Por Danielle Cassita e Samara Angela Teixeira
Revisão: Júlia Garcia e Hsu Ya Ya
Reconhecido como um dos maiores nomes da cultura pop global, o grupo de K-Pop BTS tem uma base de fãs sólida e organizada presente nas mais diversas plataformas, não apenas consumindo, mas também produzindo conteúdos relacionados à banda (Santana, Santos, 2019). Ao observar as mudanças relativas ao surgimento de novas mídias sociais no contexto digital, Bennett (2014) aponta que a necessidade de se manter em dia com as informações do objeto de afeição leva os fãs a se inserirem em plataformas nas quais encontrem fontes oficiais, o ídolo ou só apenas a presença de outros fãs. Por isso, a grande participação das Armys, nome atribuído às fãs do grupo, nas mais diversas plataformas de mídias sociais é massiva, compartilhando nesses espaços diferentes tipos de conteúdos de produção própria com base no universo de referência, característica atribuída aos fãs e que os diferencia do grande público consumidor (Fechine; Lima, 2019). As fanarts, produções artísticas em suas diferentes formas (Amaral; Souza; Monteiro, 2015), são um exemplo desses conteúdos.
Neste contexto, a presente análise foi conduzida com base em conteúdos audiovisuais selecionados publicados na plataforma TikTok. Com uma base de mais de 1,99 bilhão de usuários ativos (Duarte, 2026), esta mídia social foi lançada originalmente na China em 2016 pela empresa ByteDance e, na época, era chamada de “Douyin”, mas foi somente no ano seguinte que foi lançada para o restante do mundo. Segundo Sigiliano (2025), é possível considerar que as plataformas caracterizadas principalmente pela publicação de vídeos curtos – como é o caso do TikTok, mas também da seção de Reels, no Instagram – transformaram-se em uma espécie de segunda tela condensada. A colocação se deve ao formato das publicações: os vídeos publicados ali têm duração curta, e alcançam os usuários por meio da distribuição dos algoritmos que dão preferência a interações instantâneas.
A fim de se explorar as habilidades críticas e criativas dos fãs que utilizam a plataforma, tem-se como amostra 20 conteúdos selecionados do perfil da ilustradora @morgane.arts, datados de 1 de dezembro de 2025 até 1 de maio do ano de 2026. As publicações consistem, de forma geral, em vídeos que exploram aspectos variados do seu trabalho artístico – grande parte dos conteúdos publicados mostram o processo de criação desde o rascunho até a finalização da pintura. Em outros, a artista incorpora um aspecto de surpresa ao seu trabalho: quando se trata de pinturas digitais, ela cobre a ilustração com uma camada opaca e depois a apaga de pouco a pouco no software que usou para, na sequência, revelar o resultado final. De forma geral, o principal tema trabalhado pela artista é o grupo BTS, cujos membros são representados em fanarts que mantêm traços realistas e, ao mesmo tempo, incorporam elementos de outras referências culturais. Tal combinação é exemplificada nas fanarts em que a autora cria ilustrações que mostram os membros do grupo como se fossem personagens de determinados animes, as animações japonesas, mas sem abrir mão dos traços individuais mantidos no estilo de pintura realista, que permite a identificação deles.

Dessa forma, a presente análise tem como foco o estudo da literacia do fã de BTS no TikTok a partir do perfil de Morgane. O protocolo metodológico busca verificar, por meio de três dimensões, as competências mobilizadas pelos fãs nos conteúdos gerados por eles (Sigiliano; Borges, 2024; Sigiliano; Garcia; Furtuoso, 2025; Sigiliano; Lima; Borges, 2025). Assim, o Universo de Referência, primeira dimensão a ser observada, trata sobre o domínio do fã em relação ao cânone a partir das seguintes habilidades: estética, regras e códigos, metatexto e lacunas. A segunda dimensão, Arquitetura Informacional, observa o nível de conhecimento que o fã dispõe sobre a plataforma utilizada e seus mecanismos, sendo, especificamente no TikTok, as quatro habilidades: conteúdo, tema, imagem e som e elementos gráficos (Sigiliano; Lima; Borges, 2025). No caso do TikTok, além de ser um espaço de compartilhamento, há também o viés de produção e edição desses conteúdos. Por fim, tem-se como última dimensão a Pedagogia do Pop, que busca elencar aquilo que vai para além do universo de referência. Nesse momento, é observado se e como ocorre a produção de novos sentidos e camadas interpretativas em decorrência desse processo, sendo as habilidades: identificação, temática, repertório midiático e controvérsia.
Universo de Referência
De acordo com o protocolo de análise, a dimensão do Universo de Referência avalia como os fãs dominam a obra original a partir de diferentes habilidades. A primeira delas é a estética, que descreve a forma como o fã se envolve com os aspectos visuais da obra original. No caso, as publicações de Morgane mostram que a artista tem forte preferência pela pintura em aquarela, independentemente de produzir no meio tradicional ou digital, e que opta por utilizar cores de tons fortes. Já os personagens têm design que resulta da combinação dos traços realistas da figura humana às sugestões de obras fictícias deixadas por seguidores – tal mistura pode ser observada, por exemplo, na pintura que a autora produziu de Jungkook, o principal vocalista do grupo, com características de Tengen Uzui, do mangá e animê Kimetsu no Yaiba. Para a adaptação, ela tomou a liberdade de alterar aspectos como a cor do cabelo para corresponder à do personagem, bem como a vestimenta. A fusão entre o universo de referência constituído pelos membros do BTS e aquele de outras obras, como os mangás e animês sugeridos pelos seguidores e depois incorporados às ilustrações, demonstram que a autora tem domínio da habilidade relacionada às regras e códigos e que cria conexões próprias com o universo original ao manter os membros do grupo como os objetos centrais das ilustrações ao mesmo tempo em que adiciona elementos de outras fontes.
Na sequência, o protocolo determina a análise de como é a habilidade do fã com o metatexto, ou seja, a forma como as criações trazem elementos além daqueles do universo de referência. No caso das produções de Morgane, fica evidente que o metatexto aparece na própria produção das fanarts, que fazem referências a conteúdos relacionados aos membros da banda – como fotos postadas por eles nas redes sociais e que depois são utilizadas como inspiração para as ilustrações. Há, ainda, o uso de fontes secundárias, que neste contexto podem ser compreendidas como as sugestões enviadas pelos seguidores do perfil e que são usadas pela autora para orientar o processo criativo. Portanto, como Morgane explora novas possibilidades na temática da qual é fã por meio da sua arte, é possível considerar que ela demonstra domínio ainda das habilidades necessárias para preencher eventuais lacunas do objeto com o qual trabalha por meio da associação entre os membros do grupo e os personagens. Assim, a conexão estabelecida entre os artistas que ilustra e os personagens escolhidos para a fanart sugere o preenchimento de um espaço identificado por Morgane, que passa a ser ocupado por sua arte.
Arquitetura Informacional
Na seguinte dimensão, ao olhar para a relação dos vídeos do perfil com o conteúdo, vemos que Morgane tem 80% da amostra direcionada ao BTS a partir da figura dos membros, legendas e músicas, mesmo quando relacionada a outros objetos da cultura pop. Por ser um perfil focado em suas artes, todos os vídeos seguem esse foco temático. Partindo desde o início do processo, ela mostra suas ilustrações em aquarela, que usualmente são a fusão entre os membros do BTS com produções asiáticas, com exceção ao universo de Stranger Things, do qual ela também se mostra fã e que aparece na amostra sem qualquer relação com o BTS.

A habilidade imagem e som também não é o foco do perfil, observado que seu conteúdo se dá em mostrar o processo manual da construção de suas artes, o que não requer grandes manipulações. Morgane apresenta em seus vídeos uma edição simples baseada em cortes e alguns zooms em partes específicas do desenho. A etiqueta de edição facilitada do CapCut também aparece em alguns vídeos da amostra. Apesar disso, o conteúdo costuma ser cativante, utilizando como estratégia cortes ritmados com as músicas escolhidas, que seguem uma trilha majoritariamente de áudios virais de dentro da comunidade do universo ficcional relacionado ao BTS, como a junção de falas de personagens em remix com músicas consolidadas, para além de músicas em alta e a discografia do BTS.
Por fim, na última habilidade, elementos gráficos, observa-se novamente o caráter mais simples desses conteúdos. Em apenas 10% da amostra há sobreposição de texto nos vídeos, sendo esses relacionados a compilações de trabalhos e comissões, utilizados então como uma forma de contextualizar esses vídeos que fogem do usual. As legendas, em seu perfil, servem como uma ferramenta de contextualização para as pessoas de fora do universo de produções asiáticas, trazendo sempre o nome do membro e do personagem que estava sendo associado a ele. Em complemento, as hashtags abarcam os dois universos do conteúdo, para além do nicho do qual ela faz parte. Então, as mais recorrentes são: #BTS, #drawing #art e #jujutsukaisen. É percebido como ela, apesar de ter uma temática de vídeos muito bem definida, busca, a partir das hashtags, fazer com que esse conteúdo chegue também à comunidade maior de desenho da plataforma, além de permitir a localização dos conteúdos, personagens e pessoas representadas.

É notável que, por se basear em artes majoritariamente físicas, o tipo de relação que o conteúdo de Morgane estabelece com o TikTok se dá de maneira diferente. Apesar disso, e de não utilizar toda a potencialidade dos recursos nativos da plataforma, a qualidade de transposição do físico para o digital demonstra que o caráter mais simples dos vídeos é uma escolha pessoal da artista para dar protagonismo à arte em si.
Pedagogia do Pop
Última dimensão do protocolo, a habilidade identificação, pelo tipo de conteúdo de Morgane, só foi possível ser observada partindo do vídeo de compilação de todas as artes feitas por ela, baseadas no universo do BTS e de Jujutsu Kaisen, em que essa fusão compõe mais de 40% da amostra. A partir desses dados, notamos que os dois universos são muito importantes para a artista, havendo uma sessão em um quarto apenas direcionada para essas produções, com action figures decorativos desses personagens. Assim, apesar de o tipo de conteúdo não permitir uma análise mais aprofundada dessa habilidade, vemos como os dois universos cercam a vida da artista e a permitiram, por meio da admiração, desenvolver-se nessa área de maneira autodidata, como ela reforça em sua biografia na plataforma.
Já em temática, levantando questões sobre sua ética, ao postar mais informações sobre suas artes comissionadas, Morgane afirma que não aceita pedidos vulgares e que possam desrespeitar de alguma forma os ídolos retratados. Há também o cuidado por sua parte de sempre colocar avisos de gatilho em suas legendas, principalmente relacionados a sangue falso em seus desenhos. Por fim, ela reforça que só aceita o pagamento de comissões após o desenho ser finalizado, pois para ela é mais importante a satisfação do consumidor do que o retorno financeiro, mostrando o desejo de desenvolver uma comunidade respeitosa e alinhada a suas convicções, para além de apreciarem verdadeiramente seu trabalho.

Entre as habilidades descritas na Pedagogia do Pop, está também a capacidade de os fãs identificarem similaridades e intertextualidades entre o texto canônico e demais conteúdos da cultura pop, competência que pode ser rapidamente identificada no trabalho de Morgane. Ao criar ilustrações autorais dos membros do grupo BTS com elementos pertencentes a outras obras, como é o caso de Shingeki no Kyojin e Kimetsu no Yaiba, a autora demonstra a aptidão de encontrar semelhanças entre textos que, embora pareçam diferentes à primeira vista, podem ser mesclados, usando tal identificação para elaborar as ilustrações com os crossovers. Esta intersecção constitui também a controvérsia, habilidade descrita no protocolo a fim de explorar como os fãs ressignificam o universo de referência. No caso, as conexões interpretativas ausentes no trabalho original podem ser encontradas na articulação entre os traços realistas dos membros do grupo e a incorporação de elementos encontrados nos mangás e animês. Nessas ilustrações, os fãs devem recorrer a um repertório que possibilite a identificação dessas referências, como o conhecimento dos membros do grupo e das obras usadas como inspiração. Como consequência, o perfil @Morgane.arts promove uma experiência que é intertextual.
Portanto, a partir da análise, foi observado que o perfil @Morgane.arts no TikTok, ao produzir fanarts e compartilhá-las na plataforma, apresenta em operação determinadas habilidades críticas e criativas da literacia do fã. Morgane, com suas criações, demonstra um conhecimento aprofundado não apenas do universo de referência do BTS, trazendo traços fidedignos e fontes diversas, mas também de outras produções culturais por meio do intercruzamento com animês, mangás e da representação de séries como Stranger Things. Por meio dos vídeos que mostram seu processo de criação, manifesta suas habilidades técnicas não apenas de ilustração, mas também de captação, edição e difusão desses conteúdos a partir da lógica da plataforma. Por fim, a fã-artista cria universos ficcionais por meio de lacunas e novas interpretações do universo do grupo, para além de demonstrar aspectos de ética e honestidade com sua comunidade de apoiadores.
Referências:
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BENNETT, L. Tracing textual poachers: reflections on the development of fan studies and digital fandom. The Journal of Fandom Studies, v. 2, n. 1, p. 5-20, abr. 2014. DOI: https://doi.org/10.1386/jfs.2.1.5_1.
DUARTE, F.. TikTok User Age, Gender, & Demographics (2026). Exploding Topics. 2026. Disponível em: https://explodingtopics.com/blog/tiktok-demographics. Acesso em: 1 jun. 2026.
FECHINE, Y.; LIMA, C. A. R. O trabalho do fã no texto transmídia: uma abordagem a partir da televisão. MATRIZes, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 113-130, maio/ago. 2019. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v13120113-130.
SANTANA, A. G.; SANTOS, M. S. T. Práticas culturais urbanas: análise do comportamento das Armys – fãs do grupo de K-pop BTS. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 42., 2019, Belém. Anais […]São Paulo: Intercom, 2019.
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SIGILIANO, D.; GARCIA, J.; FURTUOSO, G. Literacia do fã em animês: a ressignificação do cânone de Shingeki no Kyojin no YouTube. In: 34º Encontro Anual da Compós, 34, 2025, Curitiba. Anais […], Curitiba: UFPR, 2025. p. 1-26.
SIGILIANO, D.; LIMA, C. A. R.; BORGES, G. Telenovelas brasileñas, literacidad de fandom y negociación en TikTok: un análisis del remake de Vale Tudo. Razón y Palabra, v. 29, n. 124, p. 55-68, 2025.









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