Observatório da Qualidade no Audiovisual

Horror é pipoca sem guaraná: uma analise da colaboração entre Wandinha e Guaraná

Por Lorena Fontainha

A série Wandinha estreou na Netflix em 23 de novembro de 2022, sendo bem recebida tanto por parte da crítica quanto pelo público. Focada no dia a dia escolar e nos desafios adolescentes da filha mais velha da Família Addams, na plataforma internacional de resenhas Rotten Tomatoes a primeira temporada alcançou média de 73% de aprovação da crítica especializada e 86% do público geral (Rotten Tomatoes, 2022). 

Segundo apontam Cardoso et al (2021) o pontapé inicial remonta as tirinhas produzidas por Charles Addams na revista The New Yorker no final da década de 1930, com personagens isolados que satirizavam o estilo de vida estadunidense tradicional. Com o sucesso, os personagens se tornam cada vez mais recorrentes e passam a compor de fato um clã, trazendo no seu humor macabro a chave para a sátira. Durante as décadas seguintes diferentes formas de retratar a Família Addams surgiram como a primeira versão da série para TV em 1964, as versões para o cinema nos anos 1990 (1991-1993) e as animações (2019-2021). 

Quebrando diversos recordes, a produção se tornou uma das mais vistas na língua inglesa na sua estreia (Gonçalves, 2025). Dessa forma, sua segunda temporada lançada no segundo semestre de 2025 atraiu a atenção de diversas marcas, incluindo a brasileira Guaraná, que desenvolveu uma campanha colaborativa com a série perto do lançamento dos novos episódios da produção. 

Análise

Contando com mais de 2 milhões de seguidores e mais de 13 milhões de curtidas, o perfil @guarana no TikTok trabalhou com diversos formatos de conteúdos na campanha conjunta entre Guaraná e a série Wandinha. Trabalhando com o mote “Horror é pipoca sem guaraná” a marca produziu 18 vídeos relacionados com a campanha no período entre 16/7/25 e 28/10/25, quando a segunda temporada de Wandinha estava sendo lançada pela Netflix. 

Ao observar os conteúdos percebe-se que o parâmetro Colecionabilidade e mercantilização se mostra presente de diferentes maneiras. As embalagens das latas normal e zero por apresentarem um design temático de Wandinha incitam o consumo, ainda mais por serem edições limitadas. Nesse aspecto, o que mais se destaca é a cadeia de consumo provocada pela miniatura do personagem Mãozinha. Por ser um item de venda condicionada, o brinde só poderia ser obtido de forma oficial ao comprar o kit com as mini garrafas de guaraná. A mini mão se encaixa na tampa da embalagem, reforçando o universo ficcional de Wandinha e explorando o consumo por meio da necessidade de colecionar os produtos limitados (Figura 1).

Figura 1 – Produtos da colaboração entre a série Wandinha e a marca Guaraná. Fonte: Blog São Carlos no Toque (2025)

O caso da Mãozinha gerou um ponto interessante: a estreia da marca Guaraná na ferramenta TikTok Shop. A venda com o brinde era muito limitada a grandes cidades brasileiras, assim, a marca ao gerar um canal de fácil acesso para compra, estimula o consumo, educando o público sobre a novidade, como mostrado nos exemplos 1, 2 e 3 da Figura 2. Nele, entendemos que o público primeiro é informado acerca da novidade, em seguida recebe informações sobre como comprar os produtos temáticos por meio da ferramenta e por fim é feito o reforço no desconto para obter o brinde. 

Figura 2 – Exemplos de conteúdos sobre a loja do Guaraná no TikTok Shop. Fonte: Capturas de tela no perfil @guarana no TikTok (2026). Vídeos disponíveis respecitivamente em bit.ly/4110VoJ , bit.ly/4lri98l e bit.ly/3P3b4Pb

Em Rede de intertextualidade detectamos a presença da mistura entre nostalgia e um formato viral do TikTok: as coreografias. Já na postagem de lançamento da campanha o clássico jingle da marca é refrescado, trazendo novas palavras como o personagem Mãozinha e introduzindo o mote da campanha. Assim como a série Wandinha reativa de certa forma  o universo ficcional da Família Addams muito famoso nos anos 1990, a música traz essa nostalgia em públicos um pouco mais velhos que cresceram com a versão clássica da letra, conforme ilustra a Figura 3. 

Figura 3 – Post de apresentação do jingle modificado para a campanha colaborativa. Fonte: Captura de tela no perfil @guarana no TikTok (2026). Vídeo disponível em bit.ly/3Nbb4Mt

Ao trazer uma coreografia para o jingle (Figura 4) a campanha encoraja o público a replicar no TikTok sua versão da dança, dialogando de certa forma também com a intertextualidade das cenas da própria série Wandinha, onde os momentos de dança são marcantes em ambas temporadas, com destaque para a alta reprodutibilidade na primeira temporada. Dessa maneira, o repertório cultural do público é constantemente acionado, estimulando que tais conexões sejam feitas por diferentes gerações. 

Figura 4 – Coreografia da campanha e chamada do público para participar da trend. Fonte: Captura de tela no perfil @guarana no TikTok (2026). Vídeo disponível em bit.ly/3NnhKad

No parâmetro Apelo diverso foi possível identificar a colaboração com diferentes criadores de conteúdos como Camila Viseu (@camiviseu), Ana Albuquerque (@tea4ana) e Brino (Bruno Moreira – @brino), embaixador da marca. Não somente difrentes gerações foram abarcadas na campanha, mas também diferentes recortes do público mais jovem. Temos vídeos mais focados no humor (exemplo 1), outros de personalização (exemplos 2 e 3), diversificando a forma como os produtos são apresentados (Figura 5). Dessa maneira reforça a mensagem de que o guaraná faz parte da rotina de diferentes grupos, seja na hora de montar seus looks e sair com os amigos, assistir séries em casa ou até se divertir jogando online.

Figura 5 – Participação de criadores de conteúdo nas postagens da campanha colaborativa. Fonte: Captura de tela no perfil @guarana no TikTok (2026). Vídeos disponíveis respecitivamente em bit.ly/4bDU36W, bit.ly/3P3inq5 e bit.ly/4uGjnRo

Por fim, em Literacia do Fã entendemos como exemplos o fortalecimento estético do universo ficcional de Wandinha a partir de elementos góticos e em preto e branco, bem como a presença do guaraná no momento de assistir a série, como um componente essencial para uma boa fruição da obra. Os exemplos 1 e 2 da Figura 6 reforçam como a “estética Wandinha” foi explorada pela marca. Também foi sugerida uma rotina perfeita para assistir a segunda temporada da série no exemplo 3.

Figura 6 – Universo ficcional de Wandinha e o ambiente perfeito para uma maratona da série. Fonte: Captura de tela no perfil @guarana no TikTok (2026). Vídeos disponíveis respecitivamente em bit.ly/46RzwsY, bit.ly/4lq21E7 e bit.ly/47sCXX6 

Como conclusão, é possível perceber que o elemento central que une os diferentes conteúdos é a identificação. Por meio de acionamentos de todos os quatro parâmetros identificamos que de diferentes formas o pertencimento do público com a série Wandinha e seu universo ficcional se deu, seja por meio de uma identificação com o ato de maratonar a série comendo pipoca e tomando um refrigerante brasileiro como participar de uma trend viral de dança no TikTok conectada com a produção. 

As escolhas tomadas na criação dos vídeos para o perfil @guarana no TikTok demonstram uma tentativa de pertencimento de diferentes gerações e grupos sociais, seja por meio da escolha de diferentes influenciadores cobrindo uma gama diversa de bolhas sociais como na escolha de resgatar o jingle pipoca e guaraná, adaptando para os personagens de Wandinha. As ferramentas nativas do TikTok também foram acionadas, como o uso de letterings para ensinar ao público a letra da canção tema como o recorte de comentários para ilustrar exemplos de repercussão pública do brinde e a tela verde para simular o processo de compra do kit promocional no TikTok Shop. 

Assim, mesmo que de forma simbólica é gerada uma sensação de proximidade do público com Wandinha, com a marca Guaraná se colocando como mediadora desse processo. Por ser uma colaboração limitada, é reforçado no público o senso de urgência de consumo, tanto da série enquanto elemento de destaque e novidade da segunda temporada quanto dos produtos que em breve estarão indisponíveis. 

Referências

CARDOSO, D.; MARQUES, L. G.; BRESSAN JÚNIOR, M. A. Memória e a arte do grotesco na cultura televisiva: uma análise da série A Família Addams. Revista Crítica Cultural, Palhoça, SC, v. 16, n. 2, p. 203–213, 2021. Disponível em: bit.ly/4bnKKXB. Acesso em: 10 mar. 2026.

GONÇALVES, G. A ‘nova’ série da Netflix que se tornou sua 2ª mais vista em inglês na história. Rolling Stone Brasil, 4 jun. 2025. Disponível em: bit.ly/417gdZ3.

ROTTEN TOMATOES. Wednesday: Season 1. Rotten Tomatoes, [s.d.]. Disponível em: bit.ly/46XVGtD. Acesso em: 12 mar. 2026.

 

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