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A série Bridgerton é uma produção de televisão via streaming que conquistou grande popularidade desde sua estreia. Inspirada na série de romances escrita por Julia Quinn, a obra se consolidou como uma referência contemporânea para o público que aprecia narrativas de romance de época. Os livros, e posteriormente a adaptação televisiva, acompanham a trajetória de oito irmãos da família Bridgerton (Anthony, Benedict, Colin, Daphne, Eloise, Francesca, Gregory e Hyacinth), cujas histórias se desenvolvem à medida que cada um deles ingressa na vida social e matrimonial da aristocracia londrina.
A adaptação foi criada por Chris Van Dusen e produzida pela Shondaland para a plataforma de streaming Netflix. A série estreou em 25 de dezembro de 2020, alcançando rapidamente grande repercussão entre o público, e atualmente conta com quatro temporadas. O crescimento contínuo do interesse do público contribuiu para a renovação da produção ao longo dos anos, e até o momento a série conta com quatro temporadas, sendo a mais recente lançada em 2026. Ambientada no século XIX, durante o período da Regência inglesa, a narrativa se passa em uma versão ficcional e estilizada de Londres, na qual aspectos históricos são reinterpretados para compor um universo narrativo próprio. Nesse contexto, a trama acompanha a chamada “temporada social”, período em que jovens mulheres da aristocracia são apresentadas à sociedade com o objetivo de encontrar pretendentes e estabelecer alianças matrimoniais. A série explora os jogos sociais que envolvem reputação, status e casamento dentro da elite londrina.
Expansão da franquia
A expansão do universo de Bridgerton pode ser observada na forma como a narrativa ultrapassou os limites da série principal. O sucesso da produção levou à criação do spin-off Queen Charlotte: A Bridgerton Story, além da circulação de elementos visuais e narrativos da obra em outras plataformas, como redes sociais, conteúdos promocionais e produtos associados à série.
Esse tipo de expansão pode ser relacionado ao conceito de “transmedia intertextuality” (intertextualidade transmídia), discutido por Kinder (1991)que descreve a circulação de personagens, narrativas e elementos simbólicos por múltiplos meios e formatos. Nesse processo, o universo ficcional deixa de se restringir ao texto original e passa a se desdobrar em diferentes mídias, ampliando as possibilidades de interação e reconhecimento por parte do público.
No caso de Bridgerton, isso também aparece na popularização de sua estética romântica e aristocrática nas redes sociais, em tendências de moda e até em eventos inspirados no universo da série. Elementos visuais marcantes da série como figurinos elaborados, ambientes aristocráticos e referências ao romance de época, passam a ser apropriados em conteúdos digitais, experiências temáticas e produtos inspirados na narrativa. Dessa forma, o universo da série ultrapassa os limites da obra audiovisual e passa a operar como uma franquia cultural, capaz de mobilizar diferentes formas de engajamento e consumo.
Contexto Bauducco
A Bauducco é uma das marcas mais tradicionais do setor alimentício no Brasil e a maior fabricante de panetones do mundo, além de estar entre as principais produtoras de alimentos fornecidos da América do Sul. A empresa foi fundada pelo imigrante italiano Carlo Bauducco, que chegou ao Brasil na década de 1950 trazendo uma receita familiar de panetone. A partir de uma pequena doceria no bairro do Brás, em São Paulo, o produto começou a ganhar popularidade, levando à inauguração da primeira fábrica da empresa em 1962.
Ao longo das décadas seguintes, a marca expandiu significativamente sua produção e presença no mercado, diversificando seu portfólio para além do panetone e consolidando-se como um grupo alimentício de grande alcance internacional. Atualmente, a empresa comercializa uma variedade de produtos forneados, como biscoitos, wafers, bolos, torradas e outros itens voltados para o consumo cotidiano, ampliando sua presença em diferentes momentos de consumo. Esse crescimento levou à formação do Pandurata, grupo responsável por reunir as diferentes marcas da companhia.
Nos últimos anos, a Bauducco também passou a investir em estratégias de aproximação com o consumidor por meio de experiências de marca, como a criação das lojas Casa Bauducco, inauguradas a partir de 2012. Esses espaços buscam traduzir os valores tradicionais da empresa em uma experiência de consumo mais direta e imersiva. Ao mesmo tempo, a marca tem buscado atualizar sua comunicação para dialogar com novas gerações de consumidores, ampliando o significado de família em seu posicionamento institucional e explorando novas estratégias de branding e parceria com produtos culturais contemporâneos.
Apresentação da campanha
A Bauducco, uma das marcas mais tradicionais e consumidas do Brasil, se uniu à Netflix e à Shondaland para lançar uma linha exclusiva de produtos inspirados no universo de Bridgerton. A campanha #BauduccoBridgerton foi lançada em conjunto com a estreia da terceira temporada da série. A linha de produtos temáticos inspirados na estética e no imaginário da série, foram comercializados nas lojas Casa Bauducco. A iniciativa faz parte do movimento de “contemporanização” da Bauducco, cujo objetivo é permitir que a marca se conecte com novas gerações sem perder sua essência tradicional.
Nesse sentido, a parceria também pode ser compreendida dentro do conceito de média supersystem, proposto por Kinder (1991), segundo o qual determinadas narrativas ultrapassam seu meio de origem e se expandem para diferentes plataformas e produtos culturais, criando um sistema interligado de consumo e experiência midiática. Ao incorporar elementos estéticos e simbólicos de Bridgerton em seus produtos, esse o universo ficcional da série passa a circular também por meio de produtos e ações de marketing, ampliando sua presença em outros contextos culturais.
Estratégias da campanha
A estética dos produtos foi pensada para remeter ao universo da série, de modo que os fãs associam rapidamente os itens à marca. Tal aspecto pode ser relacionado ao conceito de colecionabilidade e mercantilização, no qual o media supersystem (Kinder, 1991) utiliza a circulação de diferentes produtos associados a uma mesma narrativa para ampliar o consumo e fortalecer o engajamento do público com o universo ficcional. Nesse processo, os produtos deixam de funcionar apenas como itens isolados e passam a integrar uma experiência temática ligada à franquia midiática. A embalagem da edição Choco Biscuit, produto que combina um biscoito crocante com uma barra de chocolate, apresenta uma caixa amarela personalizada com detalhes elegantes e um efeito que remete a bordados nas bordas. A caixa também traz a presença de uma abelha, elemento que faz referência à terceira temporada da série, além de um ícone em forma de coroa estampado no biscoito.

Além do Choco Biscuit, outros produtos da linha seguem a mesma lógica estética, reforçando a coerência visual da campanha. O muffin de frutas vermelhas, por exemplo, também apresenta embalagens com detalhes que remetem a bordados delicados, além de versões em caixas retangulares e em formato de coração, elementos que evocam elegância e romantismo características frequentemente associadas ao universo narrativo de Bridgerton. Esse tipo de apresentação visual aproxima os produtos da atmosfera aristocrática retratada na série, remetendo simbolicamente a práticas como os tradicionais chás da tarde presentes na narrativa. Nesse sentido, a campanha transforma elementos visuais da narrativa em signos de consumo, permitindo que o público reconheça e experimente o universo simbólico da série por meio dos produtos.
O palmier, por sua vez, mantém o mesmo padrão visual das embalagens dos biscoitos, com cores suaves e elementos ornamentais que dialogam com o design inspirado no período regencial inglês. Essa padronização estética contribui para a construção de uma identidade visual coesa, permitindo que diferentes produtos sejam imediatamente reconhecidos como parte do mesmo universo temático.
No parâmetro da rede de intertextualidade, Kinder (1991) discute como diferentes mídias passam a compartilhar signos, referências e elementos visuais que permitem ao público reconhecer determinadas narrativas em novos contextos. Na campanha, isso pode ser observado nas publicações iniciais feitas pela marca no Instagram, que utilizavam cores, ornamentos e composições visuais associados ao universo estético da série. Mesmo sem explicitar imediatamente a parceria, os elementos presentes nas imagens permitiam que fãs de Bridgerton identificassem rapidamente a referência à narrativa.


A campanha também se expandiu nas redes sociais por meio de interações com outras marcas que dialogaram com o universo estético de Bridgerton. Um exemplo é a publicação realizada pela marca de esmaltes Risqué, que apresentou uma composição visual inspirada na estética da série, combinando elementos como porcelanas, doces e produtos Bauducco em uma mesa de chá que remete ao imaginário aristocrático presente na narrativa. A presença dos esmaltes na composição contribui para ampliar o ambiente simbólico associado à série, articulando diferentes produtos de consumo dentro de uma mesma atmosfera estética.

Outro movimento importante da campanha foi o uso de influenciadores digitais. Os mesmos foram inseridos simbolicamente no universo da série, aparecendo em vídeos nos quais provavam os produtos e interagiam com os elementos visuais inspirados na narrativa. Essa estratégia amplia a circulação do imaginário da série para além da própria produção audiovisual e dos produtos licenciados, estendendo-o também às redes sociais. Dessa forma, a campanha passa a operar dentro da lógica descrita por Kinder (1991) como um supersistema de intertextualidade transmídia, mobilizando diferentes plataformas na circulação e reforço do universo simbólico da série. Nesse contexto, os influenciadores atuam como mediadores entre a marca e o público, contribuindo para ampliar a circulação do imaginário da série e estimular formas de consumo associadas ao universo narrativo da campanha.
Experiência nas lojas Casa Bauducco
No parâmetro do apelo diverso, Kinder (1991) discute como os universos transmídia buscam atingir diferentes públicos por meio de múltiplas formas de experiência e identificação. Como parte das estratégias de ativação da campanha, a Bauducco também investiu em experiências presenciais nas lojas Casa Bauducco, buscando aproximar o público do universo estético da série. Uma das principais ações ocorreu na unidade da Avenida Paulista, em São Paulo, que recebeu uma ambientação temática inspirada na narrativa da série. A decoração do espaço incorporou elementos visuais associados ao imaginário aristocrático e romântico presente em Bridgerton, criando um ambiente imersivo que buscava transportar simbolicamente os consumidores para o universo ficcional da obra. Dessa forma, a ambientação temática transforma o consumo dos produtos em uma experiência de marca associada ao imaginário da série.
Além da ambientação temática, a campanha também incluiu ações promocionais, como um sorteio que levaria um participante para Londres, cidade onde a narrativa da série é ambientada. Esse tipo de estratégia amplia o engajamento do público ao conectar a experiência de consumo a elementos do universo narrativo da produção.
No parâmetro da literacia do fã, observa-se a participação ativa do público na circulação da campanha. Outro aspecto relevante foi a circulação dessas experiências nas redes sociais, que pode ser entendido com a literacia do fã.No parâmetro da literacia do fã, observa-se a participação ativa do público na circulação da campanha. Consumidores que visitaram as lojas passaram a compartilhar vídeos e registros da ambientação temática, especialmente em plataformas como TikTok e Instagram, ampliando a visibilidade da campanha para além do espaço físico das lojas. Dessa forma, a experiência proposta pela marca ultrapassa o ambiente presencial e passa a circular também no ambiente digital, reforçando o engajamento do público com o universo simbólico da série e com os produtos da campanha.
A aproximação entre Bauducco e o universo de Bridgerton torna-se estratégica ao mobilizar valores simbólicos semelhantes, como tradição, família e uma estética de elegância associada ao luxo acessível, permitindo que o imaginário aristocrático da série seja traduzido em uma experiência de consumo cotidiana. Ao integrar produtos, redes sociais, influenciadores e experiências presenciais nas lojas Casa Bauducco, a campanha amplia a circulação do universo narrativo da série para além da obra audiovisual. Nesse sentido, a iniciativa pode ser compreendida como parte de um processo mais amplo de expansão cultural e midiática, no qual diferentes plataformas e práticas de consumo contribuem para fortalecer o engajamento do público com a narrativa. Assim, a campanha evidencia como o universo de Bridgerton se consolida como uma franquia cultural capaz de articular entretenimento, experiência de marca e estratégias de consumo dentro de um sistema midiático ampliado, aproximando-se da lógica do media supersystem discutida por Marsha Kinder.
Referências
KINDER, Marsha. Playing with power in movies, television, and video games: from Muppet Babies to Teenage Mutant Ninja Turtles. Berkeley: University of California Press, 1991.
LAGOA NERD. Bauducco e Netflix apresentam parceria inédita inspirada em Bridgerton. Lagoa Nerd, 2 maio 2024. Disponível em: https://www.lagoanerd.com.br/post/bauducco-e-netflix-apresentam-parceria-inedita-inspirada-em-bridgerton. Acesso em: 15 mar. 2026.









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