Gabriela Borges
Daiana Sigiliano
Hsu Ya Ya
Lucas de Sá
Ana Luiza Pires
Maria Clara de Paula Rettl
Samara Angela
Carolina Wamser
Para Hobbs (2011) e Pereira (2021) apesar dos debates acadêmicos sobre a literacia midiática terem se popularizado em meados da década de 1980, a cultura da convergência se configura como uma questão chave. De acordo com as autoras, o ambiente digital fez com que as discussões sobre o papel do sujeito se distanciassem de uma perspectiva protetiva, em que a literacia midiática era um antídoto frente aos efeitos dos meios de comunicação. Na contemporaneidade, a literacia midiática opera como uma ferramenta de autonomia e empoderamento, na qual o sujeito assume um papel ativo no processo comunicativo, desenvolvendo não só a capacidade de interpretar de maneira crítica o fluxo midiático e seus impactos, mas de produzir conteúdos.
É a partir deste contexto que se insere a literacia do fã, segundo Sigiliano e Borges (2024, p. 83) o conceito se refere a “[…] um conjunto de habilidades críticas e criativas envolvendo a capacidade de avaliar, produzir, participar, ressignificar e distribuir um conteúdo midiático a partir do seu universo de referência”. As autoras pontuam que a literacia do fã […] abrange as competências multissensoriais por meio da repercussão do conteúdo midiático, da ampliação dos desdobramentos da trama e do aprofundamento e da ressignificação da história, além do domínio da arquitetura operacional e/ou informacional das plataformas digitais (Sigiliano; Borges, 2024, p. 83).
Deste modo, a partir do seu envolvimento emocional e intelectual, o fã reconhece as regras e os códigos estilísticos, estéticos e narrativos do universo de referência, desenvolvendo a capacidade de avaliar a coerência e projetar os possíveis desdobramentos da trama (Sigiliano; Borges, 2024). Além de criar, reinterpretar e compartilhar os conteúdos pautados no cânone, o fã também integra comunidades e participa de ações transmídia promovidas pelas empresas.
A análise da literacia do fã parte de uma proposta teórico-metodológica desenvolvida no âmbito do Observatório da Qualidade no Audiovisual e se divide em três dimensões (Sigiliano; Borges 2024; Sigiliano et al, 2025). São elas o universo de referência, a arquitetura operacional/informacional da plataforma adotada pelo fandom analisado e a pedagogia do pop. A primeiro dimensão tem como objetivo investigar como se dá a compreensão do público ávido em relação ao cânone do universo de referência; a segunda analisa como as característica da arquitetura informacional/operacional da plataforma adotada pelos fãs, em sua produção e difusão de conteúdos e impressões, são exploradas; já a terceira observa as conexões feitas pelos fãs entre o universo ficcional e outras obras e/ou a realidade, engendrando camadas de interpretativas que extrapolam o conteúdo original.
Com relação ao universo de referência, são analisados quatro habilidades (Sigiliano; Borges 2024; Sigiliano et al, 2025). Na primeira observamos a maneira como os fãs exploram aspectos visuais e estilísticos da obra como, por exemplo, a paleta de cores, design de produção, a fotografia, tipografia, etc. No segundo parâmetro analisamos se, e como, o fã domina, faz referência e/ou reforça a mitologia do universo de referência. Isto é, se as regras e códigos do cânone estão presentes no conteúdo, trazendo verossimilhança a produção. A habilidade também abarca elementos como o perfil dos personagens e o desenvolvimento dos arcos narrativos. A terceira habilidade está relacionado ao metatexto, deste modo, observamos, a partir da prática da cultura de fãs, o que vai além do universo de referência. Como, por exemplo, o uso de informações fornecidas especificamente pelo programa, outros trabalhos dos autores, fontes secundárias (jornais, sites especializados, entrevistas com o autor e com elenco, etc.) integram o conteúdo. Por fim, no parâmetro referente às lacunas analisamos se, e de que forma, o fã identifica e explora as lacunas no universo de referência.
A segunda dimensão é focada na arquitetura informacional do Instagram e é composta por quatro habilidades, são elas: conteúdo visual, ferramentas de engajamento, tempo real e templabilidade do conteúdo (Sigiliano; Borges 2024; Sigiliano et al, 2025). Na habilidade referente ao conteúdo visual analisamos se, de que modo, o perfil explora os conteúdos visuais característicos do Instagram tais como fotos, vídeos e Reels. Na habilidade das ferramentas de engajamento são observados se, e de que modo, o perfil usa os recursos da rede social para incentivar a participação do fandom, tais como curtidas, comentários, enquetes, etc. No tempo real discutimos se, e de que modo, o recurso (stories) é usado pelos fãs para discutir temas factuais relacionados ao universo de referência. Por fim, na quarta habilidade, da templabilidade do conteúdo, analisamos se, e de que modo, o fã desenvolve uma uma identidade visual no perfil.
A terceira dimensão de análise da literacia do fã é voltada para a discussão da pedagogia do pop (Sigiliano; Borges 2024; Sigiliano et al, 2025). O conceito abarca abordagens educacionais, formais e informais que integram a cultura pop aos processos de ensino e aprendizagem (Janak; Blum, 2013; Maudlin; Sandlin, 2015; Jubas et al., 2015). De acordo com Janak e Blum (2013) além da cultura pop ser fundamental para a percepção e compreensão dos sujeitos em relação ao mundo em que estão inseridos, ela fomenta, mesmo que indiretamente, a reflexão sobre questões ligadas à identidade.
Neste processo são analisados quatro habilidades (Sigiliano; Borges 2024; Sigiliano et al, 2025). Na primeira observamos se, e de que forma, o fã reconhece aspectos do universo de referência (temas, desdobramentos narrativos, etc.) em sua própria vida e/ou experiências pessoais. Na segunda habilidade analisamos se, e de que forma, o fã correlaciona os temas do universo de referência com questões reais, como ética, moralidade, política e/ou cultura. Na habilidade seguinte observa-se se, e de que forma, o fã identifica similaridades e intertextualidades entre outros conteúdos da cultura pop. Por fim, na quarta habilidade analisamos se, e de que forma, o fã ressignifica o universo de referência, explorando amarrações interpretativas que não estão presentes na obra original.
Referências
HOBBS, R. Digital and Media Literacy: Connecting Culture and Classroom.Thousand Oaks: Corwin, 2011
JANAK, E. A., & BLUM, D. F. (Eds.). The pedagogy of pop: theoretical and practical strategies for success. Lanham: Rowman & Littlefield, 2013.
JUBAS, K. et al. (Eds.). Popular culture as pedagogy: Research in the field of adult education (Vol. 95). Londres: Springer, 2015.
MAUDLIN, J.; SANDLIN, J. Pop Culture Pedagogies: Process and Praxis. Educational Studies, v. 51, n.5, p. 368-384, 2015. DOI: https://doi.org/10.1080/00131946.2015.1075992
PEREIRA, S. Crianças, Jovens e Media na Era Digital: Consumidores e Produtores? Minho: UMinho Editora, 2021
SIGILIANO, D; BORGES, G. Literacia dos fãs da série brasileira As Five na rede social X. Journal of Digital Media & Interaction, v.7, n. 17, p.77-92, 2024. DOI: https://doi.org/10.34624/jdmi.v7i17.38017
SIGILIANO et al. Literacia do fã em animês: a ressignificação do cânone de Shingeki no Kyojin no Youtube. 34º Encontro Anual da Compós, 2025. Anais […], 2025 (no prelo)









