Observatório da Qualidade no Audiovisual

Análise Bruna Tavares e Coca-Cola

Por Marcelle Mussel

Bruna Tavares construiu uma trajetória que a consolidou como uma das principais referências do universo da beleza no Brasil. Jornalista de formação, ela iniciou seu caminho no mundo da beleza em 2009, como aponta reportagem da Forbes Brasil, e depois de formada, objetivando entrar no mundo da moda e cultura criou o blog “Pausa para Feminices”, onde escrevia sobre a temática a fim de criar um portfólio.   

A produção de conteúdo começou como um hobby, conciliado com a rotina na redação, mas rapidamente ganhou novos caminhos. Bruna passou a receber propostas de publicidade e presskits de marcas em casa. Nesse período, também produzia conteúdos para blogs e redes sociais voltados à maquiagem, com resenhas, tutoriais e análises de produtos. Com o passar dos anos, sua atuação no ambiente digital se fortaleceu e ampliou seu alcance, reunindo um público fiel interessado tanto em tendências de beleza quanto em avaliações aprofundadas de cosméticos.

A marca de maquiagem que leva seu nome surgiu em 2016, com a missão de criar produtos com alta tecnologia, qualidade e performance e o  propósito de igualar o mercado nacional ao mercado internacional. A proximidade da empresária com o público fortalece vínculos afetivos e posiciona a marca não apenas como uma produtora de cosméticos, mas também como mediadora cultural entre tendências globais de beleza e práticas cotidianas de consumo. Nesse viés, o processo de construção de autoridade no ambiente digital permitiu que a criadora convertesse sua audiência nas redes sociais em consumidores de seu empreendimento. 

Se a marca Bruna Tavares surge no contexto da cultura digital, a trajetória da Coca-Cola remonta ao final do século XIX, quando a bebida foi criada pelo farmacêutico John Stith Pemberton em 1886, nos Estados Unidos. Ao longo de mais de um século, a empresa consolidou-se como uma das marcas mais reconhecidas do mundo. Dados recentes reforçam essa relevância, a Coca-Cola está entre os vencedores dos Advertising Effectiveness Awards 2026, promovidos pela Kantar, premiação que reconhece as campanhas publicitárias mais eficazes e com maior geração de resultados no mundo. A identidade visual da marca, marcada pela tipografia característica, pelo design marcante de suas garrafas e pelo uso predominante da cor vermelha, tornou-se facilmente reconhecível em diferentes contextos culturais, sendo frequentemente mobilizada em estratégias de branding que exploram memória afetiva e experiências compartilhadas.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa construção simbólica é a relação entre a Coca-Cola e o imaginário do Natal. Desde a década de 1930, campanhas publicitárias da empresa foram marcos importantes para popularizar a imagem moderna do Papai Noel com roupa vermelha, remetendo à cor da marca. Esse processo foi impulsionado pelas ilustrações desenvolvidas por Haddon Sundblom em 1931, como destaca reportagem do portal Meio & Mensagem. Ao longo das décadas, essa associação foi sendo reforçada e incorporada à estratégia comunicacional da marca, por meio de campanhas publicitárias, caravanas temáticas e narrativas que enfatizam valores como reunião familiar, celebração e nostalgia. Nesse contexto, o vermelho característico da Coca-Cola passa a dialogar diretamente com o simbolismo do Natal, fortalecendo a conexão afetiva entre produto, memória e experiência cultural.

Linha BT  + Cola- cola 

E é no ano de 2025 que surge a colaboração entre Bruna Tavares e Coca-Cola, lançada  em um período estratégico próximo às celebrações de fim de ano. A coleção reúne uma série de produtos de maquiagem inspirados na estética visual da marca de refrigerantes, incorporando elementos como a paleta cromática vermelha e branco, referências às latas da bebida e detalhes visuais associados ao universo imagético da Coca-Cola. Para a própria Bruna Tavares, a parceria possui também uma dimensão pessoal significativa. Durante a campanha de divulgação da coleção em suas redes sociais, a empresária relatou em postagens que a colaboração representava a realização de um sonho antigo enquanto consumidora e admiradora da marca, destacando inclusive que, quando era mais jovem, costumava colecionar pequenas garrafas de Coca-Cola. Esse detalhe pessoal reforça a dimensão afetiva e simbólica da collab e contribui para construir uma narrativa de autenticidade em torno do lançamento, aproximando a trajetória pessoal da influenciadora do imaginário cultural associado à marca global. 

Análise da campanha da collab

Dada a variedade de conteúdos de divulgação realizadas para o lançamento da coleção desenvolvida por Bruna Tavares em parceria com a Coca-Cola, esta análise concentra-se em um recorte específico de publicações do perfil pessoal da influenciadora (@brunatavares), focadas na divulgação da coleção, num período de 4 de dezembro de 2025 à 9 de janeiro de 2026. A partir desse conjunto de conteúdos, o objetivo é compreender de que forma franquias da cultura pop, estruturadas como media supersystems (Kinder, 1991), moldam a experiência do público, especialmente dos fãs, por meio da articulação de recursos como a intertextualidade, o apelo a diferentes perfis de consumidores e a lógica da colecionabilidade. Para isso, utiliza-se como referência o protocolo teórico-metodológico desenvolvido no âmbito do Observatório da Qualidade no Audiovisual.

No campo da rede de intertextualidade, a coleção evidencia uma fusão estética entre as identidades das duas marcas. As embalagens remetem diretamente ao universo visual da Coca-Cola, reproduzindo cores, tipografia característica e referências estéticas nas formas da latas e garrafas da bebida. Ao mesmo tempo, os produtos preservam características já associadas à marca Bruna Tavares, como texturas sofisticadas, sensorialidade, acabamento profissional e fórmulas voltadas à performance e versatilidade dos cosméticos. 

A coleção, composta por 15 produtos, busca traduzir visual e sensorialmente elementos associados à ambas as marcas, ao mesmo tempo em que evidencia um forte potencial de colecionabilidade. As embalagens, inspiradas na iconografia da marca, posicionam os itens não apenas como cosméticos, mas como objetos de valor simbólico e afetivo. Portanto, além das diversas cores e funcionalidades dos produtos da coleção, as embalagens também se tornam artifícios que incentivam sua aquisição em série. 

Nesse sentido, ao analisar o parâmetro de colecionabilidade no qual busca-se compreender de que maneira os produtos estimulam a aquisição em série e o desejo de completude por parte do consumidor, no caso da coleção Bruna Tavares e Coca-Cola, esse aspecto se manifesta principalmente no design das embalagens e na construção estética e sensorial da linha.

Além disso, alguns produtos apresentam caráter multifuncional, como o balm em formato de chaveiro com espelho, que ultrapassa o uso tradicional da maquiagem e passa a atuar também como acessório, ampliando suas formas de circulação no cotidiano e reforçando a lógica de consumo que articula utilidade e estética.

A coleção também estabelece uma rede de intertextualidade que conecta diferentes repertórios culturais. As referências visuais à Coca-Cola funcionam como estratégias articuladas para o reconhecimento, acionando um imaginário coletivo construído ao longo de décadas de presença da marca no cotidiano. 

Ao mesmo tempo, a presença de Bruna Tavares como figura central da colaboração cria uma camada adicional de significado, uma vez que sua trajetória como influenciadora digital e empresária se conecta diretamente com comunidades online de fãs e consumidores de beleza. Dessa forma, a coleção articula dois universos distintos, o da cultura global associada à Coca-Cola e o da cultura digital de maquiagem, formando uma rede de referências que amplia seu potencial de identificação junto ao público. Isso fica explícito nos comentários do vídeo publicado  por Bruna em seu perfil pessoal do Instagram (@brunatavares) no dia em que ela conta mais sobre o desenvolvimento da colaboração com a Coca.

Tal movimento é reforçado pela relação afetiva historicamente construída em torno da Coca-Cola, cuja presença na cultura popular frequentemente se associa a experiências de nostalgia e memória. Ao transportar esse repertório para o campo da maquiagem, a coleção transforma produtos cotidianos em extensões materiais de um imaginário cultural amplamente reconhecido. Nesse sentido, o consumo deixa de ser apenas utilitário e passa a operar também como prática de identificação simbólica, na qual adquirir um produto significa, de certa forma, apropriar-se de uma parcela desse universo cultural.

Outro aspecto relevante diz respeito ao apelo diverso mobilizado pela colaboração. Ao recorrer a uma marca amplamente reconhecida como a Coca, a coleção dialoga com diferentes gerações de consumidores. Para públicos mais jovens, os produtos podem representar uma experiência estética vinculada à cultura pop e às tendências contemporâneas de maquiagem, visto que Bruna tem forte presença no digital. Para consumidores mais velhos, por sua vez, os elementos visuais da marca podem ativar lembranças afetivas associadas a momentos cotidianos ou experiências familiares. Assim, a coleção estabelece uma ponte entre diferentes gerações, reforçando seu potencial de circulação cultural.

O fato de a coleção ter sido lançada em um período próximo ao Natal intensifica ainda mais esse potencial, uma vez que a própria Coca-Cola possui uma longa tradição de campanhas publicitárias associadas à data. Dessa forma, os produtos passam a dialogar não apenas com a estética da marca, mas também com o imaginário afetivo que historicamente se construiu em torno dela.

Nesse processo, a nostalgia desempenha papel central como estratégia da campanha de divulgação. Ao mobilizar elementos reconhecíveis da marca de refrigerantes, a coleção traz memórias associadas à experiência de consumo da bebida, transformando produtos de maquiagem em dispositivos capazes de evocar experiências sensoriais e lembranças pessoais. Essa mobilização do passado como estratégia de branding é recorrente em contextos contemporâneos de consumo, nos quais marcas buscam construir vínculos emocionais duradouros com seus públicos. 

Por fim, a literacia do fã se manifesta como parte central da recepção da coleção. Consumidores familiarizados com a trajetória de Bruna Tavares reconhecem rapidamente a dimensão da parceria e interpretam a collab como extensão de sua identidade enquanto criadora de conteúdo e empresária. Ao mesmo tempo, admiradores da estética da Coca-Cola identificam referências visuais presentes nas embalagens e nos materiais de divulgação, ativando um repertório cultural previamente compartilhado. Esse reconhecimento produz um sentimento de pertencimento no qual o consumo se torna também uma forma de participação em uma comunidade cultural. 

Dessa forma, a análise dos parâmetros propostos evidencia como a comunicação da collab entre Bruna Tavares e Coca-Cola se apoia fortemente em estratégias que mobilizam nostalgia, colecionabilidade e reconhecimento cultural. Ainda que os produtos possam ser consumidos por públicos casuais, a coleção demonstra um esforço claro de dialogar com consumidores que possuem algum grau de familiaridade tanto com a trajetória da influenciadora quanto com o imaginário cultural da Coca-Cola. Nesse contexto, os cosméticos deixam de ser apenas objetos de uso cotidiano e passam a funcionar também como dispositivos de memória, pertencimento e identificação cultural. 

Observatório da Qualidade no Audiovisual

Comentar