Observatório da Qualidade no Audiovisual

O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas

Produzido entre os anos de 1998 e 2000, O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, é um premiado longa-metragem em festivais do Brasil e do exterior que conta a história de dois personagens reais de Camaragibe, região metropolitana do Recife: Hélio José Muniz, o Helinho, “justiceiro” acusado de matar mais de 40 pessoas, e Garnizé, líder comunitário e baterista da banda de rap Faces do Subúrbio.

Com pouco mais de uma hora de duração, O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas se insere no contexto de retomada do cinema brasileiro da década de 1990, impulsionado pelo barateamento e disseminação das câmeras digitais, e pelas leis de incentivo criadas naquela época. Nesse momento, a produção de filmes documentários se tornou realidade para muitas pessoas que, com as novas condições de produção, podiam fazer filmes praticamente sozinhas e com poucos recursos.
Desse boom do documentário, os novos caminhos anunciaram uma tendência mais sociológica que estava por se iniciar, como define Jean-Claude Bernardet, que entende “Cabra marcado para morrer” (1964/1984), de Eduardo Coutinho, como um divisor de águas para o documentário moderno das décadas de 60 e 70 e os documentários de 80 e 90. “Em vez dos grandes acontecimentos e dos grandes homens da história brasileira, ou de fatos e pessoas exemplares, o filme se ocupa de episódios fragmentários, personagens anônimos, aqueles que foram esquecidos e recusados pela história oficial e pela mídia” (LINS; MESQUITA, 2011, p.25).
Assim como o filme de Coutinho, O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, tendo como pano de fundo a periferia de Recife, também traz a desigualdade, a marginalização e a exclusão social para a narrativa, através de uma dualidade que ilustra e permeia tais questões. De um lado, Helinho, o “pequeno príncipe” de Camaragibe, querido pela comunidade por eliminar “almas sebosas”, ou seja, aqueles indivíduos que fazem mal às pessoas, indesejados, que “merecem morrer para que a paz na comunidade seja garantida”. E, de outro, Garnizé, músico que vê na educação a solução para os problemas que o permeia e na música uma ferramenta de conscientização para mudar a realidade em que vive.

A construção da narrativa

Considerado um cinema de urgência, isto é, aquele cinema que acompanha as problemáticas sociais à medida que surge em resposta às crises que exigem registro e uma reflexão sobre os acontecimentos, Paulo Caldas e Marcelo Luna constroem a narrativa a partir dos depoimentos dos personagens e de músicas de rap, que dão o tom à mensagem audiovisual e ilustram o cotidiano mostrado na tela.

Elementos característicos da ficção são comuns durante todo o filme, como movimentos muito elaborados de câmera ou tomadas claramente encenadas que ilustram o “voz off”, aquelas vozes que estão fora do quadro, mas que pertencem ao universo sonoro do que é mostrado. Esse hibridismo na construção dos sentidos serve de apoio para a dramaticidade dos depoimentos, mas não desmerece o recorte histórico do que se pretende mostrar, uma vez que já é mesmo impossível um documentário captar a realidade tal como ela se dá.
Os enquadramentos de câmera preferidos pelos diretores reforçam essa tentativa de se trazer mais drama e emoção para o que é dito. O “primeiríssimo plano” e o “plano detalhe” mostram os personagens dos ombros para cima ou focam apenas em uma parte do rosto dos personagens, como acontece em todas as cenas em que a mãe de Helinho aparece falando do filho. A escolha por determinados planos e posicionamentos de câmera se faz, também, pela relação que estabelecem com os temas falados: assassinato, roubo, morte, violência, crime etc., mais delicados e censurados no imagético do espectador.
A música é presente em toda a obra, seja com cenas de Garnizé tocando percussão ou de conversas entre músicos que refletem sobre o rap como instrumento que dá voz às mazelas do dia a dia. Como um desabafo, a música em O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas é a expressão de quem vive nas periferias, e a posição contra hegemônica adotada pelo filme se dá nessa construção que mostra como elas se tornaram a parte esquecida da sociedade e o reflexo do descuido do Estado.

A voz do documentário

A ideia da mesma origem, mas com destinos diferentes, assumida pelos dois personagens principais, Helinho e Garnizé, também é refletida no fio narrativo do documentário, que coloca, através da montagem, as falas proferidas lado a lado. Os depoimentos de outras pessoas também contribuem para a condução da história que se deseja mostrar, e as diferentes asserções de mundo dadas sobre as mesmas questões dão ao espectador a oportunidade de reflexão.

Esse estímulo ao pensamento do público é reforçado com as falas que não chegam a uma conclusão definitiva, mas deixam a abertura para o espectador completar o pensamento do personagem. É o que acontece em 11:55, quando Helinho diz: “nesse mundo a gente tem que atirar pra não morrer. E se eu não tivesse tirado a vida de muita gente safada, eu teria morrido”, afirma. Na cena seguinte, Garnizé pondera: “eu acho que ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. Só que… só o cara pensar em sair de casa de manhã cedo, ir trampar, passar o mês todinho ralando pra no final do mês ganhar 130 conto, chegar um filho da puta e meter um cano em cima de tu e tomar teu sapato, tomar tua grana, e arrombar teu barraco e…”, reflete, deixando a brecha para o espectador.
Preso nos momentos de gravação do filme, Helinho tem menos falas que Garnizé, e talvez por isso a construção da sua identidade se dê mais pelas imagens roteirizadas que captam o dia a dia da comunidade de Camaragibe, que não condena o “justiceiro” pelos crimes que cometeu. Ao contrário. Até um abaixo-assinado foi feito pela liberdade de Helinho, com o argumento de que é ele o protetor da comunidade e o responsável pela diminuição de 100% da marginalização do local.
Em meio ao uso dos depoimentos que provocam a reflexão acerca da violência em uma sociedade pobre e marcada pela desigualdade social, a construção da identidade de Helinho acaba por promover uma quebra de expectativa no espectador, que reconhece o sujeito representado mais pelo “bem” que ele fazia às “pessoas de bem”, do que pelos crimes que ele cometia contra as “almas sebosas”.

Por Luma Perobeli

Assista ao documentário: https://www.youtube.com/watch?v=RUco5kdM7Wk&has_verified=1

Referências:
COLUCCI, Maria Beatriz. Violência urbana e documentário brasileiro contemporâneo. Campinas, SP: [s.n.], PPG Multimeios/Unicamp, 2007. Disponível em: <http://cutter.unicamp.br/document/?code=000400906>.

LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 94 p.

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