Por Milena Rodrigues
Lançada em dezembro de 2020, Bridgerton é uma série da Netflix baseada na coleção de livros de mesmo nome, escrita por Julia Quinn, entre 2000 e 2016. Desde sua estreia, a série consolidou-se como um dos maiores sucessos da plataforma de acordo com o ranking oficial, tendo lançado sua quarta temporada em janeiro de 2026 e já confirmado a quinta. As temporadas seguem a lógica dos livros, cada uma conta uma história independente, que enfoca um membro da família Bridgerton e seus interesses românticos, porém, as narrativas se entrelaçam devido à relação familiar dos personagens.
Em meio a diversas famílias da aristocracia londrina, o protagonismo da narrativa se concentra na Família Bridgerton, composta pela matriarca Violet Bridgerton e seus oito filhos. Ao longo das temporadas, personagens como Daphne, Anthony, Colin e Benedict vivenciam os desafios e expectativas impostos pela sociedade da época, especialmente no que diz respeito ao casamento, à reputação e às normas sociais.
A história se passa em Londres, durante a Era Regencial britânica, período em que as famílias da alta sociedade organizam casamentos arranjados e procuram preservar sua reputação social, tentando abafar qualquer escândalo que possa comprometer sua posição. No entanto, tais acontecimentos frequentemente vêm à tona por meio de um panfleto social que divulga as fofocas da elite londrina, escrito por uma autora anônima sob o pseudônimo de Lady Whistledown. Dessa forma, parte da narrativa consiste em revelar a identidade da autora.
Embora a adaptação preserve a narrativa presente nos romances, a série também desenvolve subtramas e personagens, o que contribui para a ampliação do universo ficcional de Bridgerton. Atualmente, além dos nove livros escritos por Julia Quinn e das quatro temporadas da adaptação produzida pela Netflix, a franquia expandiu-se com a produção do spin-off Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton. A obra aprofunda a trajetória da personagem, que posteriormente também foi adaptada para o formato literário, evidenciando o que Kinder defende: “[…] como cada supersistema tem sua própria história única e seu próprio padrão de crescimento, as adaptações podem se mover em qualquer direção; o sequenciamento específico é apenas uma combinação projetada para atingir o pico de comercialização”. (Kinder, p.128, 1991).
Diante do expressivo sucesso alcançado pela franquia, a realização de parcerias com diversas marcas tornou-se uma estratégia recorrente de expansão para o mercado de consumo. Nesse contexto, foram lançadas coleções inspiradas na obra em diferentes segmentos, como esmaltes, acessórios, perfumes, sabonetes e vestuário. Assim, a presente análise concentra-se na coleção “Rules to Love By” (Regras para Amar), desenvolvida em colaboração com a marca Pandora.

A parceria entre Pandora e Bridgerton
A coleção Pandora x Bridgerton, intitulada “Rules to Love By”, lançada globalmente em janeiro de 2026 e no Brasil em fevereiro, reúne anéis, brincos e charms em prata de lei com banho de ouro 14k e zircônias. Ela reinterpretou a era regencial de forma contemporânea, com apenas quatro peças disponíveis no mercado brasileiro: dois anéis, um brinco e um charm.
O elemento central é a abelha, símbolo georgiano de cuidado e comunidade e ícone recorrente em Bridgerton ligado à família e à Lady Whistledown, assim como as flores, também muito presentes na coleção, evocando florescimento e transformação.
Durante os meses de janeiro e fevereiro, a conta oficial da Pandora divulgou a coleção por meio de suas redes sociais, com destaque para publicações no feed do Instagram. A campanha foi estrelada pelas atrizes Hannah Dodd (Francesca) e Claudia Jessie (Eloise), que interpretam irmãs na série. A estratégia de comunicação adotou como temática o amor e a amizade, além de uma estética que busca dialogar principalmente com o público jovem. Nesse sentido, grande parte das publicações e reels apresenta as atrizes utilizando as joias da coleção em cenários e figurinos que remetem à estética visual da série, embora incorporando elementos contemporâneos. Além disso, foi publicado um reel em que alguns membros do elenco de Bridgerton participam de uma dinâmica do tipo “this or that?”, escolhendo entre diferentes opções de joias durante o evento de lançamento da coleção.

Dessa forma, a presente análise foi baseada nos seguintes parâmetros: Colecionabilidade e mercantilização, Rede de Intertextualidade, Apelo Diverso e Literacia do fã.
Nesse sentido, a campanha transforma itens de Bridgerton em produtos colecionáveis exclusivos, com peças limitadas, a exemplo do colar azul usado por Eloise na quarta temporada estando entre os itens da coleção, o que estimula compra impulsiva e repetida.

No parâmetro de intertextualidade, esta é profundamente integrada ao universo de Bridgerton e à sua linguagem estética. As cores, símbolos e detalhes dos produtos apresentam diversas referências diretas à série, fortalecendo a conexão com os fãs e ampliando o reconhecimento do universo narrativo fora da tela. Um exemplo notável são os pingentes da amizade que fazem alusão à relação entre Penelope Featherington e Eloise Bridgerton, especialmente por meio da escolha das cores e dos elementos simbólicos. Um dos pingentes é dourado, com pedra verde e uma borboleta, remetendo às cores e aos figurinos frequentemente associados a Penélope. O outro é prateado, com pedra azul-bebê e uma abelha, símbolo diretamente relacionado à família Bridgerton.

Já no âmbito do apelo diverso, não foi observado um esforço, relacionado à divulgação, para atingir um público mais diverso. A narrativa mantida ao longo da campanha faz jus ao nome “Rules to Love By”, sendo que cada reel apresenta uma “regra” para amar, diretamente ligadas aos temas das gerações mais jovens. Algumas joias, contudo, não apresentam referências tão específicas ao universo de Bridgerton. Esse aspecto amplia o potencial de alcance da coleção, permitindo que consumidores de diferentes idades, sejam fãs da série ou não, possam se interessar pelas peças. Um exemplo é o par de brincos de abelhas douradas: para os fãs, o elemento remete diretamente à estética e aos símbolos recorrentes da série, já para quem não conhece a produção, a peça pode ser apreciada apenas pela estética e design.

Por fim, a literacia do fã está presente de forma ampla em todos os aspectos da coleção, por meio de elementos visuais, textuais e sonoros, como a trilha sonora da quarta temporada. Além da campanha ter sido divulgada nas redes sociais da marca, os elementos estéticos faziam referência ao universo da série, como as cores em tom pastel, usadas pelos Bridgertons, além de elementos presentes nos cenários, que se referem aos chá da tarde. Já em relação às peças da coleção, o uso da abelha junto às flores pode remeter tanto ao ocorrido com Edmund Bridgerton, como ao início do romance entre Kate Sharma e Anthony Bridgerton. Outro exemplo é o charm em formato de dance card, escrito em seu interior May I have this dance? (Me concede essa dança?). Esses cartões funcionavam como uma agenda de compromissos amorosos e sociais para as jovens debutantes durante os bailes. Dessa forma, torna-se evidente o uso de elementos e estratégias voltados especificamente para atingir os fãs da produção, uma vez que as referências foram elaboradas para atrair esse público. Ao incorporar elementos narrativos associados à série, a campanha busca estimular o interesse dos consumidores por meio do reconhecimento e do vínculo afetivo já estabelecido com a obra.

A partir dos pontos analisados, observa-se que o foco da campanha esteve centrado no design das joias, diretamente associado a elementos centrais da franquia, além de dialogar com o arco narrativo de determinados personagens.
No que diz respeito às estratégias de divulgação, percebe-se a construção de um storytelling que busca conectar as peças ao universo de Bridgerton; entretanto, essa articulação ocorre de maneira superficial, indicando a possibilidade de uma exploração mais aprofundada e integrada à narrativa da obra. Ainda assim, a coleção atingiu o público já engajado com a franquia, despertando uma conexão emocional com seu universo ficcional e reforçando o apelo simbólico das peças.









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