalhas em 2022 e não parou desde aí, continuando a reconhecer nelas um grande exercício de escrita como também uma valorização da palavra:

Revela ainda que as batalhas acabam por atrasar a criação de novas músicas, por gostar sempre de dedicar pelo menos 2 ou 3 meses antes de cada confronto, ficando sempre focado para tal, não gostando de compor canções para não atrapalhar nenhum desses dois processos. Estes que se distinguem bastante em termos de carga de trabalho: “Imagina, uma música é muito mais fácil de fazer, até porque escrevo menos [risos]”

Nas batalhas de rap, RealPunch é também conhecido pela sua postura feroz do palco, que como já nos referiu, foi algo que lhe foi moldado pelos Tribruto. E voltando atrás no tempo, desde que se juntou à Kimahera, que nos últimos 20 anos tem acompanhado de perto o cenário musical independente no Algarve. No que toca às grandes diferenças, reflete sobre a maior acessibilidade técnica que existe e olha para o novo paradigma da divulgação no digital como uma faca de dois gumes:

Se por um lado a sua casa sempre foi o cenário independente, teve a oportunidade de ver de perto a estrutura de trabalhar com uma grande editora. Em 2015, juntou-se ao conterrâneo Diogo Piçarra para o tema “Falso Espelho”, inserido no álbum de estreia do artista farense, Espelho, editado pela Universal Music Group. Tendo acompanhado o cantor em algumas datas, RealPunch viu as bases com que os músicos trabalham quando estão envolvidos com uma “major”, refletindo que estes, apesar dos pontos negativos que possam estar associados, têm o privilégio de apenas se preocupar com a sua arte, reforçando a importância que é entregar a tarefa de divulgar música a terceiros:

Na divulgação, admite que, apesar de no seu trabalho fora da música trabalhar com marketing digital, quanto à sua “autopromoção” já não sabe tanto o que fazer. Nas suas estratégias, destaca os reels dedicados a um single e que aquando de um lançamento tenta ficar mais ativo no Twitter e no Instagram, no qual faz diretos e abre caixas de perguntas, assumindo que uma das suas grandes lacunas no meio digital, é a inconsistência com que aposta nesse meio. Não tem problemas em dizer que sente a pressão de “ter de estar ativo”, mas que encara com naturalidade. Para além de que reconhece a importância que estas plataformas têm na conexão com audiências mais jovens:

Quanto à conceptualização dos seus projetos e lançamentos, questiona-se sobre os padrões de consumo dos dias de hoje, acreditando que o impacto de um álbum já não é o mesmo do que antigamente e que assim, sem pressão, vai lançando singles apesar de continuar a preparar projetos de maior duração: “Eu tive ali uma fase depois de ter colaborado com o Diogo Piçarra, onde tive várias dúvidas sobre qual é que era o caminho a seguir. Depois mudei de trabalho, fui pai e não fiquei tão ativo na música como antes. Felizmente, eu digo felizmente e até pode parecer um bocado estranho [risos], tivemos um confinamento e eu voltei a apaixonar-me pela gravação de música, voltei a escrever, voltei a gravar, fiz um projeto e hoje em dia estou a preparar um álbum, mas não estou tão preocupado em acabá-lo antes de ir lançando outras coisas”, relata-nos.

Passando para o panorama atual do hip hop nacional, RealPunch aponta para a valorização que o género está a ter, porém que enquanto sistema, está difícil para artistas com menos visibilidade crescerem: “Está melhor do que nunca, para alguns nomes, mas para o movimento independente nunca esteve tão difícil”. Fala dos exemplos de Slow J e Plutónio, artistas que esgotaram a MEO Arena – maior sala de concertos do país -, dizendo que “isto era impensável há uns anos atrás, mas ao mesmo tempo que se abriram estas portas, não é fácil para toda a gente ter nível para o fazer […] existem dificuldades de tocar ao vivo”, rematando ainda com o facto de que no Algarve há muito menos salas de concertos do que há uns anos.

Defende que a união no cenário algarvio, especialmente na relação artistas-público na dinâmica ao vivo, é a chave para o crescimento, questionando, contudo, como é que se pode fortalecê-la:

“Quando as pessoas ouvem falar do meu nome, sabem que vou ter algo a dizer a nível das punchlines e que não é só na primeira camada”, é como descreve o seu nome no panorama nacional, destacando nomes como Papillon, Slow J, Vácuo, Wet Bed Gang, Nerve e ainda colegas de batalhas, como alguns dos nomes que tem acompanhado em Portugal. Quanto à lusofonia e à música feita em português fora de Portugal, refere que é grande fã de rap brasileiro, mencionando nomes como Criolo, PECAOS, MV Bill ou até nomes mais recentes como Tz da Coronel, como referências. “Gosto muito de música cabo-verdiana, seja rap, seja até alguma kizomba ou mornas, estive de férias em Cabo Verde e adorei a vibe daquilo. Até muito por causa do Dino […], é uma universalidade que ele tem naquela música”, refere, acrescentando que no caso das batalhas segue muito o que se faz no cenário angolano das batalhas escritas.

Para o futuro, RealPunch promete mais atividade. Vai continuar pelas batalhas e, entretanto, tenciona finalizar um novo longa-duração enquanto deseja aperfeiçoar a sua presença no digital:

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