Por Danielle Cassita
Hospital Playlist (슬기로운 의사생활) é um k-drama exibido entre entre 2020 e 2021 pela emissora sul-coreana tvN e disponibilizado na plataforma de streaming Netflix. O roteiro foi escrito por Lee Won-jung, também responsável pela roteirização dos k-dramas Reply 1997, Reply 1994 e Reply 1998, que constituem a série Reply. A direção é de Shin Won-ho, que também dirigiu Reply e Prison Playbook.
O elenco principal de Hospital Playlist conta com Lee Ik-jun (Jo Jung-suk), Ahn Jeong-won (Yoo Yeon-seok), Kim Jun-wan (Jung Kyung-ho), Yang Seok-hyeong (Kim Dae-myung) e Chae Song-hwa (Jeon Mi-do). Os protagonistas são médicos e a narrativa se passa em um grande hospital universitário, o Centro Médico Yulje.
Os cinco nutrem uma forte amizade desde os tempos da faculdade, e cada um tem sua especialidade – Ik-jun, por exemplo, é professor assistente de cirurgia geral, com especialização em transplantes de fígado. Já Jeong-won é professor assistente de cirurgia pediátrica, enquanto Jun Wan é diretor do departamento de cirurgia cardiotorácica. Seok-hyeong é professor assistente de obstetrícia e ginecologia, e Song Hwa, professora associada de neurocirurgia.

Ao longo dos 12 episódios, Hospital Playlist leva o público para acompanhar a rotina do grupo de médicos durante os atendimentos clínicos, tensões das emergências e cirurgias, apresentando também as expectativas, alegrias e tristezas das famílias dos pacientes. Ainda, a produção encontra espaço para levar os telespectadores a conferirem o outro lado dos médicos, revelando desilusões amorosas, preocupações familiares, apoio e, claro, muita amizade.
Tudo isso é acompanhado pela música: assim como o nome da produção, o k-drama tem, de fato, uma playlist própria, que é inserida de forma elegante na trama. Visto que, apesar de Ik-Jun, Jeong-won, Jun-wan, Seok-hyeong e Song-hwa serem amigos há anos, eles estavam afastados, mas são convidados por Jeong Won para trabalharem no hospital.
Cada um impõe suas condições para aceitar o convite – a de Seok-hyeong é que voltem a tocar em uma banda como faziam nos tempos da faculdade. Inicialmente, os demais resistem, mas depois acabam aceitando. Assim, os episódios contêm músicas cantadas pelo elenco principal, seja na banda Mido & Falasol, seja em algum flashback.
A análise de Hospital Playlist que se segue vai ser desenvolvida com base na proposta teórico-metodológica da Qualidade no Audiovisual. Para isso, será trabalhada a etapa da criação, que inclui o plano da expressão, do conteúdo e a mensagem audiovisual.
Um dos elementos do plano da expressão são os códigos visuais. No caso de Hospital Playlist, pode-se dizer que um dos códigos mais evidentes é o hospital Yulje: é ali que se desenrolam grande parte dos acontecimentos da narrativa. A maioria das cenas ocorre nos ambientes internos do hospital, seja nos consultórios, seja nos corredores ou nas salas de cirurgia.

No entanto, é importante destacar que o k-drama não trabalha apenas os ambientes do hospital destinados ao atendimento dos pacientes – na verdade, há diversos momentos em que os protagonistas se encontram no jardim de Yulje ou fazem uma pausa breve (e normalmente interrompida por emergências com algum paciente) para um café e alguns momentos de descontração.
Muitas das cenas nos ambientes internos do hospital têm iluminação mais fria, mas acompanhada de tons mais claros e suaves que conferem ar mais acolhedor, mesmo quando a cena é repleta de tensão. Já os acontecimentos no café ou no restaurante do hospital costumam ter tons quentes, que proporcionam aconchego, conforto e leveza ao momento retratado.
Já as cenas que se passam nos outros ambientes frequentados pelos personagens, como restaurantes e o estúdio em que tocam as músicas da banda, costumam ter iluminação quente e tons terrosos, como vermelho e marrom. As cores combinadas à iluminação proporcionam sensação de conforto e acolhimento naquele espaço.
Ainda no plano da expressão, vale mencionar brevemente os figurinos dos personagens. No hospital Yulje, Song-hwa e os demais vestem uniforme em tom azul claro, que lembra o azul celeste, acompanhado do típico jaleco branco. Fora dali, eles usam trajes mais esportivos, mas em cores discretas; as roupas conferem ar jovial e descontraído, mas também indicam traços da personalidade de cada um – é o caso de Jeong Won, que é católico devoto com forte desejo de se tornar padre e usa sempre uma pulseira com um terço. Já Ik Jun aparece com os cabelos arrumados em penteado arrepiado, que lhe confere aparência jovial e descontraída.
Em paralelo, a cinematografia e o enquadramento contribuem para expandir o entendimento sobre os personagens, suas relações e tensões. Isso fica evidente no quarto episódio da produção, quando uma médica residente começa a expressar sentimentos por Jeong-won que vão além da admiração profissional e passam a ter teor romântico.
Os primeiros contatos entre eles são tensos: no segundo episódio, Jeong Won observa que ela é fria com os pacientes, não tem tato para passar informações delicadas e a repreende. Ela aceita os comentários sem questionar. É também naquele episódio em que um paciente chega na emergência com fortes dores enquanto sua perna está tomada por larvas – e ela é a única que se dispõe a retirar manualmente cada uma delas. A cena é observada de longe por Jeong-won.
No episódio seguinte, a residente decide seguir para o departamento de Ik-jun e eles começam a se aproximar. Sabendo dos sentimentos que ela tem por seu colega, Ik-jun sobe sozinho no elevador para que ela possa ir junto de Jeong-won. Enquanto esperam, as portas do elevador aparecem fechadas e formam uma linha entre eles, separando-os. A linha reforça a barreira emocional que ainda existe entre eles.

Os flashbacks também têm papel importante na cinematografia de Hospital Playlist. É nestes momentos que o público é convidado a espiar brevemente como eles eram na época da universidade – e a produção faz este resgate em tom leve e descontraído, apresentando as cenas com toques de humor. Os eventos que se passam no passado são apresentados com edição em tons quentes e azulados e leve distorção, que deixa a imagem esticada para cima. Estes aspectos estilísticos ajudam a criar um estilo nostálgico para as cenas, quase como se elas tivessem sido gravadas por equipamentos antigos.
A representação fica ainda mais acentuada com a caracterização dos personagens: nas cenas que se passam no presente, eles aparecem com roupas comuns e discretas para a rotina, mas isso muda nos flashbacks. É nestes momentos em que a equipe de médicos aparece com roupas coloridas e extravagantes, cabelos mais compridos e tingidos e óculos diferentes daqueles usados atualmente. A nostalgia é reforçada com uma leve distorção nas imagens destas cenas, que aparecem esticadas e, assim, remetem às gravações de câmeras antigas.
Já os códigos sonoros complementam os eventos e o tom narrativo. A abertura do k-drama é uma música com acordes de violão e mais instrumentos ao fundo, que criam um som leve e envolvente. Às vezes, alguns sons são adicionados estrategicamente em determinados momentos para conferir tensão, tom humorístico e até como uma referência a produções anteriores da equipe.
É o que ocorre em um momento do terceiro episódio, em que Ik-jun está com U-ju, seu filho, enquanto andam em uma rua à noite e param na frente de um prédio com luzes coloridas. O garoto diz que sua babá disse que o pai “morava” em um lugar chamado “boate”, e Ik-jun responde, em tom divertido, que passou a juventude ali. Um acorde de guitarra soa ao fundo, dando ar dinâmico à cena.
Depois, toca o início da música tema de Reply 1988, que confere ar nostálgico à cena e ainda serve como aceno a esta produção, conduzida pela mesma dupla que compõe a equipe de Hospital Playlist. A cena seguinte dá lugar a um flashback de Song Hwa cantando em um karaokê quando ainda era universitária.
Os códigos gráficos, por sua vez, aparecem para fornecer apoio técnico e complementar à narrativa – é o caso de procedimentos médicos, nomes de patologias, entre outras expressões. Ainda, tais códigos servem também como complemento àquilo que ocorre entre os personagens. Isso acontece quando trocam mensagens de texto em seus celulares e um texto é exibido na tela, mostrando o que um enviou para o outro.
Finalmente, os códigos sintáticos contribuem para a construção da narrativa, seja apresentando os personagens, seja aumentando a tensão das cenas. É o caso de um momento emblemático, em que Seok-hyeon pede a uma residente que tampe imediatamente a boca de um bebê recém-nascido para que a mãe não ouvisse seu choro.

A cena é filmada no chamado ângulo holandês, ou seja, com o horizonte desalinhado, destacando a confusão e desconfiança dela com a proposta inusitada. Ao fim do episódio, é revelado que ele fez este pedido porque o bebê não iria viver por mais que algumas semanas, e tentou evitar que a mãe ouvisse o choro e ficasse traumatizada.
O plano do conteúdo, que inclui a narrativa e os personagens, pode ser descrito principalmente pelo grupo de médicos e pelo hospital Yulje. O ponto de partida da narrativa é a cena de abertura do primeiro episódio, em que Song Hwa e Seok-hyeong estão na casa dele enquanto uma chuva forte cai, com raios e trovões. Ele conversa com a mãe no telefone e ressalta que é preciso consertar a iluminação da casa.
De fato, há um técnico mexendo na luz, mas ele subitamente passa mal e cai da escada. Chae presta os primeiros socorros e instrui Seok-hyeong a chamar uma ambulância o quanto antes – até aqui, não fica clara a relação entre eles e nem que são colegas médicos. Quando os socorristas chegam, ela diz que um médico vai acompanhar o técnico, e aponta para Seok-hyeong.
Na sequência, os demais médicos do grupo são apresentados rapidamente e de forma caricata, que vai ser desconstruída ao longo da narrativa. É como se a produção tentasse criar uma primeira impressão de cada um deles para, pacientemente, mostrar que são mais do que pareceram naquele primeiro momento.
É o que ocorre em uma das primeiras cenas de Jun-wan. Seus primeiros momentos em tela são brigando com dois residentes, porque eles haviam prescrito uma medicação a uma paciente sem tê-la visto antes. De forma rude, ele diz que se não querem ser médicos, não deveriam fazê-lo perder seu tempo. Por outro lado, também no primeiro episódio Jun Wan aparece entrando em contato com um programa de apoio anônimo a pacientes sem recursos financeiros para arcar com tratamentos. Esta sequência de acontecimentos mostra que, apesar de ter sido ríspido com os residentes, ele tem grande preocupação com os pacientes que atende.
Sendo um grupo diverso, cada um ali tem personalidade e características próprias: Song hwa é a única mulher ali, e se envolve em tantas tarefas e projetos diferentes que é considerada perfeita pelos demais. Embora seja criteriosa e crítica com os residentes nos momentos em que julga necessário, ela é também gentil e atenta. O mesmo acontece com Ik-jun, que é apresentado como um pai amoroso com seu filho e extremamente dedicado aos seus pacientes – mas também excêntrico, já que logo no início da série o médico chega ao hospital com um capacete do personagem Darth Vader, da franquia Star Wars, preso em sua cabeça. Já Jeong won aparece em conflito com o desejo de seguir sua vocação religiosa, mas a vontade de continuar atuando na pediatria. Jun Wan, enquanto isso, é mostrado como impaciente, mas sensível e atento. O mesmo vale para Seok-hyeong que, embora seja o mais introvertido do grupo, tem grande preocupação com as suas pacientes.

O restante da produção se desenrola com foco nos casos dos pacientes de todos do grupo, incluindo os residentes com quem trabalham. Enquanto os casos ocupam o espaço principal da série, há também espaço para questões pessoais do grupo – logo nos primeiros episódios, já se sabe que Song-hwa foi traída pelo namorado, que Jun-wan decidiu deixar a parceira e que a esposa de Ik-jun pediu o divórcio.
De forma discreta, o k-drama apresenta também algumas mudanças nas relações entre os personagens. É revelado que Seok-hyeong foi apaixonado por Song-hwa quando eram universitários, mas ela o rejeitou. Ao longo da trama, quem passa a desenvolver sentimentos por ela é Ik-jun, que também não é correspondido inicialmente.
Um dos parâmetros de qualidade da mensagem audiovisual da produção em questão é a oportunidade. Ao trabalhar temas relacionados à medicina e à saúde, o k-drama dialoga com questões que atravessam qualquer tipo de fronteira geográfica e/ou de idioma: não é preciso ter conhecimento do sistema de saúde sul-coreano para que haja identificação e empatia com as cenas que mostram familiares chorando enquanto esperam respostas da equipe de cirurgia.

A ampliação do horizonte do público, por sua vez, ocorre de formas variadas – por exemplo, há momentos em que a produção parece trazer os personagens de modo a conduzir a interpretação do público rumo a um clichê, mas depois quebra as expectativas. É o que ocorre, por exemplo, no momento em que Song Hwa aparece pela primeira vez: no começo, ela é apresentada como uma profissional séria, calma e tranquila; porém, o público descobre que estas não são as únicas características que a descrevem: em um dos episódios, um personagem revela que ela canta e dança de forma bastante energética durante as cerimônias da igreja que frequenta – e o comentário é reforçado visualmente através de um corte de outra cena que, de fato, mostra a médica agitada e sorrindo enquanto dança uma coreografia na igreja.
O contraste entre a personagem apresentada anteriormente com aquela que se dedica a outras atividades fora do hospital (como a dança e os acampamentos, no caso de Song Hwa) levam a uma desconstrução das expectativas inicialmente criadas pelo enredo. Essa ampliação ocorre também por meio dos acontecimentos do hospital: nem todos os casos atendidos ali têm desfecho feliz, servindo como lembrete da realidade que ocorre nos corredores de qualquer hospital em qualquer lugar do mundo.
Enquanto humaniza a relação entre médicos e pacientes, Hospital Playlist pontua que a saúde na Coreia do Sul tem alto custo – tanto que o hospital Yulje conta com um programa de apoio financeiro por uma pessoa anônima, que arca com os custos de tratamentos e cirurgias. É revelado posteriormente que Jeong Won está por trás da iniciativa, ajudando os pacientes que não poderiam pagar pelos cuidados médicos.
Aliás, os altos custos dos tratamentos não se restringem somente aos cidadãos sul-coreanos, mas também aos estrangeiros. A questão é abordada no quarto episódio, em que um imigrante chega à emergência do hospital com paralisia causada por uma hemorragia cerebral. A equipe do Yulje quer interná-lo, mas ele pede para ser liberado porque não pode pagar pela internação e não tem a documentação necessária para isso, como um passaporte válido.
O ocorrido sinaliza os desafios e obstáculos enfrentados por imigrantes na Coreia do Sul, e nos faz refletir sobre questões migratórias e imigratórias no contexto global, mas também, nacional – basta recordar o intenso fluxo migratório da população nordestina, muito impulsionada pela industrialização das cidades do Sudeste do país. Desta forma, é possível observar como os indivíduos migram nesse fluxo à procura de uma melhor qualidade de vida e ao mesmo tempo, pensar no Sistema Único de Saúde que temos no Brasil.
A diversidade também é representada na produção – um exemplo disso é o grupo de personagens principais, em que Song-hwa é a única mulher. Ela não é tratada de forma diferente por eles e nem por nenhum colega do hospital por seu gênero, e é também bastante admirada pelo tanto de tarefas e atividades que assume dentro do hospital e fora dele – mas, por outro lado, vale lembrar que ela é a única mulher no grupo de personagens principais. Ainda, muitos dos cargos de poder apresentados na trama são ocupados por homens – é o caso da direção do hospital, por exemplo.
Já a quebra de estereótipos ocorre de forma sutil, mas existente. Por exemplo, ao mesmo tempo em que Ik-jun é retratado como um homem jovem e carismático, é ele quem passa por um divórcio e que passa a criar um filho pequeno sozinho, cuja mãe é ausente. Se a produção seguisse papéis tradicionais de gênero, talvez uma situação do tipo ocorresse com alguma personagem feminina, não masculina.
Por fim, o roteiro, temas abordados e o uso da música como ponto de partida para o reencontro dos personagens sugerem que Hospital Playlist é um k-drama que pode proporcionar ao público uma experiência com entretenimento, mas com nuances e temas que talvez passassem despercebidos à primeira vista. Através da combinação de códigos visuais e sonoros à roteirização cuidadosa e sensível, o k-drama convida ao contato com histórias que proporcionam uma experiência diferente daquela encontrada em outras produções que trabalham o dia a dia na medicina: enquanto títulos populares no ocidente, como House M.D. (2004) ou Grey’s Anatomy (2005), trabalham principalmente os desafios da profissão e casos sem diagnóstico aparente. Nesse sentido, Hospital Playlist traz uma narrativa que mostra os dois lados: dos pacientes e também, dos médicos na sua jornada profissional, assim os prazeres cotidianos como a música e principalmente, a amizade.














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