Por Júlia Garcia e Hsu Ya Ya
O mangá e animê Shingeki no Kyojin, também conhecido, em inglês, por Attack on Titan, é uma obra criada pelo mangaká japonês Hajime Isayama, que a publicou entre 2009 e 2021 na revista Bessatsu Shōnen Magazine. O animê foi lançado em 2013 e teve seu encerramento em 2023 após quatro temporadas, que adaptaram toda a história. No Brasil, o mangá de Shingeki no Kyojin foi publicado pela Panini sob o título Ataque dos Titãs, e o animê exibido pelos serviços de streaming Crunchyroll e Funimation, os quais, mais tarde, se fundiriam sob a marca Crunchyroll.
A história de Shingeki no Kyojin baseia-se em um mundo distópico, onde a humanidade se vê ameaçada por titãs, monstros humanoides que se alimentam de pessoas. Para se defender, os humanos constroem muralhas gigantescas que os protegem da invasão dos titãs, mas que, ao mesmo tempo, também os confinam em um território muito pequeno. O equilíbrio é perturbado quando dois titãs especiais, Blindado e Colossal, rompem as muralhas e ameaçam os habitantes da ilha de Paradis, incluindo os amigos Eren Jaeger, Armin Arlert e Mikasa Ackerman, que constituem, a princípio, o núcleo de protagonistas. A trama mescla temáticas sérias a um universo ficcional fantasioso, envolvendo questões como militarismo, genocídio e eugenia.
Embora já tenha sido finalizada, os fãs seguem se mobilizando para analisar e debater a obra, além de investir na produção criativa baseada no cânone. Exemplos são a fanfic AoT no Requiem – feita em formato de mangá e, portanto, considerada um dōjinshi, termo em japonês para publicações amadoras ou independentes, sejam histórias originais ou não – e a fan animation Attack on Titan: Requiem, que anima um capítulo dessa mesma fanfic.
Os fãs brasileiros também se organizam para compartilhar informações, celebrar a obra e discutir o universo ficcional. É o caso do perfil no Instagram @snkaotbrasil (Shingeki no Kyojin | Attack on Titan Brasil), que traz postagens com memes, notícias e explicações sobre o mangá e animê. A partir da coleta de publicações feitas entre 1 de dezembro de 2025 e 1 de maio de 2026, que constituiu um corpus de 58 postagens, e da observação dos destaques, da bio e das publicações fixadas, o perfil foi analisado segundo as três dimensões da literacia do fã: Universo de Referência, Arquitetura Informacional e Pedagogia do Pop (Sigiliano; Borges, 2024; Sigiliano; Garcia; Furtuoso, 2025). O objetivo é investigar de que forma o fã ou os fãs responsáveis pelo perfil mobilizam competências multissensoriais, relacionadas à literacia midiática, ao analisar, repercutir e criar conteúdo a partir do cânone.
Universo de Referência
A dimensão Universo de Referência diz respeito ao entendimento e ao domínio do fã sobre o cânone, considerando aspectos como a estética, regras e códigos, metatexto e lacunas. Em relação à estética, a foto de perfil já faz referência direta à obra, já que apresenta uma imagem do Titã Colossal em um fundo estilizado com linhas em preto e vermelho. As postagens do perfil seguem templates nessas mesmas cores, sendo o vermelho substituído, por vezes, pelo laranja. Apesar de não haver cores específicas que remetam ao cânone, o uso de tons mais escuros e fechados condiz com o caráter sombrio da narrativa, e o vermelho pode ser relacionado tanto ao corpo do Titã Colossal, que estampa a foto de perfil, quanto às lutas sangrentas de Shingeki no Kyojin.

A bio do perfil também reforça a mitologia do universo ficcional ao apresentar a frase “Shinzou wo Sasageyo”, que pode ser traduzida como “ofereçam seus corações”. Além de dar nome à música de abertura da segunda temporada do animê, essa frase é um ícone da Tropa de Exploração, divisão do Exército de Paradis da qual fazem parte os protagonistas, e é dita frequentemente pelo comandante Erwin Smith para inspirar os soldados.

Além disso, o cânone é referenciado a todo momento nas postagens, que trazem recapitulações de momentos marcantes da história e sistematizam informações importantes para a compreensão do universo ficcional. Exemplos são os carrosséis sobre as revelações que mudaram a história de Shingeki no Kyojin e sobre o Titã Fundador, explicando seus poderes, os personagens que o portaram e suas características. Para a produção desse tipo de postagem, é necessário não somente um conhecimento aprofundado da obra, mas também a capacidade de curadoria e organização de informações.

Embora não explore, com profundidade, lacunas no universo de referência, o perfil recorre ao metatexto ao compartilhar notícias, entrevistas dadas pelo criador Hajime Isayama e traduções de músicas da trilha sonora do animê. No caso das músicas, há teorias que circulam no fandom envolvendo as letras, que, para os fãs, fariam referência aos acontecimentos do animê. É o caso da teoria A Lamparina e a Maçã, que embasou parte da história do dōjinshi AoT no Requiem. Nesse sentido, a tradução das letras para o português oferece subsídios para que os fãs brasileiros formulem suas próprias interpretações. No corpus analisado foi possível observar, ainda, a publicação de memes baseados na obra, posts comemorativos – como no Natal, Ano Novo ou em datas que remetem a eventos de Shingeki no Kyojin – e trechos do animê, seja em imagem, com a transcrição de falas, ou em vídeo.
Arquitetura Informacional
A dimensão Arquitetura Informacional refere-se à habilidade do fã em utilizar os recursos da plataforma adotada para a criação e divulgação dos seus conteúdos. No caso do Instagram, envolve o conteúdo visual, as ferramentas de engajamento, o tempo real e a templabilidade do conteúdo, conforme o protocolo teórico-metodológico estabelecido no Observatório da Qualidade no Audiovisual e aplicado por Pires e Garcia (2025).
Como o corpus de análise não abrangeu a coleta de stories, não é possível discutir, de forma detalhada, se, e como, o perfil @snkaotbrasil utiliza os recursos de tempo real para explorar temas factuais relacionados ao universo de referência. No entanto, pelas publicações abrangerem notícias e datas comemorativas, inclusive relacionadas ao universo ficcional, pode-se observar que a factualidade está presente nas postagens do perfil.
Em relação ao conteúdo visual, o perfil explora, em suas publicações, os diferentes recursos do Instagram. No corpus analisado, foi possível observar reels, carrosséis com vídeos e imagens, destaques e posts fixados. É válido ressaltar que os destaques organizam as publicações pelo formato e pelo conteúdo, com categorias como memes, datas, notícias, traduções de músicas, cenas, dentre outros. Essas categorias vão ao encontro do que foi observado nas postagens coletadas, que abrangeram memes, informações textuais e metatextuais, notícias, trechos do animê, colabs e um edit.

Nas legendas, são utilizados emojis e hashtags, com chamados para ação, como “Ative as notificações para não perder nenhuma novidade sobre Shingeki no Kyojin” e “Viu esse post no explorar? Então siga @snkaotbrasil para mais conteúdos como esse!”. Além disso, o perfil também traz postagens em colab com outros fãs e páginas, o que pode incentivar a participação e aumentar o alcance das publicações.
Por fim, a templabilidade do conteúdo pode ser observada na identidade visual do perfil. Como pontuado, as publicações analisadas seguem primordialmente as cores preto e vermelho, com alguns tons de laranja utilizados em certas postagens. As fontes tipográficas também são padronizadas, o que confere consistência à estética proposta. Em publicações de determinadas categorias, como notícias, há um template específico, que já organiza o conteúdo ao explicitar o tipo de postagem.

Embora não façam parte do corpus analisado, é possível observar que posts mais recentes trazem um novo template para as categorias. Entretanto, é importante destacar que a disposição dos elementos, as fontes e as cores utilizadas permanecem muito semelhantes ao modelo anterior, o que remete a uma atualização do template e não a uma ruptura da identidade visual.
Pedagogia do Pop
A dimensão Pedagogia do Pop busca investigar se, e de que forma, o fã explora camadas interpretativas que extrapolam o cânone. Isso inclui questões relacionadas à identificação, temáticas, repertório midiático e controvérsia. Pode-se argumentar que o perfil, ao criar memes a partir da ressignificação de imagens e trechos do animê, trabalha com aspectos da identificação e, em alguma medida, da controvérsia, já que associa elementos do universo ficcional, reinterpretados em um novo contexto, a experiências reais com as quais outras pessoas podem se relacionar.

Embora o repertório midiático não tenha sido um elemento de destaque no corpus analisado, uma vez que não foram observados diálogos relevantes com outras obras da cultura pop, a temática, que diz respeito à correlação entre temas do universo ficcional e questões socioculturais e políticas da realidade, está presente de forma aprofundada em alguns posts. Na publicação fixada intitulada “Explicando as cenas finais de Attack on Titan”, o perfil discute a mensagem que o autor Hajime Isayama quis passar com a história, interpretando o final de Shingeki no Kyojin como uma denúncia ao ciclo de ódio alimentado pelas guerras e conflitos da própria humanidade. Para sustentar a interpretação, o perfil traz trechos do animê, falas dos personagens e a letra da música que toca no encerramento.

Já o post “A mitologia nórdica em Attack on Titan” traz paralelos entre a obra de Isayama e a mitologia nórdica, que inspira parte da construção do universo ficcional. Desse modo, ao identificar e explicar essas referências, o perfil correlaciona o cânone a aspectos culturais da realidade, contribuindo não apenas para explicitar camadas interpretativas menos evidentes de Shingeki no Kyojin, mas também para a difusão de informações sobre outros países e culturas.

Portanto, partir da análise do perfil @snkaotbrasil (Shingeki no Kyojin | Attack on Titan Brasil), é possível observar como fãs brasileiros de Shingeki no Kyojin mobilizam diferentes competências e habilidades ao debater, ressignificar e repercutir a obra, mesmo anos após a conclusão da história. O perfil traz memes, notícias e informações sobre o cânone em publicações que exploram os múltiplos recursos do Instagram, como reels, carrosséis e destaques, o que demonstra não apenas o conhecimento sobre o Universo de Referência, mas também sobre a Arquitetura Informacional da plataforma. Além disso, a Pedagogia do Pop pode ser observada em publicações que debatem temáticas relevantes e oportunas exploradas pelo mangá e animê, como guerra e ciclos de ódio, e que identificam paralelos entre elementos culturais da realidade e o universo ficcional. Desse modo, as práticas dos fãs podem contribuir, em certa medida, para o exercício de habilidades críticas e criativas relacionadas à literacia midiática.
Referências
PIRES, A. L. A.; GARCIA, J. Cultura de fãs e literacia midiática: a operação da literacia dos fãs de Bridgerton no Instagram. In: ANDRADE, A. G.; KNEIPP, V.; OLIVEIRA, V. B. (org.). Do 4:3 ao widescreen. Ria Editorial, 2025. p. 126-146.
SIGILIANO, D.; BORGES, G. Literacia dos fãs da série brasileira As Five na rede social X. Journal of Digital Media & Interaction, v. 7, n. 17, p. 77-92, 2024. DOI: https://doi.org/10.34624/JDMI.V7I17.38017
SIGILIANO, D.; GARCIA, J.; FURTUOSO, G. Literacia do fã em animês: a ressignificação do cânone de Shingeki no Kyojin no YouTube. In: 34o Encontro Anual da Compós, 34, 2025, Curitiba. Anais […], Curitiba: UFPR, 2025. p. 1-26.









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