Observatório da Qualidade no Audiovisual

Sara Badalo: “Tudo o que eu faço é super honesto”

Entrevista: Luana Piegas
Produção: José Duarte
Texto: Luana Piegas 

Nascida na Fuseta, uma pequena vila piscatória no sotavento Algarvio, Sara Badalo tem vindo a construir uma carreira marcada pela autenticidade e versatilidade. Cantora e compositora, formou-se em Canto Jazz e também em Formação Musical e Direção Coral pela Escola Superior de Música de Lisboa. Em 2021, ganhou visibilidade ao participar no The Voice Portugal, e no ano seguinte subiu ao palco do Festival da Canção como parte da atuação de Maro, que se viria a tornar na música vencedora.  

Conta ainda com um percurso recheado de colaborações, que a artista considera uma parte muito importante da sua carreira e vida pessoal, ao carregar um pouco de cada projeto que integra. Versátil por natureza, transita com fluidez entre estilos, recusando-se a caber “numa só caixinha”: 

Curiosamente, a música nem sempre foi o plano principal. Apesar de ter crescido envolvida pela música, especialmente influenciada pelo pai que é guitarrista, a timidez impedia-a de se imaginar a cantar em público. Ainda adolescente, sonhava com uma carreira na moda e tinha garantido uma vaga no CITEX (Centro de Formação Profissional do Têxtil e do Vestuário), além de portefólios com cursos de costura. Foi apenas no 12º ano, ao mudar de escola, que a convivência com colegas músicos e a oportunidade de fazer música de forma descontraída acenderam um “bichinhoadormecido. A timidez de infância deu lugar a uma vontade crescente e assim percebeu que a música não era algo a ser apreciado: era o seu destino 

O início não foi simples. A decisão de abandonar o percurso traçado apanhou os pais de surpresa. Ficou um ano a estudar música para se preparar para a prova de admissão antes de entrar na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou Formação Musical e Direção Coral. Apesar de serem pessoas com a mente muito aberta, também estavam muito preocupados com a saída profissional que o curso de jazz poderia ter, por isso fizeram muita força para eu estudar primeiro formação musical., conta-nos Sara. Mais tarde, ao ingressar em Canto Jazz, descobriu com clareza que ali era o seu lugar. 

Posteriormente, a cantora viria a complementar a sua experiência como artista com outra paixão: a educação musical dos mais novos. Professora de crianças dos 6 meses aos 6 anos, acredita que ensinar os mais pequenos é um exercício de empatia e verdade, uma vez que são um público extremamente honesto. É ao colocar-se ao nível das crianças, que consegue captar a sua atenção, e ao mesmo tempo, desbloquear as possibilidades de expressão e aprendizagem. 

No que toca às colaborações artísticas, trabalhar com outros músicos não é apenas uma componente da sua arte, mas uma extensão da sua identidade. Participou em projetos como Azura, Fushi, The Spill e Radio Royale, entre tantos outros, e sente-se privilegiada por ter cruzado caminho com artistas que lhe permitiram explorar diferentes facetas enquanto intérprete. Ainda assim, reconhece que nem tudo é planeado, e por vezes, as coisas simplesmente acontecem. 

Um dos exemplos mais marcantes dessa espontaneidade foi a forma como passou a integrar o projeto de The Legendary Tigerman. 

Já noutras situações, os projetos nascem de interesses partilhados. Foi esse o caso de Azura, uma colaboração com Léo Vrillaud, com quem decidiu montar um projeto de sonoridade melancólica que transita entre o jazz e a música tradicional portuguesa. Para além da dimensão estética, a cantora sublinha a importância de abordar questões sociais nesta parceria. “Eu acho que um músico, e o artista em geral é um reflexo da sua cultura e do que ele está a viver, e os projetos onde eu estou têm muito a ver com isso” revela. 

Embora a independência artística lhe garanta liberdade para saltar entre projetos, confessa que ser artista independente não foi uma escolha deliberada. No atual panorama do mercado musical português, passamos por um “momento dramático”, com menos investimento por parte das editoras. A falta de interesse em projetos fora do mainstream é, para Sara, uma das principais razões pelas quais não está associada a uma grande editora. Tudo parte da artista – do investimento à produção. 

Ser do Algarve também traz alguns obstáculos. Consciente das desigualdades gritantes entre territórios, a artista -se obrigada a procurar ferramentas e apoio fora da região, vivendo com “um pézinho e um pézinho em Lisboa. A escassez de professores qualificados, as dificuldades nos transportes e a falta de investimento na educação musical contribuem para um ambiente pouco propício à criação artísticarazão pela qual muitos músicos locais optam pelo caminho dos tributos e covers, não por escolha, mas por falta de alternativas. A música original é vista como um capricho, algo apenas reservado para quem insiste 

Apesar disso, há quem resista a esta tendência. Sara destaca o trabalho de Domingos Caetano (que já tivemos oportunidade de entrevistar), voz principal da banda Iris, que há anos ensina jovens na Fuseta a tocar e a viver a música com paixão. 

Numa fase de dúvidas e receios em investir nas suas próprias canções, a compositora decidiu enfrentar um novo desafio: participar no The Voice Portugal. Explica-nos que queria testar-se e vencer o medo da exposição. Conseguiu, com naturalidade, encarar o processo, e ficou particularmente feliz por ter cantado “Sem Fantasia” de Chico Buarque – uma música que desejava interpretar desde o ínicio – ao lado de António Zambujo. Reconhece que a visibilidade foi útil, mas não a iludiu, afinal, estava ciente de que as dinâmicas das redes sociais seguem outra lógica: 

Ainda hoje, admite ter uma relação complicada com essas plataformas. Admite o seu valor enquanto ferramenta de comunicação, mas não esconde a frustração: as publicações mais elaboradas e pensadas com intenção, raramente têm alcance, enquanto que conteúdos mais banais, sem ligação direta à música, somam likes e visualizações. 

Entre as referências que moldaram a sua identidade musical, a artista destaca dois gigantes da música lusófona: Elis Regina e Chico Buarque (não é por acaso que integra os projetos Elis e Eles e Chico Buarque no feminino). Revela que Elis é o seu maior ídolo e que aprendeu com ela que permitir-se ser frágil é um ato de força, ideia que a marcou profundamente, não só como artista, mas também na vida e enquanto mulher. Já a escrita de Chico fascina-a pela sensibilidade, especialmente pela forma como consegue escrever no feminino, qualidade que compara à do músico Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) 

Fora do universo lusófono, uma das suas maiores influências é a Björk. A cantora islandesa inspira-a pela ousadia e pela liberdade criativa, ultrapassando fronteiras na composição, na produção e na interpretação vocal. Sara identifica-se com essa ausência de limites, movendo-a, sobretudo, a circular entre géneros e formatos. “Para mim, o free jazz era aquilo: era agarrar em pratos e tocar com os dentes, […] e depois, estar a fazer uma música do Drácula de Bram Stoker com uma melodia e um arranjo que era mais jazz e depois, meio Marilyn Manson, e essa ausência de limites é também muito Björk.” 

A presença de Sara Badalo no Festival da Canção de 2022 aconteceu por convite de Maro, amiga de longa data. A ligação entre ambas remonta aos tempos em que Sara era aluna da mãe de Mariana – a futura Maro – no curso de Formação Musical. Embora não pudesse concorrer como intérprete principal, por conflito de interesses com a sua participação no The Voice, aceitou com entusiasmo subir ao palco na apresentação final de “saudade, saudade”, que acabaria por se tornar a canção vencedora.

Tal como acontece com a música de Maro, também Sara transita entre o português e o inglês nas suas criações. A musicalidade na língua materna vem das raízes algarvias e das memórias de infância; o inglês, por outro lado, entrou sobretudo pela escuta, sendo que a maioria da música que consome é nessa língua. Além disso,  passou 3 anos a estudar jazz, período em que interpretava principalmente repertório em inglês, o que moldou naturalmente a maneira como compõe. Quando o sentimento é mais íntimo, tende a escrever em português; quando pensa em inglês, a canção segue esse fluxo. “Eu tenho um pensamento em inglês, portanto, é natural que ele acabe por sair nas minhas músicas”, esclarece.  

Foi assim também que surgiu uma música em francês e inglês, um reflexo direto das raízes familiares, já que parte da sua família vive em França. Para a artista, a linguagem musical é uma extensão da experiência, e seria, como diz, injusto limitar-se a uma só língua.

Atualmente, Sara está a trabalhar em várias vertentes. Possui um repertório original de canções infantis tenciona compilar num disco com livro, aindaem águas de bacalhau, mas que sonha concretizar. A inspiração surge do seu interesse pela educação musical inclusiva e das lacunas que sentiu na articulação entre a técnica vocal e terapia da fala. Escreveu também um livro infantil sobre descobrir a própria voz, inspirado tanto na sua timidez em criança como nas vivências com a filha, que enfrenta desafios semelhantes. Ainda está a estudar como poderá editá-lo e lançá-lo. 

ainda o desejo de gravar um disco puramente de jazz com artistas que admira, embora esse projeto esteja atualmente em pausa. O que avança com mais firmeza é o seu trabalho a solo: encontra-se em fase de pré produção com Léo Vrillaud e conta com a colaboração de uma pessoa muito querida na produção, cujo nome prefere manter em segredo. Não datas nem promessas, mas garante que é um projeto que a representa profundamente e está entusiasmada com o que está por vir.

 

De raízes algarvias e horizontes musicais amplos, Sara Badalo é uma artista em constante construção, cuja trajetória cruza a performance, o ensino e a composição. A independência artística torna-se motor de criação, deixando um toque mais pessoal em tudo o que cria. Entre a vulnerabilidade de uma canção infantil e a ousadia dos projetos mais experimentais, a sua música espelha o que vive: um caminho autêntico, guiado pela sua verdade e uma fidelidade inabalável àquilo em que acredita. 

 

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