Observatório da Qualidade no Audiovisual

Análise The Bear

Por Rafael Rodrigues Guimarães
Revisão: Daiana Sigiliano

The Bear é uma premiada série estadunidense produzida pela FX e distribuída pela Hulu e Disney+. Foi criada por Christopher Storer e lançada em junho de 2022, tornou-se rapidamente um fenômeno televisivo, não apenas pela recepção da crítica, mas também por sua habilidade de sintetizar esteticamente o caos contemporâneo por meio da narrativa de um restaurante em crise. Atualmente, The Bear conta com 4 temporadas, sendo que a mais recente estreou em junho de 2025, e a série já foi renovada para uma quinta temporada prevista para este ano. A trama acompanha Carmen Berzatto (Jeremy Allen White), jovem chef premiado que retorna a Chicago para administrar a lanchonete/restaurante The Beef, herdada após o suicídio de seu irmão Michael (Jon Bernthal). Ao longo dos seus episódios a série constrói uma reflexão sobre trauma, memória, solidariedade, precariedade e reinvenção. 

Como pontuado por Borges e Sigiliano (2021), o plano da expressão refere-se aos elementos técnico-expressivos que compõem a mensagem audiovisual – imagem, som, edição, ritmo, grafismos. Em The Bear, esses elementos são fundamentais para a experiência de imersão, pois traduzem sensorialmente o ambiente caótico de uma cozinha profissional.

A direção de fotografia da série faz uso de uma estética realista, frequentemente com câmera na mão, movimentos bruscos e closes que enfatizam a fisicalidade do trabalho. A proximidade com os personagens intensifica a sensação de claustrofobia, remetendo ao espaço reduzido e superpovoado da cozinha. A opção por planos fechados reforça a percepção de calor, desordem e urgência. O uso da iluminação naturalista também contribui para a verossimilhança: luzes fluorescentes frias na cozinha contrastam com a iluminação quente dos espaços domésticos, estabelecendo a tensão entre trabalho e intimidade. A paleta cromática tende ao desgaste, paredes descascadas e uniformes manchados que refletem a precariedade material do restaurante nas temporadas iniciais. Essa composição imagética está em consonância com o que Borges (2014) e Jost (2016) denominam “densidade imagética”, na qual os detalhes visuais não são apenas ornamentais, mas parte integrante da narrativa. O olhar atento ao ambiente revela camadas de sentido: as rachaduras na parede funcionam como metáfora da fragilidade do negócio, enquanto os cortes rápidos dos planos sugerem a instabilidade emocional dos personagens.

A produção sonora de The Bear é central para a experiência estética. O barulho incessante de frigideiras, panelas, fritadeiras e ordens gritadas compõe uma sinfonia que transmite caos e pressão. Muitas vezes, os diálogos se sobrepõem, produzindo uma cacofonia controlada que aproxima o espectador do ambiente real de uma cozinha. A trilha sonora musical, por outro lado, é marcada por escolhas da cultura pop alternativa (Wilco, Radiohead, Pearl Jam), que funcionam como dispositivos afetivos. Elas ancoram a narrativa na cidade de Chicago e nos anos de formação de Carmy, ao mesmo tempo em que evocam estados emocionais dos personagens. Do ponto de vista técnico, percebe-se uma clara intencionalidade em criar contrastes: o silêncio abrupto em determinadas cenas de luto ou introspecção (como quando Carmy assiste a vídeos antigos do irmão) reforça a violência da ausência sonora, tornando-o tão expressivo quanto o ruído ensurdecedor da cozinha.

A edição da trama é notoriamente acelerada, especialmente nos episódios iniciais. Os cortes rápidos, muitas vezes em montagem paralela entre diferentes personagens, transmitem a simultaneidade das tarefas e a pressão do tempo. Essa escolha de sentidos não apenas constrói o ritmo narrativo, mas também provoca no espectador uma experiência de ansiedade semelhante à vivida pelos personagens. 

Um exemplo paradigmático é o episódio “Review” (S01E07), filmado em plano-sequência de aproximadamente 18 minutos. A ausência de cortes tradicionais intensifica a sensação de colapso iminente, obrigando o espectador a experimentar, em tempo real, o caos da cozinha diante de um sistema de pedidos falho. Esse recurso, além de exibir virtuosismo técnico, reforça a dimensão emocional da narrativa.

Embora a série utilize poucos recursos gráficos explícitos, há inserções pontuais de legendas e tipografias que marcam menus ou anúncios. A economia de grafismos confirma a escolha por uma estética realista, evitando recursos externos que poderiam quebrar a imersão.

As imagens acima demonstram perfeitamente a relação entre o plano da expressão e o plano do conteúdo. A primeira delas é retirada do último episódio da segunda temporada, no qual o protagonista fica preso no freezer no dia da inauguração do restaurante The Bear após as reformas. Devido à  intensa natureza da situação, Carmy fica angustiado, com raiva, coloca a si mesmo para baixo e diz diversas coisas que não devia, tanto para sua até então namorada, Claire (Molly Gordon) que o escutava sem que ele soubesse, quanto com Richie (Ebon Moss-Bachrach), que soube da situação e interviu. Esse episódio representa uma grande queda na evolução do protagonista enquanto pessoa e líder. As imagens restantes foram retiradas do segundo episódio da quarta temporada, nesta cena, Richie e Carmen tem uma breve conversa amigável, o que não acontecia desde o final da temporada. O enquadramento, o jogo de luzes e as expressões  destacam os personagens de forma oposta, Richie está iluminado majoritariamente com cores quentes e com um semblante sereno, representando seu arco de redenção, sua resolução de conflitos internos, que vem acontecendo desde a segunda temporada. Já Carmen é iluminado pelas cores frias, sua expressão acusa grande tristeza, preocupação e angústia, demonstrando que o personagem está passando por difíceis momentos em sua jornada. 

A narrativa de The Bear inicia-se com a chegada de Carmen “Carmy” Berzatto à lanchonete da família, “The Original Beef of Chicagoland”, após o suicídio de seu irmão mais velho, Michael, que administrava o restaurante. O protagonista, jovem chef premiado no circuito da alta gastronomia de Nova York, retorna a Chicago marcado pelo trauma da perda e pela necessidade de reorganizar um espaço caótico, em crise financeira e humana, como uma forma de estar mais próximo e honrar a memória de seu irmão. O primeiro episódio apresenta esse ambiente deteriorado, com funcionários resistentes a mudanças e uma rotina marcada pela desordem, pela precariedade e pela pressão do cotidiano de uma cozinha. A partir desse ponto, a trama se constrói em torno do conflito entre tradição e inovação: Carmen busca implementar os métodos rigorosos da alta cozinha em um restaurante popular, ao mesmo tempo em que enfrenta sua própria incapacidade de elaborar o luto.

Ao longo da primeira temporada, cada episódio expõe a tensão crescente entre Carmy e os demais personagens, ao mesmo tempo em que revela camadas de suas subjetividades. Sydney (Ayo Edebiri), jovem chef talentosa, filha de imigrantes afro-americanos, encarna a ambição de ascensão social pela culinária, surge como parceira fundamental na tentativa de modernizar o restaurante, ainda que sua relação com Carmy seja atravessada por conflitos de autoridade e reconhecimento. Richie, gerente improvisado, primo de consideração de Carmy e melhor amigo de Michael, representa o apego ao passado e a dificuldade de lidar com as mudanças impostas pelo novo chef devido à sua lealdade ao falecido amigo. Natalie Berzatto (Abby Elliott), também chamada de Sugar, é irmã de Carmen e Michael e passa a trabalhar no restaurante como diretora de operações e finanças. Marcus (Lionel Boyce), confeiteiro sensível e curioso, encarna o desejo de experimentação artística dentro da cozinha, tensionando os limites entre rotina produtiva e criatividade. Cicero (James Kalinowski), chamado de Tio Jimmy é um rico empresário e grande amigo da família, e se tornará o sócio majoritário do restaurante. A narrativa, portanto, vai além do dilema financeiro do restaurante: cada personagem traz consigo uma história de precariedade, sonhos interrompidos e busca por pertencimento.

A série intensifica o drama ao articular o cotidiano do restaurante com a instabilidade emocional de Carmy. Sua jornada pessoal é marcada por flashbacks e memórias que evidenciam tanto a pressão sofrida no ambiente da alta gastronomia quanto a relação conflituosa com o irmão falecido. O luto, nesse sentido, não é apenas um pano de fundo, mas a força motriz que dá unidade à narrativa. A cozinha se transforma em metáfora para a mente de Carmy: caótica, superlotada, ruidosa, mas também lugar de afeto, solidariedade e possibilidade de reconstrução; ambiente que remete a família do protagonista e sua experiência ao crescer, causadora de diversos dos problemas aos quais ele enfrenta ao longo das temporadas. 

O ápice narrativo da primeira temporada ocorre no episódio “Review” (S01E07), quando uma falha no sistema de pedidos desencadeia um colapso coletivo. Filmado em plano-sequência, o episódio coloca em evidência a intensidade emocional e física do trabalho, traduzindo para o espectador a sensação de claustrofobia, desespero e impotência que acomete os personagens. Esse momento de explosão sintetiza a fragilidade das relações entre eles e marca a necessidade de transformação.

No episódio final, há uma virada significativa: Carmy descobre que Michael havia escondido dinheiro em latas de tomate no restaurante, recurso que possibilitará a abertura de um novo empreendimento – “The Bear”. O restaurante leva esse nome em homenagem ao apelido carinhoso “bear” que os irmãos Berzatto se chamam, principalmente em relação à Carmen. A revelação tem caráter simbólico, pois conecta passado e futuro: a herança do irmão, até então fonte de dor, transforma-se em chave para a reconstrução. A narrativa encerra a temporada com a promessa de renovação, sem eliminar as tensões, mas apontando para a possibilidade de reconfiguração coletiva.

Nesse percurso, a série mobiliza temas centrais da contemporaneidade. O primeiro deles é o trabalho precarizado, representado pelas longas jornadas, pela desorganização e pela pressão constante que atravessam a rotina da cozinha. O segundo é a saúde mental, especialmente no que diz respeito ao luto, ao burnout e às crises de ansiedade, vividas de forma explícita por Carmy e, em diferentes graus, por outros personagens. Soma-se a isso a discussão sobre masculinidade em crise, expressa em Richie e Carmy, que precisam rever papéis herdados de um modelo tradicional de virilidade. Por fim, a série apresenta a solidariedade e a coletividade como alternativas possíveis diante do colapso individual somente ao reconhecer a importância dos demais é que Carmy consegue vislumbrar um futuro para si e para o restaurante.

Os personagens, nesse sentido, são construídos de forma a garantir diversidade e evitar estereótipos. Sydney, mulher negra e chef talentosa, representa a presença feminina e afro-americana em um espaço historicamente dominado por homens brancos. Marcus, filho de imigrantes, personifica a criatividade insurgente e a valorização de talentos que emergem da periferia cultural. Richie, ainda que inicialmente encarne a masculinidade tóxica, revela vulnerabilidades e afetos que subvertem o estereótipo. Essa composição garante amplitude de representações e complexidade psicológica, evitando simplificações. Em suma, o plano do conteúdo de The Bear evidencia uma obra que articula trama envolvente, personagens complexos e temas socialmente relevantes, estabelecendo uma narrativa de reconstrução coletiva que ultrapassa o simples drama gastronômico para se tornar uma reflexão sobre precariedade, afeto e possibilidade de recomeço. 

Mensagem audiovisual

No contexto contemporâneo, em que o trabalho é atravessado pela precarização, intensificação das jornadas, pressões por produtividade e impactos na saúde mental (Abílio; Amorim; Grohmann, 2021), The Bear surge como uma obra que reflete diretamente tais tensões. A série parte da cozinha de um restaurante familiar em Chicago, mas sua narrativa alcança discussões mais amplas sobre burnout, luto, ansiedade e sobrecarga emocional que se tornaram urgentes sobretudo no mundo pós-pandemia.

 A história de Carmy e sua equipe encarna a dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional, bem como a instabilidade de quem busca sustento e sentido em ambientes hostis. Ao expor crises de pânico, rompantes de agressividade, problemas de comunicação e frustrações geradas pelo cotidiano laboral, a série não se limita a retratar uma profissão específica. Sua mensagem audiovisual dialoga com trabalhadores de diferentes setores, que se reconhecem na sobreposição de demandas, na pressão constante e na sensação de não conseguir corresponder às expectativas. Dessa forma, The Bear se apresenta como uma obra oportuna, que captura o espírito de uma época em que saúde mental e condições de trabalho tornaram-se temas centrais no debate social e cultural.

The Bear não adota tom didático nem se propõe a apresentar questões sobre saúde mental, organização do trabalho ou liderança. No entanto, por meio de uma linguagem estética visceral, câmera instável, edição frenética e cacofonia sonora, coloca o espectador na pele de quem vivencia a pressão cotidiana de uma cozinha profissional. O resultado é uma experiência que amplia a consciência do público sobre os efeitos da precariedade e da desumanização laboral, sem a necessidade de discursos diretos.

O alcance da série é potencializado por estar disponível em plataformas de streaming globais (Hulu, Disney+), o que garante circulação internacional. O público-alvo é majoritariamente adulto, interessado em dramas contemporâneos de forte densidade psicológica, mas a narrativa dialoga especialmente com as gerações Y e Z. A primeira, marcada por frustração diante da promessa de realização profissional não concretizada, e a segunda, que começa a ingressar no mercado de trabalho já em meio à crise de modelos organizacionais e à busca por novas formas de pertencimento e equilíbrio.

A diversidade em The Bear é construída principalmente pela variedade étnica, geracional e de gênero do elenco. Sydney, uma jovem mulher negra e chef talentosa, ocupa posição central na trama, não como figura secundária ou estereotipada, mas como profissional altamente capacitada, ambiciosa e criativa. Marcus, confeiteiro filho de imigrantes, traz à narrativa a valorização da criatividade insurgente vinda das margens sociais. Richie, homem branco de classe média baixa, simboliza a masculinidade em crise, ao mesmo tempo em que revela vulnerabilidade e lealdade. Natalie, irmã de Carmen, ocupa posição de liderança administrativa, desafiando a ideia de que o espaço da mulher se limitaria à esfera do cuidado. Do ponto de vista geral, o elenco transmite uma amplitude de experiências. Embora a série não aprofunde questões religiosas, oferece diversidade de trajetórias, origens e perspectivas, enriquecendo o mosaico de representações sociais e ampliando a identificação do público.

Diferente de outras produções que reforçam estereótipos ligados à cozinha (chef autoritário, funcionário desleixado, mulher hiperssexualizada), The Bear os desconstrói ao explorar a complexidade psicológica dos personagens. Carmy não é apenas o gênio perfeccionista da alta gastronomia: é também um homem frágil, atravessado por traumas familiares e crises de ansiedade. Sydney, embora jovem e mulher negra, não é colocada no papel de aprendiz submissa; ao contrário, tensiona Carmy e exige reconhecimento de seu talento. Richie, que poderia ser lido apenas como caricatura do gerente ranzinza, é gradualmente humanizado, revelando afetos e inseguranças. Ao evitar caricaturas e apostar em personagens multifacetados, a série rompe com representações simplistas e contribui para um debate mais profundo sobre trabalho, família e subjetividade. Mesmo quando se aproxima de arquétipos (o chef obsessivo, o funcionário rebelde), The Bear sempre acrescenta camadas de vulnerabilidade que os afastam da estereotipia pura.

A originalidade de The Bear está em sua capacidade de transformar a experiência subjetiva da ansiedade e do caos em linguagem audiovisual. A câmera instável, os closes sufocantes, a montagem frenética e a sobreposição sonora não são apenas recursos técnicos, são escolhas criativas que comunicam visceralmente o estado mental dos personagens. O episódio “Review” (S01E07), filmado em plano-sequência, é um exemplo paradigmático de criatividade formal: ao abolir cortes, obriga o espectador a viver em tempo real a pressão insuportável de uma falha coletiva. Esse recurso não é exibicionismo técnico, mas tradução estética do colapso emocional dos personagens. Além disso, a série reconfigura o próprio gênero. Embora oficialmente categorizada como comédia, articula-se na chave da comédia triste (Oliveira, 2025), em que o riso convive com temas de luto, precariedade e crise. Essa tensão entre classificação formal e experiência estética constitui uma das maiores inovações da obra, aproximando-a de outras dramédias contemporâneas, mas com identidade própria.

Referências

BORGES, Gabriela; SIGILIANO, Daiana. Qualidade audiovisual e competência midiática: proposta teórico-metodológica de análise de séries ficcionais. In: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 30., 2021, São Paulo. Anais […]. São Paulo: Compós, 2021. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/354859743_QUALIDADE_AUDIOVISUAL_E_COMPETENCIA_MIDIATICA_proposta_teorico-metodologica_de_analise_de_series_ficcionais. Acesso em: 27 ago. 2025.

OLIVEIRA, Larissa; SIGILIANO, Daiana; BORGES, Gabriela. Literacia midiática e a comédia triste: análise da experiência estética de The Bear. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 47., 2024, Itajaí. Anais […]. Itajaí: Intercom, 2024. Acesso em: 27 ago. 2025. 

OLIVEIRA, Larissa Nascimento Lopes de. Novas nuances na comédia seriada contemporânea: tristeza, complexidade e qualidade na televisão. 2025. 273 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2025. Orientadora: Profa. Dra. Gabriela Borges Martins Caravela. Acesso em: 27 ago. 2025.

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