Observatório da Qualidade no Audiovisual

Desalma: análise dos processos de criação

Por Gustavo Furtuoso e Lorena Fontainha 

Desalma (Globoplay, 2020-2022) conta a história de bruxas ucranianas que vivem na cidade fictícia de Brígida, no sul do Brasil. Com uma linha narrativa que abrange diferentes temporalidades, somos apresentados ao universo ficcional a partir do suicídio de Roman, que acontece envolto em mistérios e leva sua esposa, Giovana, e filhas à cidade em que cresceu em busca de respostas. Classificada como um drama sobrenatural, a série foi anunciada pelo Globoplay como uma das produções originais que trazem um salto em qualidade para a plataforma, juntamente com Onde Está Meu Coração (2021). Seu lançamento aconteceu em 22 de outubro de 2020 e ela foi finalizada em 2022, contando com duas temporadas de 10 episódios cada.

De acordo com Erick Brêtas, à época diretor geral do Globoplay, as séries originais da plataforma tem não só a possibilidade, mas a obrigação de ir além do que é praticado na TV aberta, com maior sofisticação na linguagem e estética, e um ritmo menos frenético (Bretas, 2019). Além disso, as produções devem explorar temas ou estruturas mais ousadas, com formatos inovadores. Isso acontece, segundo Brêtas, pois o público do streaming é mais segmentado e, assim, consegue estabelecer diferentes nichos onde conteúdos menos gerais são consumidos, com audiência suficiente para manter sua continuidade. Assim, Desalma chega à plataforma como uma aposta em um drama sobrenatural, com mistérios que vão sendo desvelados lentamente e de forma não-linear, sendo uma produção na qual foram investidos recursos e discursos para posicioná-la desde o início como um produto de maior qualidade e diferenciado do que é praticado na televisão.

Um sobrenatural “realista” 

Cánepa (2009) sintetiza o gênero do horror em três aspectos: o temático/estrutural, o iconográfico e o industrial/comercial. No primeiro, temos a presença de um elemento monstruoso ou inexplicável que atormenta e aterroriza os personagens do universo ficcional. No segundo, leva-se em conta a utilização de imagens violentas, misteriosas e imprevisíveis com a explicitação de elementos grotescos, escatológicos ou de terror físico. Já o terceiro, foca na maneira com a qual o filme se assume, aproximando-se de valores como o medo, o sobrenatural, o imponderável e o choque.

Olhando para Desalma, e a partir de tais definições, fica evidente que a série se enquadra dentro do gênero do horror, pois traz a presença de bruxas, rituais de possessão, mortos-vivos, canibais e corpos mutilados, isso tudo numa ambientação sombria e com trilha sonora que busca criar momentos de tensão e sustos no telespectador. Apesar disso, quando vamos observar o terceiro aspecto da definição de Cánepa (2009)- o industrial/comercial – há uma certa resistência em assumir essa categorização, com o Globoplay e os criadores da obra a definindo como um drama sobrenatural. Em entrevista a uma rádio, a autora Ana Paula Maia, inclusive, é confrontada com a pergunta se Desalma pode ser considerada uma série de terror, da qual ela desvia e responde indiretamente apenas que é um subgênero, que está à margem do terror (CBN, 2020). 

Já no ciclo de divulgação da segunda temporada, Maia faz questão de enfatizar que houve uma intensificação nos aspectos de horror da série. 

Na primeira temporada estávamos estabelecendo a história, mostrando a mitologia para o público entender esse lugar místico. Já na segunda temporada teremos mais ação, terror e suspense. Para quem gosta desse gênero e sentiu, talvez, um pouco de falta disso na primeira, vai ficar satisfeito agora. (Souza, 2022, On-line)

Essas definições são relevantes para análise da criação audiovisual da série pois fornecem pistas da maneira como seus produtores organizaram os elementos da obra para criar certos tipos de efeitos e atmosferas aos telespectadores. A partir de tais falas, e também a partir do próprio corpo do texto, percebe-se que, embora todo o universo e a proposta da série a coloquem numa roupagem de horror, desde o início, inicialmente houve uma resistência em apelar para algumas convenções do gênero, seja por receio de acabar com um público mais segmentado ou de não chamar atenção para o drama familiar e as relações interpessoais, que são também marca predominante em Desalma. De fato, enquanto a primeira temporada serve, em boa parte dos episódios, para estabelecer quem são as diferentes famílias, seus conflitos, e também para estabelecer as tradições culturais da cidade fictícia de Brígida, com forte presença de colonos ucranianos; a segunda temporada parte dessa construção para explorar acontecimentos e eventos sobrenaturais, horripilantes e assustadores. 

Em ambos momentos, porém, a produção traz uma proposta de horror que tenta fugir aos estereótipos e clichês do gênero, partindo para uma abordagem mais sutil e sugestiva. Ana Paula ressalta que a fase atual do horror mundial está bastante refinada e é trabalhada juntamente aos dramas humanos, reverberando os impactos dessas forças aterrorizantes nas relações e nos comportamentos (Souza, 2022). Assim, na série, não são utilizados efeitos especiais e recursos tecnológicos para expor em tela a figura do monstro, a imagem busca um tom realista e possível, algo que pode evocar identificação com a audiência. 

No episódio Submersos, da primeira temporada, há uma cena onde Haia ouve sons estranhos em sua casa, e segue sua audição até a banheira, que está cheia de água. Quando ela olha para o chão, percebemos que há pegadas molhadas saindo da banheira e caminhando em direção a outro cômodo da casa [Figura 2]. As pegadas, enquanto índices da presença de alguém que saiu dali, são suficientes para trazer a presença de uma figura sobrenatural que não vemos, mas inferimos. Assim, não são utilizados efeitos especiais nem recursos de computação gráfica, a sugestão é a estratégia utilizada para evocar a atmosfera de horror para a cena. 

No mesmo episódio, vemos Anatoli com sua família num restaurante. Ele brinca com a comida – dois líquidos de cores contrastantes – rodando a colher e misturando as cores até que se tornem apenas uma. Depois, leva o prato até a boca e toma tudo de uma vez só, deixando escorrer pelas laterais de sua boca. A mancha que suja seu rosto, como percebemos depois, tem a forma de um bigode, o mesmo usado por Roman quando era vivo [Figura 2]. Sem ser explicitamente gráfica, a série usa o elemento da comida para indicar ao telespectador atento que Roman e Anatoli agora ocupam o mesmo corpo, pois foram unidos através de um pacto ou ritual.

Em contrapartida a esse e realismo, temos uma faixa de áudio que é bastante carregada e estilizada, contribuindo para deslocar essa imagem que evoca uma naturalidade para uma atmosfera mais sombria, pesada e misteriosa. Sons de porcos grunhindo, por exemplo, são trazidos de maneira repentina em alguns momentos, como um jumpscare, para trabalhar essa estranheza a partir de um áudio realista e coerente com a ambientação da história. A edição, ao recortar tais sons, entretanto, os potencializa enquanto elemento para gerar esse desconforto característico de histórias de horror. Além dos sons diegéticos, uma trilha musical repleta de sintetizadores, incluída na própria abertura da série também, é constante ao longo de todos os episódios, ajudando a intensificar o tom pensado para a narrativa. 

Elementos naturais e, até certo ponto, cotidianos são elevados para acentuar o teor horrorífico  trabalhado pela série. O cavalo é trazido como uma figura ameaçadora na primeira temporada, a criação de porcos e o abatedouro trazem cenas bastantes texturizadas para intensificar seus aspectos repugnantes, assim como as autópsias dos diferentes corpos no necrotério com cabeças decepadas [Figura 3]. Embora sejam elementos que podem aparecer em diferentes gêneros e tipos de histórias, a maneira como são aproveitados em Desalma é feita mais para que causem desconforto no espectador do que apenas para cumprir um papel de fazer avançar a história.

Esse jogo com um tom mais realista e natural também ganha valor narrativo quando passa a levantar dúvidas no telespectador sobre os acontecimentos mostrados serem reais ou apenas a visão deturpada da subjetividade de algum personagem. Na segunda temporada, quando Ignes reencontra seu irmão Alexei que havia desaparecido por anos e tido como morto, há uma construção para que seja possível questionar a objetividade de tal acontecimento. Antes disso acontecer, vemos Ignes tomar remédios controlados misturados com álcool, sendo inclusive questionada por outros personagens sobre tal comportamento. Isso possibilita que entendamos o retorno de Alexei como um delírio, uma vontade que ela sentia e que foi materializada por sua mente.

Tal recurso é característico de tramas que trabalham o Fantástico, em que num mundo exatamente como o nosso, onde não existem seres como fantasmas e vampiros, ocorre um evento que não pode ser explicado pelas leis da lógica ou da ciência. Todorov (2014) ressalta que a hesitação fantástica é traço característico do gênero em seu estado puro, ou seja, o sentimento que permanece até o fim da narrativa de dúvida sobre a origem de tal evento. Ao criar a possibilidade de que um acontecimento sobrenatural seja explicado por meios naturais e científicos, há uma suspensão da crença/descrença que dura até o momento em que a trama escolhe por uma explicação ou outra. Um barulho, por exemplo, pode ser feito por um fantasma ou um aparelho doméstico com defeito, até que a história decida qual caminho quer seguir. No caso do Fantástico puro, a trama é encerrada sem confirmar nem negar nenhuma das alternativas, deixando o telespectador ou leitor com a tarefa de ter que decidir por si o que ele acredita que estava acontecendo.

No caso de Desalma, relativizar o estado mental de Ignes serve como forma de deixar em suspenso nosso vínculo com a personagem, em cujo ponto de vista não sabemos se podemos confiar na totalidade. Depois, recebemos outras provas da narrativa para constatar que, de fato, o homem que retornara era Alexei e que Ignes não estava delirando, mesmo sob efeito dos remédios. Tais construções exigem que a audiência permaneça atenta à história para que possa avaliar, a partir das informações expostas, qual caminho é mais plausível para os acontecimentos que vão se imbricando numa teia cada vez mais complexa. Além disso, reforçam a intenção de trabalhar o medo de maneira mais sugestiva e realista, introduzindo eventos que ora podem ser naturais, ora sobrenaturais, ao mesmo passo que apresentam justificativas plausíveis que levem para uma interpretação mais lógica ou fantasiosa desses acontecimentos.

Mulheres e bruxas através do tempo

Um aspecto trabalhado nos diferentes núcleos da história é o protagonismo feminino que ela articula. As artes de divulgação da primeira temporada trazem apenas as três matriarcas dos principais núcleos narrativos, já as posicionando como figuras relevantes [Figura 5]. No caso de Haia, seu núcleo familiar é predominantemente composto por mulheres – suas duas irmãs e Halyna – que revisitam a simbologia das bruxas como figuras femininas fortes, poderosas e que foram perseguidas pelo preconceito e ignorância de suas épocas. Como apontado pela autora, esse enfoque é algo novo em sua escrita – antes da série, Ana Paula Maia produziu obras de literatura de horror – que costuma ser centrada em personagens masculinos (Nader, 2020). Ela também ressalta que a trama desenvolvida para o Globoplay tem relações muito fortes com a maternidade, representadas nas tragédias e mistérios que envolvem essas três mães e suas famílias.

Em ambas as temporadas, há a contraposição entre a independência e determinação das mulheres com as atitudes e valores repressivos e abusivos de homens, sejam por uma tentativa de submissão nos próprios núcleos familiares ou algo mais institucionalizado, como o arco narrativo que acontece num convento. Há casos de abuso por parte de padres com algumas freiras, que tentam cobrir seus rastros as obrigando a realizar procedimentos de aborto, mesmo que contra sua própria vontade. Apesar de ser uma narrativa paralela, que não tem grande impacto na trama principal, tais episódios ajudam a construir uma crítica à violação de direitos femininos ao longo das épocas, tanto em ambientes privados quanto em instituições históricas consolidadas, como no caso da igreja católica. 

A ambientação é uma ferramenta que ajuda a corroborar essa abordagem, com a igreja, o convento e outros elementos sacros sendo associados a uma dominação, um controle, enquanto a floresta, o rio e outros elementos naturais estavam atrelados às bruxas de Brígida e, consequentemente, a uma perspectiva feminina poderosa e ancestral [Figura 6]. O figurino de Halyna e das demais garotas que participam das festividades de Ivana Kupala, inclusive, incorpora elementos naturais como galhos e flores em suas vestimentas. Enquanto o catolicismo tornou-se uma instituição dominada por homens e que funciona a partir de uma hierarquia muito definida, os rituais da mitologia eslava trazem uma relação mais horizontal e igualitária entre as mulheres que participam deles. 

Apesar de o núcleo de Haia ilustrar essa igualdade entre as diferentes personagens femininas, há uma grande diversidade em suas personalidades e motivações, o que contribui para uma representação plural e não estereotipada. A escolha de não ter uma protagonista única também colabora para que esses aspectos sejam assimilados pelo público de forma gradual e contribua para os objetivos da narrativa. O protagonismo difuso ajuda a não nos alinharmos inteiramente com um personagem, passando tempo de tela suficiente com todos eles para que entendamos seus pontos de vista e seus anseios. 

Essa estrutura de complexidade centrípeta, ou seja, que traz mais camadas à série e exige maior atenção do público ao expandir seu número de personagens gradualmente conforme a história avança, é característica de tramas com complexidade narrativa (Mittell, 2015). A posição de maternidade conecta Haia, Ignez e Giovana, por exemplo, todas lidando com injustiças ou forças que ameaçam seus filhos. Cria-se empatia por todas elas – na maneira como a série se projeta – e, em determinado momento, elas se tornam rivais ou obstáculos umas para as outras. Isso exige do telespectador a capacidade de superar vínculos de preferências ou favoritismos e analisar a situação para além de um maniqueísmo raso, pois não há certo ou errado diametralmente estabelecidos. 

Além de permitir tecer comentários sobre a perpetuação do machismo ao longo do tempo, ao abordar diferentes temporalidades a narrativa demanda maior atenção do telespectador para conectar os personagens e as relações de causa e consequência entre os núcleos. Além de trazer um número elevado de peças relevantes à trama, com muitos contextos familiares sendo explorados, a história ainda se estende ao longo de diferentes décadas, com alguns personagens tendo duas caracterizações ou até mesmo dois atores para interpretar cada uma de suas fases [Figura 7]. 

Como será abordado na análise da circulação, o Globoplay chegou a criar mapas visuais para ajudar na compreensão do público acerca das diferentes famílias distribuídas nas três principais linhas temporais de Desalma. Internamente ao próprio corpo do texto, também foram utilizados recursos para ativar a memória de longo prazo do público e guiar sua compreensão ao longo das temporadas. As recapitulações (previously on…) são ferramentas comumente usadas na ficção seriada para cumprir esse objetivo, em que cada episódio se inicia com um pequeno resumo contendo trechos de cenas anteriores que serão relevantes para os arcos narrativos que a história irá trabalhar na sequência (Mittell, 2015). Desalma incorpora isso à sua estrutura, permitindo que acontecimentos distanciados em muitos episódios sejam atrelados e revisitados pelo telespectador. Apesar de flertar com a complexidade narrativa, seu storytelling muitas vezes tem dificuldade de abrir mão de balizas que guiem o público de forma didática e unívoca. Desalma exige a atenção de sua audiência para que passem por breves momentos de desorientação, mas que são logo explicados e, então, mostrados a partir de flashbacks, por exemplo, num enredo que prioriza o melodrama e as relações sociais ao invés de explorar a fundo os mistérios e a mitologia que os cercam. 

Parâmetros de qualidade audiovisual

A partir da análise de elementos da narrativa e da forma como são articulados pelos recursos cinematográficos, podemos acessar alguns parâmetros de qualidade da mensagem audiovisual. Esses parâmetros dizem respeito, para além da qualidade técnica da série e da construção de um universo ficcional coeso, à construção de sentidos que a obra provoca no telespectador interagente como, por exemplo, quais assuntos aborda e de qual maneira, como desenvolve as representações feitas e também aspectos relacionados à inovação e originalidade.

Com relação ao parâmetro da oportunidade, dois contextos podem ser citados. O primeiro é o discurso que circulou ao redor da atração, rotulando-a como um ponto de virada nas atrações originais do Globoplay por ser uma produção de maior qualidade, de acordo com os executivos da plataforma (Estigarribia, 2019). Isso ajuda a distanciar o modo de produção daquele praticado na TV aberta e validar o selo original, que naquele momento tentava se estabelecer no mercado. O refinamento estético e a maior complexidade da trama foram apontados como razões para essas afirmações.

O segundo contexto refere-se à transmissão da série na TV aberta, posteriormente ao seu lançamento no streaming, na semana do Halloween [Figura 8]. Apesar de todo cuidado da equipe em não rotular Desalma como uma série de horror, mas como um drama sobrenatural, a iconografia da obra traz bruxas, rituais, canibais em cenas que buscam trabalhar o medo e o suspense, o que motivou a exibição da mesma na semana em que é comemorado internacionalmente o dia das bruxas. Isso mostra certa contradição sobre como vender ou anunciar a série para o público, visto que foram discursos distintos em diferentes momentos do ciclo de divulgação.

Aspectos relacionados à diversidade também estão presentes em Desalma, como nas variadas composições familiares presentes na trama, principalmente no núcleo de Haia –  em que não há figuras patriarcais, mas sim matriarcas fortes e complexas – e no relacionamento homoafetivo entre Roman e Boris. Para além dessas representações, a trama evita construções maniqueístas, com personagens claramente bons ou maus. O fato de serem assombrados por fantasmas do passado, no caso, decisões ou ações tomadas pelas gerações anteriores, distribui motivações e razões pertinentes que permitem o estabelecimento de alianças entre o público e quase todos os personagens. 

Um bom exemplo é o embate entre Haia e Giovana. Embora seja pertinente que a bruxa tente reaver sua filha que foi injustamente e cruelmente assassinada, transmigrando sua alma para o corpo de Melissa, também é igualmente pertinente que Giovana lute para ter sua filha de volta, uma vez que não é culpada pelas ações de Roman na adolescência. Assim, a narrativa traz pontos de vista diversos que contribuem para a complexidade da trama e convidam o telespectador a refletir sobre o que é o certo dentro do senso de justiça estabelecido na história. 

No que refere-se ao parâmetro dos estereótipos, o principal ponto a ser ressaltado é o fato de que a direção artística e narrativa tomada pela série afastam-se dos clichês internacionais relacionados ao país. O estereótipo brasileiro, com praias, clima tropical, samba, futebol, favelas e desigualdade social, para citar alguns elementos, é drasticamente confrontado pela ambientação de Desalma, com clima frio e inúmeras referências à população ucraniana que veio a se estabelecer no estado do Paraná [Figura 9]. Maria Ribeiro, que interpreta Giovana, comenta que quando foi ao festival de Berlim – onde o primeiro episódio da atração foi exibido – os principais comentários foram relacionados a quebra dessa expectativa do que se esperava de uma série brasileira, ainda mais tratando-se de uma produção de horror (CBN, 2020). Essas escolhas configuram-se como um traço de originalidade da atração, que investe em um gênero pouco explorado e desenvolvido no Brasil, ajudando a criar um novo entendimento sobre o que é o horror brasileiro no audiovisual.

Ao trazer diversos costumes, referências e expressões da cultura eslava, pouco difundidos no Brasil, a série fomenta a ampliação do horizonte do público. O diretor de arte Rafael Targat conta que foi realizada uma pesquisa extensa para coletar informações que serviram como base para diversos departamentos, como cenografia, figurino, produção de arte e caracterização (Portal  OPTV, 2020). Foram feitas visitas a museus, inclusive, para aprofundar-se em alguns aspectos, como seus comportamentos, a vida no campo, o trabalho e suas festividades. A festa de Ivana Kupala, por exemplo, foi central na trama da história, sendo o título do oitavo episódio da primeira temporada e o clímax narrativo da mesma. 

A experiência estética no âmbito da criação audiovisual

Mais que a construção narrativa do enredo e personagens, que transmitem uma mensagem audiovisual a partir dos pontos de vista apresentados na obra, analisa-se também o uso que a série faz dos recursos de storytelling para criar – ou não – oportunidades de interação entre o público e o texto, a partir de interpretações elaboradas em diferentes formas de linguagem ou da produção criativa de conteúdos. Dessa forma, tais parâmetros dizem respeito à experiência estética que se tem com um programa a partir das lacunas deixadas por seus desenvolvedores, gerando entendimentos, opiniões e novos produtos que são motivados pelo universo ficcional em questão (Borges; Sigiliano, 2021). 

No caso de Desalma, na composição imagética são trabalhados elementos como reflexos, espelhos e o extracampo para traduzir visualmente o fenômeno da possessão e também para criar uma nuance mais sugestiva de horror, ao invés de algo mais explícito e direto. O elemento da floresta, por exemplo, é constante ao longo das duas temporadas e remete ao medo do desconhecido, assim como faz referência às crenças da cultura e tradições ucranianas. Em diversas cenas, esse elemento é sobreposto a alguns personagens para indicar seu estado mental, como no reflexo das árvores que se mesclam com suas figuras a partir do parabrisa do carro [Figura 10]. Outro uso de reflexos importante são as inúmeras cenas com espelhos, que trabalham a dualidade nos corpos possuídos, em que a imagem objetiva traz uma figura e o reflexo outra, indicando respectivamente o corpo e a alma que coexistem naquele momento. 

Outro elemento elemento também relacionado à composição imagética e que representa um ponto de experimentação da linguagem audiovisual é o uso do extracampo, ou seja, daquilo que escapa ao que vemos em tela. Isso reforça o que foi dito por Carlos Manga Jr., responsável pela direção artística na produção, sobre a série trabalhar com o subliminar para gerar um estado de suspensão a partir do estabelecimento de uma atmosfera. “Os elementos sobrenaturais existem porque eles fazem parte da atmosfera mística, que é carregada de metafísica. O público sabe que acontece, mas não vê; ele apenas percebe” (Simmer, 2020). Isso foi utilizado diversas vezes ao longo dos episódios, como por exemplo na cena em que os amigos de Melissa tentam entrar em contato com sua alma a partir do jogo do copo, uma adaptação do tabuleiro Ouija que permite a comunicação entre vivos e mortos. Nós acompanhamos a ação dos personagens até o momento em que as luzes se apagam. Após isso, ouvimos o copo se quebrar, mas sem ver isso acontecer em tela. Ao final da cena, os jovens percebem que há uma presença na casa, mas apenas vemos seus rostos e reações, não a presença em si [Figura 11]. Esse tipo de construção é recorrente, com o público percebendo que algo está acontecendo, porém, sem que isso necessariamente se manifeste visualmente em tela, o que vai de encontro com a opção da produção de ser mais sugestiva, ao invés de explícita.

Apesar de trazer uma trama complexa, com muitos personagens e numa estrutura não-linear –  e talvez até mesmo por esse motivo – Desalma conta com muitas setas chamativas. Um uso frequente e evidente são os planos de estabelecimento usados no início de sequências em que houve mudança espacial ou temporal. As cenas em Kiev, por exemplo, sempre são introduzidas com um plano geral que mostra algum edifício com arquitetura ucraniana ou alguma paisagem da cidade que permita com que o telespectador se localize naquele ambiente. Não bastando esses planos gerais introdutórios, são utilizados letreiros com o nome do local em que estamos e o ano em que aquilo se passa. Tais informações poderiam ter sido reforçadas de maneira indireta ou menos evidente, a partir de dados já estabelecidos na trama. Poderíamos perceber que estamos na década de 1980 sem nenhum texto explicativo, por exemplo, apenas a partir dos tons de cores utilizados na fotografia ou pela caracterização dos personagens, como Haia ter os cabelos ainda escuros, ao invés de brancos, como na temporalidade presente da história. A produção, entretanto, julgou ser necessário trazer uma construção mais didática para facilitar o entendimento e a fruição dos episódios por parte de todos os telespectadores.

Outro uso de setas chamativas é a trilha sonora. Desalma é altamente estilizada no que diz respeito ao som, e os efeitos e músicas utilizados ajudam a criar as atmosferas de horror e mistério exigidas pelos movimentos do enredo. Porém, ela não apenas ajuda a reforçar esses apelos durante cenas que devem assustar e criar certa tensão no público, mas também ajuda a balizar a maneira como vamos compreender cada uma das cenas. Um caso nítido desse uso acontece durante a segunda temporada, no episódio Anninka, em que Haia reencontra Halyna após o ritual de transmigração de almas. Normalmente, as cenas que trazem um personagem possuído por outro recebem uma trilha sonora que se aproxima mais do terror e do suspense, para intensificar esse aspecto sombrio que não fica evidente na imagem. Porém, neste reencontro, a trilha usada foi de uma música emocionante, comovente. Isso pois nesse momento não estávamos presenciando um fantasma que assusta algum personagem, mas o encontro entre mãe e filha, décadas após o assassinato de Halyna. Assim, a própria obra conduz a maneira como a audiência vai perceber cada cena, mesmo que tenha que ir contra algumas das construções já estabelecidas pela própria série, como neste caso.

A obra não faz uso de efeitos especiais narrativos que reconfiguram elementos da trama de maneira a causar uma inflexão no entendimento sobre seus personagens ou eventos. Havia espaço para tal, caso as transmigrações de alma fossem explicadas ao telespectador em um momento posterior a suas ocorrências e desdobramentos na série. Caso na segunda temporada, por exemplo, descobríssemos que Halyna ocupava o corpo de Melissa apenas nos últimos episódios, todas as suas ações e seu comportamento anterior teria um novo sentido, devido a terem sido causados por uma pessoa diferente do que esperávamos. Porém, a autora optou por um caminho mais didático em que muitas vezes aprendemos sobre algum fato para depois ver como ele se deu. 

Mesmo não trazendo esses efeitos especiais para a narrativa, a trama faz uso de recursos de storytelling para dar conta de costurar as informações necessárias num ritmo adequado, como no caso de flashbacks e lembranças de personagens. Esses momentos, que são comuns à maioria das produções contemporâneas, acontecem com grande recorrência em Desalma, visto que a narrativa acompanha três linhas temporais que se influenciam a partir das revelações que são feitas em cada uma delas. A partir dessas memórias que são constantemente evocadas, podemos entender como os acontecimentos e segredos do passado ajudaram a moldar o presente e futuro dos personagens, e isso vai se dando de maneira gradual, buscando manter ou construir momentos de suspense.

Também são trazidas referências intertextuais que se relacionam a obras ucranianas, como poemas e canções, alguns reproduzidos na íntegra. Além disso, o cinema da cidade traz cartazes e letreiros com o nome de diferentes filmes, tanto da década de 1980 quanto atuais, incluindo It, a Coisa, Os Garotos Perdidos e Um lobisomem americano em Londres. Este último, inclusive, foi citado em uma fala do personagem Alexei, que relata ter sido a última obra cinematográfica que viu e que havia ficado em sua mente durante os anos de cativeiro. As obras escolhidas, em sua maioria, flertam com o gênero do horror e algumas delas trazem, inclusive, paralelos entre suas tramas e o enredo de alguns dos personagens.

A próxima etapa da análise, que se concentra na circulação a partir das redes sociais e paratextos, avança a discussão a respeito da categorização da série quanto ao gênero e como isso afeta a percepção do público. Com uma produção volumosa de publicações para internet, o Globoplay parece reforçar as características de horror presentes na obra, enquanto a equipe técnica e o elenco têm uma certa hesitação em rotular Desalma de tal maneira. 

Referências

BORGES, G. et al. A qualidade e a competência midiática na ficção seriada contemporânea no Brasil e em Portugal. Coimbra: Grácio Editor, 2022. 

BORGES, G.; SIGILIANO, D. Qualidade Audiovisual e Competência Midiática: proposta teórico- metodológica de análise de séries ficcionais. Encontro Anual da Compós, XXX, São Paulo, Anais. 2021. Disponível em: <https://bit.ly/3Bb8OsL>. Acesso em: 18 dez. 2023.

BRÊTAS, E. O futuro das plataformas de streaming e a experiência do GloboPlay. Conecta +, 2019. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fhz09mZTVk4> . Acesso em: 12 mar. 2023.

CBN. ‘O terror me relaxa’, diz autora de ‘Desalma’. Estúdio CBN, 2020.  Disponível em: <https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/320583/o-terror-me-relaxa-diz-autora-de-desalma.htm>. Acesso em: 11 mar. 2024.

ESTIGARRIBIA, J. A estratégia do Globoplay para brigar com Netflix e Disney. Exame, 2019. Disponível em: <https://bit.ly/3w02sPA>  . Acesso em: 21 mar. 2024.

NADER, V. Desalma leva o sobrenatural ao Globoplay. Correio Braziliense. 2020. Disponível em: <https://blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/estreia-desalma-no-globoplay/>. Acesso em: 11 mar. 2024.

PORTAL O PLANETA TV. Desalma: a construção do sobrenatural e do misticismo da obra. 2020. Disponível em: <https://oplanetatv.clickgratis.com.br/noticias/bastidores/desalma-a-construcao-do-sobrenatural-e-do-misticismo-da-obra.html>. Acesso em: 29 fev. 2024.

SIMMER, G. Desalma, série do Globoplay, aposta no terror para virar sucesso. Metrópoles, 2020. Disponível em: <https://www.metropoles.com/entretenimento/televisao/desalma-serie-de-terror-do-globoplay-aposta-no-terror-para-virar-sucesso>. Acesso em: 01 mar. 2024. 

SOUZA, C. Segunda temporada de Desalma terá mais ação e terror, diz criadora. Jovem Nerd, 2022. Disponível em: <https://jovemnerd.com.br/noticias/series-e-tv/desalma-segunda-temporada-entrevista-elenco-equipe>. Acesso em: 11 mar. 2024.

TODOROV, T. Introdução à literatura fantástica. 4. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2014. Disponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7747362/mod_resource/content/1/Todorov%20Introducao%20a%20literatura%20fantastica.pdf>. Acesso em: 05 jul. 2023.

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