Observatório da Qualidade no Audiovisual

Análise Pedaço de Mim

Por Maria Victória Loures Costa
Revisão Daiana Sigiliano 

De um lado, o sonho da maternidade, planejado e desejado. Do outro, a brutalidade de um abuso que transforma a gestação em um dilema doloroso e contínuo. Entre acertos e erros, decisões implacáveis e sentimentos conflituosos, a protagonista se vê dividida entre o amor e o trauma, enquanto enfrenta os limites do que é emocionalmente suportável. Esse embate, que coloca em choque desejo e realidade, é o eixo dramático de “Pedaço de Mim”, produção da Netflix, lançada em julho de 2024.

Inserida no formato de melodrama contemporâneo, a série retoma elementos clássicos da narrativa novelística, como conflitos familiares intensos, reviravoltas dramáticas e personagens atravessados por dilemas morais profundos. A autora Angela Chaves buscou criar uma história que retomasse o formato do clássico melodrama familiar, mas sem se prender às características tradicionais da novela. A série se apoia em uma construção narrativa que privilegia o envolvimento emocional do espectador, explorando temas sensíveis como maternidade, infidelidade e trauma.  A direção geral de Maurício Farias, ao lado de Vicente Barcellos, Clara Kutner e Maria Clara Abreu, contribui para uma linguagem audiovisual que combina apuro técnico e apelo popular, característica marcante das produções seriadas da Netflix. Essas escolhas de formato e linguagem não são neutras, mas refletem tanto a trajetória da equipe criativa quanto às estratégias de produção da plataforma ao apostar em narrativas emocionalmente intensas e de ampla identificação. Inspirada em casos reais raros de superfecundação heteroparental, a obra amplia seu impacto ao articular o íntimo e o social, o que ajuda a explicar seu alcance internacional e sua presença no Top 10 da plataforma em dezenas de países.

A protagonista, Liana (Juliana Paes), é terapeuta ocupacional e sonha em ser mãe, trabalhando diariamente com crianças. No núcleo familiar, estão o marido Tomás Rosenthal (Vladimir Brichta), advogado, e Silvia Rosenthal França (Paloma Duarte), médica obstetra e irmã de Tomás, que enfrenta desafios pessoais ao cuidar do filho Inácio (Vitor Valle), um adolescente com perda de visão progressiva. No núcleo médico, destaca-se Vicente França (João Vitti), responsável por diagnosticar o raro caso de superfecundação heteropaternal de Liana. O antagonista, Oscar Oliveira (Felipe Abib), amigo próximo da família, é o responsável pelo abuso que desencadeia o conflito central da trama.

O piloto, estabelece a identidade da série ao apresentar o núcleo principal, introduzindo os dilemas que atravessarão a vida dos personagens e anunciando o tom dramático que caracteriza a narrativa. Dessa forma, são explorados os principais temas da trama como, por exemplo, o drama familiar, os dilemas morais, a violência sexual e a maternidade. A construção dos personagens é emblemática: Liana aparece marcada pela dualidade entre força e fragilidade, enquanto Tomás se mostra alheio e distante; sobretudo na cena do parto, quando permanece inerte diante da decisão de ajudar ou não na retirada do segundo bebê. Essa sequência funciona como estopim do conflito central da narrativa, ao mesmo tempo em que evidencia a carga melodramática e a intensidade emocional que conduzirão a temporada. 

O estilo de Liana é marcado por uma paleta de cores que destaca tons de azul e neutros, como branco, bege e cinza. O azul, recorrente em suas roupas, remete à serenidade, confiança e racionalidade, enquanto os tons neutros reforçam uma imagem de sobriedade e discrição. Esse figurino, construído de forma clean e clássica, sem estampas chamativas ou cortes extravagantes, transmite equilíbrio e maturidade. No entanto, essa escolha estética também revela um contraste importante, enquanto por fora Liana projeta calma, estabilidade e controle, por dentro ela lida com intensos conflitos emocionais. Assim, o figurino atua como um recurso narrativo que delimita a dualidade da personagem, equilibrando a imagem de mulher confiável e contida com a complexidade de seus dilemas internos.

O cenário é realista e reconhecível, aproximando a história da vida cotidiana. A casa de Liana e Tomás, por exemplo, é apresentada como um espaço íntimo e familiar, que deveria transmitir acolhimento, mas acaba se tornando também lugar de conflito, silêncio e violência psicológica, reforçando a contradição entre o lar como refúgio e como prisão. O bar de Oscar surge como espaço social e de convivência, mas que igualmente se converte em cenário de tensões morais. Além desses, outros ambientes familiares, como casas comuns e ruas, carregam uma estética de proximidade, criando uma atmosfera reconhecível ao espectador e reforçando a identificação com a narrativa.

A iluminação desempenha um papel importante na construção da atmosfera dramática. Em muitos momentos, predominam tons frios, especialmente em cenas de maior tensão e sofrimento, como no hospital. No entanto, a série também recorre à luz quente em situações de conflito intenso, como no bar de Oscar e no episódio do abuso de Liana. Nesses casos, o calor da iluminação não está associado ao acolhimento, mas à dramaticidade, intensificando o impacto emocional e a sensação de desconforto. Já em ambientes familiares, a iluminação quente assume outro significado, funcionando como recurso de proximidade, aconchego e afeto. Essa alternância de sentidos mostra que a luz na série, é usada de modo expressivo, de acordo com as emoções que cada cena deseja despertar no espectador.

A série recorre frequentemente a planos fechados, sobretudo no rosto de Liana, que aproxima o espectador de sua dor e de sua experiência, fazendo com que cada olhar, silêncio ou expressão seja carregado de significado. Entretanto, a produção também utiliza planos abertos em momentos específicos, geralmente para situar os personagens em seus ambientes, como a casa, o hospital ou o bar de Oscar. Esse “jogo” entre a proximidade dos close-ups e a amplitude dos planos abertos cria um equilíbrio entre a subjetividade da protagonista e o contexto social e familiar que a cerca, ampliando a complexidade da encenação. 

A série aborda temas extremamente pertinentes, como a violência sexual e suas consequências, explorando tanto o aborto quanto a experiência de uma gravidez indesejada, além da culpabilização da vítima e do silêncio imposto diante de situações de abuso. Trata-se de uma problemática alarmante, sobretudo no Brasil, onde dados recentes indicam que em 2025, foram registrados mais de 83 mil casos de estupro e estupro de vulnerável, com predominância de vítimas menores de 14 anos. Ao colocar tais questões em evidência, a produção não apenas dialoga com a agenda midiática e social contemporânea, mas também contribui para fomentar debates necessários sobre direitos reprodutivos, autonomia feminina e enfrentamento da cultura do silêncio que ainda persiste.

Ao se envolver nos conflitos dos personagens, o público é conduzido a problemáticas que, na maioria das vezes, são invisibilizadas. Ao abordar a maternidade em contextos de violência, a obra expande o repertório cultural do público, ao deslocar a ideia romantizada de mãe para uma experiência marcada por dor e resistência. Isso amplia a visão de mundo, mostrando que a maternidade também pode ser atravessada por violências estruturais e contradições éticas.

Apesar de ter protagonistas reconhecidos, a série não se limita a narrativas hegemônicas traz personagens de diferentes perfis psicológicos e experiências de vida, há também outra perspectiva sobre a maternidade. Além da abordagem de violência de forma complexa, que não se restringe a um “vilão único”, mas mostra como estruturas sociais inteiras colaboram para perpetuar abusos. Ainda assim, pode-se questionar até que ponto a produção abarca diversidade étnica e regional, já que a ambientação é predominantemente urbana e voltada para personagens de classes médias. 

A narrativa busca quebrar a ideia clássica de que a mulher vítima de violência é passiva, mostrando que ela enfrenta dificuldades reais para denunciar ou sair de um ciclo abusivo. Ou seja, não é que a vítima “aceita” a violência por fraqueza, mas muitas vezes por medo, falta de apoio ou pressão social. No entanto, em alguns momentos, a série pode recorrer a estereótipos reforçados. Por exemplo, o agressor às vezes é mostrado como alguém óbvio e unidimensional (vilão clássico), sem nuances ou complexidade psicológica. Isso simplifica a narrativa e não reflete totalmente a realidade de muitos casos, onde a violência pode ser institucional ou psicológica, não apenas física.

“Pedaço de Mim” se destaca pelo uso expressivo da linguagem audiovisual, explorando iluminação, trilha sonora e enquadramentos para intensificar a experiência emocional do público. Embora a presença de atores reconhecidos ajude a atrair atenção, a originalidade da série está na coragem de tratar temas delicados com realismo, sem dramatizações. Ainda que se apoie em convenções do melodrama, o olhar feminino que conduz a narrativa carrega complexidade tensionando a maternidade, afeto e dor de modo pouco explorado no audiovisual brasileiro. Assim, sua contribuição criativa não reside apenas na estética ou no enredo, mas principalmente na capacidade de provocar reflexão social e desafiar tabus em torno da mulher e da maternidade.

Referências 

BORGES, Gabriela. SIGILIANO, Daiana. Qualidade audiovisual e competência midiática: proposta teórico-metodológica de análise de séries ficcionais. In: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 30, 2021, São Paulo. Anais […] São Paulo: Compós, 2021. Disponível em: researchgate.net/publication/354859743_QUALIDADE_AUDIOVISUAL_E_COMPETENCIA_MIDIATICA_proposta_teorico-metodologica_de_analise_de_series_ficcionais. Acesso em: 14 set. 2025.

ALVES, Emily. Série Pedaço de Mim: drama e transformação na tela. Arte no Sul, Pelotas, 02 set. 2024. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/artenosul/2024/09/02/serie-pedaco-de-mim-drama-e-transformacao-na-tela/. Acesso em: 14 set. 2025.

BARBOSA, Juliana. Pedaço de Mim: conheça a história real que baseou o sucesso da Netflix. Metrópoles, 17 jul. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/entretenimento/televisao/pedaco-de-mim-conheca-a-historia-real-que-baseou-o-sucesso-da-netflix. Acesso em: 14 set. 2025.

 

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