Por Clara Gomes
Revisão: Júlia Garcia
Monster (怪物 ou Kaibutsu, em japonês) é um filme nipônico dirigido por Hirokazu Kore-eda e com roteiro de Yuji Sakamoto. Lançado em 2023, o longa conta a história da amizade entre Minato Mugino e Yori Hoshikawa, dois alunos do ensino fundamental da mesma escola.
O filme se inicia com a preocupação da mãe de Minato, Saori Mugino, em relação ao comportamento estranho demonstrado por seu filho. Saori começa a acreditar que essa mudança de atitude é causada pelo professor Hori e o acusa de abusar de Minato. Hori afirma que, na realidade, Minato está praticando bullying contra outro aluno, Hoshikawa. Enquanto o conflito se desenrola na vida da mãe e do professor, Minato desaparece em uma noite de chuva intensa. Então, Hori e Saori se unem para procurá-lo.
Monster é dividido em três atos, correspondentes aos pontos de vista de Saori, Hori e Minato. É por meio desses personagens que conhecemos mais sobre Hoshikawa, um menino doce que vive em um lar abusivo devido ao pai alcoólatra e homofóbico, que o chama de monstro por causa de sua orientação sexual. Hoshikawa também sofre bullying na escola pelo mesmo motivo, e no início, com medo de sofrer o mesmo nas mãos dos outros garotos, Minato o trata mal. Contudo, os dois começam a se aproximar cada vez mais. Sob seu ponto de vista, é mostrada a dificuldade de Minato em aceitar sua sexualidade e os sentimentos por Hoshikawa. Mas, após uma conversa com a diretora da escola, ele decide optar por sua felicidade e, então, em um dia chuvoso, foge com Hoshikawa para seu esconderijo. Depois da chuva, os dois seguem juntos para um lugar onde podem ser livres.

Selecionado para a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2023 e vencedor dos prêmios de Melhor Roteiro e Queer Palm, premiação voltada para filmes de temática queer dentro de Cannes, Monster foi um sucesso de crítica. Sua abordagem em relação ao relacionamento amoroso entre os dois meninos, bem como aos conflitos de Minato e Yori relacionados à própria orientação sexual, é apontada como um dos grandes destaques do longa. O nome do filme faz referência a uma brincadeira semelhante ao jogo “Quem sou eu?”, mas voltada para adivinhar monstros criados pelos meninos. Também alude ao fato de ambos se sentirem monstros por causa de sua sexualidade, principalmente Hoshikawa, que cresceu ouvindo o pai dizer que ele tinha cérebro de porco em vez de humano, afirmação que também passa a incomodar Minato. Após conviver com Hoshikawa, ele começa a acreditar que também pode ter cérebro de porco.
Nesse contexto, esta análise se propõe a investigar a literacia dos fãs do filme na plataforma Tik a partir das três dimensões da literacia do fã: Universo de Referência, Arquitetura Informacional e Pedagogia do Pop (Sigiliano; Borges, 2024; Sigiliano; Garcia; Furtuoso, 2025; Sigiliano; Lima; Borges, 2025).
Diferentemente do Instagram e do X, o TikTok prioriza métricas de engajamento, como comentários, tempo de visualização e pesquisas dos usuários. Isso faz com que o feed seja mais personalizado e facilite a descoberta de conteúdos alinhados aos interesses de cada pessoa. Além disso, seu algoritmo de recomendação favorece a circulação de uma ampla variedade de vídeos, influenciada por fatores como formato, duração e contexto de publickToação (Sigiliano; Lima; Borges, 2025).
Para a seleção dos vídeos analisados, foi criada uma nova conta na plataforma TikTok para tentar minimizar os vieses da conta pessoal nos resultados. A pesquisa foi realizada a partir das hashtags “#Monster2023” e “#MonsterFilme”, sendo esta última utilizada com a intenção de obter mais resultados em língua portuguesa. Foram selecionados os dez primeiros vídeos exibidos para cada hashtag, totalizando 20 vídeos, utilizando-se o filtro de “Relevância” para definir a ordem dos resultados.
No TikTok, a categoria “Relevância” apresenta resultados baseados tanto em métricas de engajamento quanto em critérios definidos pelo algoritmo da plataforma. Por esse motivo, foram selecionados vídeos publicados em diferentes períodos. O mais antigo foi publicado em 2 de dezembro de 2023, enquanto o mais recente data de 1º de março de 2026. A presença de publicações sobre o filme anos após seu lançamento sugere a permanência do interesse do público pela obra e sua circulação contínua na plataforma.
Universo de Referência
A dimensão Universo de Referência analisa como o fã se apropria de aspectos da obra e os utiliza em seu conteúdo a partir de quatro habilidades: estética, regras e códigos, metatexto e lacunas. A estética avalia como os fãs exploram os aspectos visuais da obra, como fotografia, figurino e direção de arte. Já o parâmetro regras e códigos analisa como o fã domina, referencia e reforça a mitologia da obra. O metatexto, por sua vez, examina o uso de elementos que vão além do universo de referência, como outras obras dos autores e fontes secundárias. As lacunas, por fim, referem-se à forma como o fã identifica e explora aspectos não explicitados pela obra.
Dos 20 vídeos analisados, 13 são edits, vídeos curtos produzidos por fãs e compostos por fragmentos de cenas de uma obra audiovisual, editados ao som de uma música. Essas produções se apoiam na estética do filme, utilizando cenas originais e preservando seus aspectos visuais. Muitos edits empregam efeitos ou versões aceleradas dos frames para se adaptar ao estilo do TikTok, mas, em alguns casos, apresentam uma edição mais cinematográfica, que valoriza a fotografia da obra.
Um exemplo é o vídeo publicado pelo perfil @_sceneee em 30 de abril de 2024, que conta com 458,8 mil visualizações. Nele, são utilizadas cenas de Monster, preservando a fotografia original e até mesmo o formato horizontal, o que torna o edit mais cinematográfico. Contudo, o vídeo reorganiza essas cenas de modo a adaptá-las à música “All I Need”, da banda britânica Radiohead, que não faz parte da trilha sonora original do filme.
@_sceneee Monster (2023) | dir. Hirokazu Koreeda #monster #monster2023 #movie #filmclips #cinema #cinematography #hirokazukoreeda #letterboxd #film
Quando se trata de regras e códigos, o aspecto mais recorrente nos vídeos analisados é a referência ao relacionamento entre Minato e Hoshikawa, com menções diretas ao preconceito que Hoshikawa sofria por parte do pai e à forma como Minato o ajudou a lidar com essa situação. Nesse aspecto, é interessante notar como a temática LGBTQIA+ foi abraçada pelos fãs e contribuiu para que Monster se tornasse um filme ainda mais popular. Embora a luta contra a homofobia e o relacionamento entre Minato e Hoshikawa sejam elementos centrais da narrativa, o filme não foi divulgado como uma obra queer, uma vez que o relacionamento entre os dois funciona como uma espécie de plot twist dentro da trama.
Dentre os vídeos analisados, aspectos de metatexto e lacunas aparecem em uma mesma publicação. Postado em 13 de janeiro de 2024 pelo usuário @lvfelixies, o vídeo destaca uma cena em que Minato está segurando uma flor enquanto espera por Hoshikawa e, a partir desse detalhe, informa que a flor em questão é chamada de primrose e simboliza o primeiro amor. A primrose também havia sido mencionada por Hoshikawa em uma cena anterior. Com base nessa informação, a fã amplia a interpretação do tema do primeiro amor no filme e do relacionamento entre os personagens, ao relembrar que Minato levou a flor justamente por ela ter sido anteriormente mencionada por Hoshikawa.
@lvfelixies credits to that person from x who pointed out this beautiful detail, i forgot their username. 😭 #monstermovie #minatoandyori #yoriandminato #monster #jdrama #japanmovie #kaibutsu #hirokazukoreeda #muginominato #soyakurokawa #hoshikawayori #hinatahiiragi #fyp #monstermovieedit #monsteredit #jdramaedit
Arquitetura Informacional
A Arquitetura Informacional analisa como o fã utiliza a plataforma em que sua produção é realizada, neste caso o TikTok, a partir de quatro habilidades: conteúdo, tema, imagem e som, e elementos gráficos. Em conteúdo, analisa-se em que medida o vídeo produzido pelo fã se relaciona com o enredo original. Já em relação ao tema, investiga-se qual é o foco principal do vídeo, como um personagem ou uma parte específica da narrativa. A habilidade imagem e som observa os elementos estéticos e os recursos utilizados pelos fãs, como trilha sonora, efeitos e modelos da própria plataforma. Por fim, a análise dos elementos gráficos explora os recursos visuais utilizados pelo fã na postagem.
O conteúdo de todos os vídeos se relaciona com o enredo original do filme, embora de formas distintas. Entre os 20 vídeos analisados, 13 são edits, dois estabelecem comparações com outras obras asiáticas de temática queer, dois recomendam o filme e um apresenta uma fanart dos personagens principais.
Mesmo sem trazer referências visuais diretas a Monster, os dois vídeos de comparação retomam do enredo original a relação amorosa entre Minato e Hoshikawa e a contrapõe a relacionamentos de personagens asiáticos que apresentam formas de afeto semelhantes. Isso pode ser observado no vídeo publicado pelo usuário @gyu5553 em 1º de abril de 2026, que compara Minato ao personagem Yoshiki, do anime O Verão em que Hikaru Morreu. Assim como em Monster, a amizade entre Yoshiki e Hikaru é um dos temas centrais da narrativa e, da mesma forma que Minato ajuda Hoshikawa a lidar com os problemas enfrentados em casa e na escola, Yoshiki ajuda Hikaru a se readaptar ao mundo.
@gyu5533 hello niche community #monster2023 #thesummerhikarudied #tshd #minatomugino #yoshikitsujinaka scp: hyosagi, jelloscenes
No texto Os edits e seu impacto na promoção de filmes nacionais, publicado por Jéssica Teixeira no site da Associação Brasileira de Cinematografia (ABCine), é explicado que, apesar de os edits apresentarem semelhanças com os trailers, por serem curtos e “contarem com montagens ágeis das cenas mais impactantes de um filme, buscando despertar a curiosidade do espectador”, a principal diferença é que, nessas edições, os fãs têm liberdade para inserir sua própria visão na montagem. Isso possibilita a ressignificação do enredo a partir de suas perspectivas, seja destacando um personagem específico ou oferecendo uma nova interpretação para sua trajetória.
O tema principal observado nos vídeos analisados são os personagens Minato e Hoshikawa e o relacionamento entre os dois. Entre os edits analisados, apenas dois não são focados nessa relação. Um deles é o vídeo produzido pelo usuário @_sceneee, citado anteriormente, que reúne diferentes cenas importantes do filme e, consequentemente, abrange um número maior de personagens. O outro é um edit publicado em 11 de janeiro de 2024 pelo usuário @marzz_in, que tem como foco o professor Hori, enfatizando que, apesar das injustiças que sofreu ao longo da narrativa, ele era uma pessoa bondosa que se importava com Minato e Hoshikawa.
@marzz_in Hori, who despite everything that happened to him, did not think badly of Miguno until he believed that he was harassing Yori and when he finally understood what was happening to them, he blamed himself for not having realized it sooner #monster #monster2023 #monster2023edit #kaibutsu #怪物 #fyp #foryou #foryoupage
O TikTok é uma plataforma que conta com sua própria ferramenta de edição de vídeos, mas também possui integração com outros aplicativos, como o CapCut, que pertence à empresa chinesa ByteDance e oferece diversos modelos prontos para edição. Ao analisar os vídeos, foi possível notar que os edits são montados de forma semelhante, com cenas exibidas rapidamente e acompanhadas por legendas que remetem tanto a falas originais do filme quanto a músicas que se relacionam com o conteúdo apresentado.
Um exemplo é o edit publicado em 31 de maio de 2025 pelo usuário @hizumerusushi. Com foco em Minato e Hoshikawa, o vídeo utiliza como trilha sonora a música “Partilhar”, do cantor Rubel. Ao mesmo tempo em que são exibidas cenas dos personagens, a letra da canção aparece na tela, acompanhando as imagens e contribuindo para a construção de sentido da narrativa apresentada pelo fã.
@hizumerusushi assistir o minato e o yori nao eh suficiente, eles tem que vim morar comigo aqui na minha casa #monster2023edit #monster2023 #musica #filmes #filme #rubel #partilhar #mpb
Muitos edits também apresentam efeitos sobre as imagens originais do filme, possivelmente tanto para torná-los mais atrativos ao público do TikTok quanto por uma escolha estética dos usuários que os produzem. No vídeo citado anteriormente, que destaca o professor Hori, é possível notar a presença desses efeitos, assim como o uso de legendas em uma tipografia diferenciada, recurso também observado em outras edições.
Pedagogia do Pop
A noção de pedagogia do pop parte do princípio de que a cultura pop pode funcionar como uma forma de aprendizado e reflexão sobre o mundo a partir do envolvimento dos fãs com a obra. Nesta análise, a dimensão também será utilizada para identificar de que maneira os conteúdos produzidos pelos fãs apresentam reflexões críticas sobre o filme e os temas nele abordados.
As quatro habilidades analisadas neste parâmetro são: identificação, temática, repertório midiático e controvérsia. A identificação analisa de que forma o fã reconhece aspectos do universo de referência em sua própria vida ou experiência. A temática observa como o fã relaciona os temas do universo de referência a questões do mundo real. Em repertório midiático, investiga-se o modo como o fã identifica semelhanças e intertextualidades entre o cânone e outros conteúdos da cultura pop. Já a controvérsia avalia como o fã reinterpreta o universo de referência, explorando conexões interpretativas que não estão explicitamente presentes na obra original.
Embora Monster seja um filme que aborda temas importantes, como homofobia e bullying, foi difícil encontrar, entre os vídeos analisados, conteúdos que pudessem ser relacionados às habilidades de identificação e controvérsia. Não é possível afirmar se essa é uma tendência geral dos vídeos feitos pelos fãs ou se o algoritmo do TikTok priorizou determinados tipos de vídeos em detrimento de outros.
Ainda que nas edições os fãs deem maior destaque ao relacionamento amoroso entre Minato e Hoshikawa e enquadrem o filme como uma obra queer, embora ele não tenha sido divulgado dessa forma, essa interpretação já está presente na narrativa e não constitui necessariamente uma reinterpretação do universo de referência.
O exemplo mais evidente da habilidade de temáticas é o vídeo publicado pelo usuário @iwbeef em 21 de janeiro de 2024. A publicação mostra os atores Sōya Kurokawa e Hinata Hiiragi, intérpretes de Minato e Hoshikawa, em uma coletiva de imprensa, explicando que conversaram com pessoas da comunidade LGBTQIA+ para compor seus personagens e compreender melhor as experiências da comunidade queer. Além de evidenciar a relação dos atores com essa temática, o vídeo também permite observar como os fãs valorizam esse contato e aprovam a representação LGBTQIA+ presente no filme.
@iwbeef Sorry for translation, I don’t know Japanese and I translated from Korean #monstermovie #monster2023 #soyakurokawa #hiiragihinata
Como citado anteriormente, entre os vídeos analisados, há duas publicações que estabelecem comparações com outras mídias asiáticas e que se enquadram na habilidade de repertório midiático. No vídeo publicado pelo usuário @soyasuu em 17 de fevereiro de 2024, é realizada uma comparação com o filme japonês My Broken Mariko, lançado em 2022. A obra acompanha Tomoyo Shiino, uma jovem que descobre pela televisão que sua melhor amiga de infância, Mariko Ikagawa, morreu. Sabendo que Mariko sofreu abusos durante grande parte da vida, Tomoyo rouba suas cinzas da família e embarca em uma viagem para levá-las a um lugar que a amiga sempre sonhou conhecer. Ao longo do caminho, ela revisita memórias da amizade das duas e lida com sentimentos de culpa, luto e impotência.
Na postagem, são utilizadas fotografias das personagens ainda na escola, em uma faixa etária semelhante à dos protagonistas de Monster. Assim como Minato, Tomoyo quer proteger Mariko, e a amizade das duas funciona como um refúgio para os momentos dolorosos, como no filme de Kore-eda. Essa relação de proteção e amizade também é vista em O Verão em que Hikaru Morreu, outra fonte de comparação. Assim como no anime, as personagens de My Broken Mariko não estão em um relacionamento amoroso, mas os fãs interpretam a relação dessa forma, o que favorece ainda mais as comparações com Monster.
Referências:
DIAS, J. J. T. Os edits e seu impacto na promoção de filmes nacionais. ABCine – Associação Brasileira de Cinematografia. 2025. Disponível em: https://abcine.org.br/artigos-cientificos/os-edits-e-seu-impacto-na-promocao-de-filmes-nacionais/#_ftn1 . Acesso em: 16 jun. 2026.
SIGILIANO, D.; BORGES, G. Literacia dos fãs da série brasileira As Five na rede social X. Journal of Digital Media & Interaction, v. 7, n. 17, p. 77-92, 2024. DOI: https://doi.org/10.34624/JDMI.V7I17.38017
SIGILIANO, D.; GARCIA, J.; FURTUOSO, G. Literacia do fã em animês: a ressignificação do cânone de Shingeki no Kyojin no YouTube. In: 34º Encontro Anual da Compós, 34, 2025, Curitiba. Anais […], Curitiba: UFPR, 2025. p. 1-26.
SIGILIANO, D.; LIMA, C. A. R.; BORGES, G. Telenovelas brasileñas, literacidad de fandom y negociación en TikTok: un análisis del remake de Vale Tudo. Razón y Palabra, v. 29, n. 124, p. 55-68, 2025.









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