Observatório da Qualidade no Audiovisual

The Mirandas: “Fazemos o que nós gostamos, de coração”

Entrevista: José Duarte
Produção: José Duarte
Texto: Luana Piegas

Apesar de uma só voz dar rosto a esta entrevista, é essa mesma voz que dá o nome à banda The Mirandas. Somando já quase 12 anos de existência, conta com 5 elementos no “core”: Inês Miranda na voz e guitarra, Ivo Ferreira na guitarra, Luís Caracinha no baixo, Gabriel Costa no teclado e Ruben Azevedo na bateria. Por vezes, o grupo amplia-se com Carolina Afonso e Edna Oliveira nos back vocals. A sua sonoridade é uma mistura de rock, soul e blues das décadas de 60 e 70, que ecoa através do tempo para encontrar um lugar no presente. 

Nasceram como banda de covers, mas o percurso do grupo foi marcado por uma transição: há cerca de 5 anos, abraçaram a criação de canções originais e nunca mais pararam. Inês recorda como este caminho foi fundamental para o crescimento artístico da banda. O contacto inicial com versões permitiu-lhes entender a estrada, o palco e o público que tinham.  

Foi somente em dezembro de 2024 que o grupo lançou o seu primeiro álbum, Digging for Hope, após All Those Yesterdays, um EP que marcou um momento pessoal conturbado para Inês Miranda. O novo disco é, nas palavras da cantora, uma busca por esperança: Escrevemos o álbum Digging for Hope numa de andar à procura de alguma luz, de alguma esperança”. A dificuldade em conciliar os horários e agendas dos 5 integrantes adiou o lançamento do tão aguardado álbum. 

O Algarve, recheado de bandas de covers, é um território difícil para quem quer apostar em originais. A guitarrista não hesita em apontar que Abaixo do Tejo é muito difícil conseguires vingar na parte musical” e que o facto das oportunidades surgirem apenas de Lisboa para cima, não é um mito, e sim uma realidade. Esta situação é sentida na pele pelos artistas locais, que se veem limitados pela própria região, pela falta de oportunidades e pelo público, que muitas vezes não o passo para apoiar novos projetos. 

Contudo, mesmo nutrindo um carinho especial pelo Algarve, os The Mirandas não ficaram presos à região, indo além da Serra do Caldeirão. Inês descreve a experiência de tocar em Lisboa no início do ano comoespetacular”. ao falar do Festival Vilar de Mouros, diz ter sido “[…] o melhor momento da nossa vida musical, sem dúvida alguma. Mas mesmo com conquistas assim, lembra que o caminho é feito de muita ginástica, aceitando tocar com cachês baixos, tentando mostrar o máximo possível o trabalho e apostando no digital e nas redes sociais. 

Musicalmente, o som dos The Mirandas é uma viagem a uma época que está em vias de extinção. É um revivalismo do rock dos anos 60 e 70, com incursões do blues e soul, moldado pelas influências pessoais dos membros, especialmente de Inês e de Ivo. Como referências, a cantora cita nomes como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Free e Led Zeppelin – uma herança musical que procuram respeitar e ao mesmo tempo, atualizar. O processo criativo surge naturalmente, com Inês a escrever as letras e Ivo a compor os riffs, que depois são trabalhados em conjunto no ensaio com a restante banda, onde os outros integrantes dão “o seu pozinho mágico. 

No mundo digital, a banda sabe que não pode ignorar as redes sociais. A guitarrista, que curiosamente trabalha numa agência digital, aplica o seu know-how na gestão da presença online dos The Mirandas. No entanto, reforça que as redes sociais são apenas um veículo para quem quer viver da música. “Eu já vi outros artistas que estão muito mais presentes em redes sociais e que tocam pouco, e eu sou completamente contra isso. […] Eu acho que tu, enquanto artista, tens mesmo que tocar ao vivo, é disso que a música vive. E a nível de recetividade do público […] é incomparável quando vou tocar ou quando ponho alguma coisa nas redes sociais, não tem nada a ver”. 

O ambiente digital transformou também a experiência de estar em palco. Inês reconhece que essa exposição constante trouxe uma nova pressão: “Tudo o que tu fazes pode perdurar, não só na memória das pessoas, como numa rede social”. Após os concertos, a curiosidade em ver as gravações tornou-se quase inevitável, pois a perceção de quem está em cima do palco  nem sempre corresponde ao que fica registado. Hoje, as atuações não passam a ser apenas uma memória, mas também um post que permanece online. 

Contam, ainda, com um grande destaque nos videoclipes. A cantora conta que não os produzem por gosto, mas porque sabem que são um investimento e ajudam a captar a atenção. No entanto, acredita que o público não tem tanto interesse em videoclipes.

Apesar do domínio do streaming no mercado musical, The Mirandas lançaram também o álbum em formato físico, numa decisão marcada pelo apego à nostalgia (em sintonia com a identidade da banda). Consideraram lançar o disco em vinil, mas os custos elevados limitam essa opção. Ainda assim, ter aquilo na mão tem um valor que vai além do comercial e representa um laço com os fãs mais dedicados. 

No panorama musical português, Inês acredita que o blues rock não atravessa um bom momento. Ainda assim, reconhece a existência de projetos interessantes, embora com alguma repetição de sonoridades e falta de criatividade. “Mas nós temos artistas muito bons em Portugal! Eu acho é que as oportunidades para os artistas portugueses deviam também melhorar”, esclarece. 

Sobre a escolha do inglês como língua para as letras, explica que é uma decisão natural: apesar de adorar a língua portuguesa, sente dificuldades em compor neste idioma, devido à sua complexidade. Já escrever em inglês surge-lhe de forma mais natural.  

Entre os artistas lusófonos que a inspiram, a cantora destaca Tatanka dos Black Mamba a nível de estilo: “No sentido de ele ser um frontman com guitarra e ter aquela vibe mais soul e mais rock também”. Já a nível pessoal, menciona nomes como Manel Cruz e Linda Martini. Embora estes não sejam influências diretas para a criação do som dos The Mirandas, são músicos que gosta de ouvir. 

Para o futuro, a banda quer continuar a ser o mix de homenagem ao passado e ousadia no presente, procurando trazer frescura ao rock que fazem. Para já, o principal foco é dar a conhecer o novo álbum, com mais concertos e o lançamento de novos vídeos para as canções que completam o ciclo do álbum de estreia. 

Ao longo de quase 12 anos de estrada, os The Mirandas têm vindo a construir uma sonoridade que une nostalgia e inovação, indo contra a corrente de um Algarve pouco generoso para os artistas de originais. Com o lançamento de Digging for Hope, afirmam-se como uma das propostas mais sólidas do rock feito no sul do país e seguem a todo o vapor, prontos para levar as novas canções aos palcos. 

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